Intervenções
sobre o projeto da Constituição sobre a Liturgia no CVII
Excertos
de: VVAA. El porque de la reforma litúrgica. Barcelona: Estela, 1964.
Da
intervenção do então Cardeal Montini (Congregação geral do CVII de 22/10/62)
Seja-me permitido, como
Metropolitano de Lombardia e moderador do rito ambrosiano, tomar a palavra para
aprovar, publicamente, o projeto apresentado, no que a sua substância se
refere, e indicar a esta magna Assembleia o princípio no qual se baseia, a meu
parecer, todo o esquema: Este princípio é o da transcendência que se reconhece
à Sagrada Liturgia e sua importância de ordem pastoral.
[...]
Neste projeto sobre a Sacra
Liturgia, tomado em sua totalidade, parece-me que há um verdadeiro equilíbrio
entre dois pontos que constituem o fim pastoral do Concílio:
1. O projeto não foi
introduzido com ligeireza, nem arbitrariamente, por um simples afã de
inovações, as quais as mais das vezes lesionam os elementos divinos e humanos
do cristianismo, que, graças à Sagrada Liturgia se conservaram em sua tradição
e pureza original, através de tantos séculos. Ao mesmo tempo, os que seguimos o
rito ambrosiano desejamos seguir fiéis ao mesmo.
2. Mas tampouco admite a
posição daqueles que sustentam que um rito é absolutamente invariável, ou que
se aferram excessivamente às cerimônias herdadas e às formas em que se expressa
o culto, o que com frequência os leva a afastar-se do sentido primigênio
daquele. Porque não há que esquecer que existe uma íntima relação entre Deus e
o homem, entre Deus e a comunidade de fiéis. E os que de tal modo se aferram
ao passado parecem ignorar o cúmulo de necessidades e as vicissitudes que vão
se sucedendo na vida dos homens (grifos meus).
[...] Sobretudo [o projeto]
trata de defender e salvaguardar a própria essência da liturgia, mas ao mesmo
tempo tenta dar – com a máxima precaução e de uma maneira gradual – maior
variedade e elasticidade às formas tradicionais ou históricas, com o fim de que
a celebração dos divinos ofícios seja mais compreensível para o homem atual (grifos
meus).
O projeto, desta maneira,
não lesiona o divino nem o culto católico [...], de sorte que as Comissões
pós-conciliares – e com elas os bispos, que na pastoral têm a primeira palavra
– conseguirão que este patrimônio seja mais acessível, mais inteligível e
por isso mais proveitoso para os homens de nosso tempo, dos quais nós, como
pastores, temos a responsabilidade, como grave dever de consciência (grifos
meus).
Mas ao mesmo tempo tampouco
podemos nos esquecer de nosso dever para Deus e para Cristo com relação ao povo
cristão e aos homens de nosso tempo. Ninguém pode ignorar que a sociedade
atual, que sofre uma gravíssima crise religiosa, deve ser conduzida a Cristo, à
Igreja e à salvação, através da Palavra da Liturgia.
E ante este dever temos
de refletir profundamente se lhes falamos na língua que realmente deveríamos
usar na liturgia. O uso da língua clássica, legada por nossos antepassados,
e em concreto a língua latina para a Igreja latina, deve seguir invariável
nas partes do rito que são sacramentais e sacerdotais em sentido próprio e
verdadeiro da palavra. Isto é indispensável para que a unidade do Corpo
místico orante e a formulação dos textos sagrados sejam perfeitamente
salvaguardados. Mas no que toca ao povo, deve ser aplainada toda dificuldade
de inteligência especialmente nas partes didáticas da Sagrada Liturgia, oferecendo-se
ocasião a que os fiéis possam expressar em palavras inteligíveis, as orações
que eles dirigem a Deus (grifos meus).
Não devemos esquecer que S.
Paulo, no capítulo XIV da I Carta aos Coríntios sustenta que aquele que ora na
Igreja deve entender o que diz, para que seu “Amém” seja verdadeiro e
consciente. A Liturgia foi estabelecida para os homens, não os homens
para a Liturgia. Ela é a oração da comunidade cristã. Se nós desejamos que
esta comunidade não abandone jamais nossa Igreja, senão que contribua a
edificá-la, conforme a esta sua vida interior e expresse digna e valorosamente
sua fé, com a devida cautela, mas sem demora e sem escândalo temos de
superar o obstáculo que supõe uma língua que não é compreendida, ou que
é dificilmente acessível a uns poucos e que não convida o povo a participar
no culto divino, senão que pelo contrário o afasta... (grifos e
negritos meus)
[...]
Da mesma forma, em minha
opinião, há que se elogiar o princípio segundo o qual as cerimônias devem
reduzir-se a uma forma mais simples, sem prejudicar em nada a beleza e o
fecundo simbolismo do culto, senão para conseguir que sejam breves e objetivas,
evitando todas as repetições e complicações desnecessárias. Este
princípio abre um novo panorama à reforma litúrgica que se anuncia, para
adaptá-la à mentalidade dos homens de hoje, que é distinta, ainda nos mais
piedosos e crentes (grifos meus).
* * *
2)
Da intervenção do Dr. Huns Küng
Desvio do objetivo inicial
do Concílio?
A discussão a reforma
litúrgica se prolongou no Concílio Vaticano II, durante várias semanas. [...] É
compreensível que alguns cristãos, em especial os evangélicos, coloquem-se esta
pergunta: Que tem a ver tudo isto com o fim primordial do Concílio? Mas é
que não foi convocado o Vaticano II para promover a unidade dos cristãos
separados? A reforma da liturgia, não é na realidade um assunto interno da
Igreja católica? (grifos meus)
É certo que o Concílio
Vaticano II foi convocado pelo Papa para preparar a união. [...]
A questão, na realidade, é
esta: Como se pode conseguir a união? Indubitavelmente, não como muitos
opinam, e em especial entre os cristãos evangélicos: mediante negociações
organizadas e conferências de cúpula interconfessionais. Os problemas radicam
em algo mais profundo que o simples plano de gestões organizadas. Mas tampouco
consiste, como muitos católicos creem, em uma simples reintegração maciça à Igreja católica – como se só fossem os
outros os que tivessem que retificar sua conduta – , ou em umas meras
conversões individuais – como se com isso se pudesse conseguir a reincorporação
das comunidades separadas –, ou em uma simples reforma moral comum, como se a
união não se tratasse de uma aspiração concreta e determinada, muito mais
profunda que o aspecto moral somente. O
Vaticano II vê sua tarefa de outra forma: a união com os cristãos separados só
poderá ser obtida sob o pressuposto da renovação da Igreja.
Só através da renovação da
Igreja católica se conseguirá este magno objetivo, desde que esta renovação se
verifique como a realização dos legítimos desejos dos outros, ou seja,
dos ortodoxos, dos evangélicos, anglicanos e das igrejas livres, à luz do
Evangelho de Jesus Cristo, que é o que deve nos guiar neste assunto.
Evidentemente a Igreja Católica tem a plena esperança de que os demais cristãos
se aproximarão a nós pelo mero fato de que o realizar as legítimas aspirações
católicas à luz do Evangelho suporá sua própria renovação.
O Vaticano II pretende levar
a cabo uma renovação da Igreja Católica, que havia começado com a
“Contrarreforma”, com um sentido conservador, e que prosseguiu com Leão XIII,
no fim do século passado, com um espírito mais construtivo e criador, a fim de
dar um passo adiante no caminho do encontro ecumênico. Esta é a base sobre a
qual cabe considerar a atual discussão acerca da reforma litúrgica. Entretanto,
perguntamo-nos: a liturgia tem de fato uma importância ecumênica? A isto
temos de responder [...] que o próprio fato de ter começado pela reforma
litúrgica supõe já uma importância ecumênica.
Por que primeiro que tudo a
reforma litúrgica?
[...] Contra todas as
tendências orientadas em sentido nada ou pouco ecumênico, o Concílio se decidiu
a tratar o esquema litúrgico em primeiro lugar, o qual, desde o ponto de vista
ecumênico tem duas importantes consequências:
1. Concentração sobre o
pastoral prático: o perigo da “doutrinalização” do Concílio se evita...
[...] a preferência pela
reforma litúrgica e a concentração sobre o pastoral prático é algo muito
positivo em favor dos afãs ecumenistas. O presente decreto sobre a liturgia
não pretende fixar nenhum dogma. Deste modo se significa que é muito possível
levar adiante a renovação da Igreja e com isso a aproximação das confissões
cristãs sem que previamente se discutam as questões teóricas. [...] é por
meio da renovação prática, ancorada no Evangelho e não em uma teologia
determinada, que há que se preparar e aplainar o caminho para as discussões
teológicas (grifos meus).
2. Situar-se no centro.
[...] O centro da vida da Igreja é e segue sendo sempre o culto. Se se
consegue renovar o culto da Igreja isso não poderá menos que irradiar sobre
todas as esferas da atividade da Igreja. Se se consegue dispor com uma visão
ecumênica o culto católico, será da máxima importância par aa união dos
cristãos separados. A renovação do culto divino ocupou já o centro da Reforma
[protestante]. O Concílio de Trento levou a cabo uma renovação considerável do
culto católico só pelo fato de eliminar alguns espantosos abusos e de ordenar
de novo o culto. Mas a reforma litúrgica de Trento foi mais uma
“restauração” do “statu quo” primitivo, que uma verdadeira renovação
construtiva e criadora da liturgia, à luz do Evangelho, e uma adaptação
às exigências dos novos tempos. Certo
que aquele Concílio não pôde dispor dos luminosos resultados da moderna ciência
histórica e teológica, dos que agora dispõe o Vaticano II. Graças à obra do P.
J. A. Jungmann “Missarum Solemnis”, [...] podemos entrar definitivamente em
conhecimento e consciência de como a missa se desenvolveu através dos séculos.
Não é de estranhar, pois, que alguns dos desejos dos reformadores do século XVI
não tenham encontrado até agora uma resposta positiva e que tenham permanecido
insatisfeitos. A preferência pela reforma litúrgica e o situá-la em um ponto
central é, por estas razões, da maior importância em ordem à união com os
irmãos separados.
Na
realidade, a reforma litúrgica, tal como a enfocou a Igreja católica,
orienta-se com um sentido ecumênico? Para dizer a verdade, o que não podia
dizer-se da restauração litúrgica do século passado, segundo o espírito do
tradicionalismo e do romantismo (Dom Guéranger e Solesmes), há que se
reconhecer da renovação litúrgica deste século e em particular do Vaticano II:
a renovação atual tem presentes e abraça os afãs reformadores [protestantes]
essenciais. Vamos expô-los em um sucinto esquema estrutural, para destacar
depois alguns aspectos particulares. Todavia hoje não se pode predizer até que
ponto o atual movimento renovador eclesial conseguirá se impor.
Afãs
evangélicos na reforma católica litúrgica?
1.
Assimilação
à Ceia de Jesus – A censura que os reformadores faziam era que a missa tinha se
tornado uma “cerimônia”, e que já nada tinha que ver com a Ceia
de Jesus, e que se achava manchada por abusos e vícios, ao ponto de ter se
convertido em uma pura “superstição”. Os católicos
somos da opinião que o essencial, ou seja, o “fazei isto em minha memória” sempre
se manteve. Entretanto, é indiscutível que a estrutura
fundamental, originária e essencial do culto eucarístico, foi de mil modos
deformada e escamoteada no decurso dos séculos [nota: esta
opinião, que é ímpia, encontra-se na antípoda da tese que eu estabeleci no
capítulo; os grifos e negritos são meus]. A missa, em
uma origem, foi uma simples celebração de ação de graças, comunitária,
perfeitamente inteligível. Constava de uma única oração de ação
de graças (eucaristia), formulada livremente, na qual se repetia o relato da
instituição da Ceia e da entrega dos dons; a língua era
a do povo, os signos eram claros e expressivos: eram apresentados o pão e o
vinho de uso comum e todos recebiam o Corpo e o Sangue do Senhor. Esta
estrutura básica original nos tempos posteriores foi em parte desfigurada: pela
anexação de novos elementos na oração de ação de graças e de inumeráveis
adições e filigranas, pela utilização de uma língua litúrgica incompreensível
para os demais, pela recitação em voz baixa dos textos de maior importância,
pelo desnecessário aumento de elementos externos e uma “solenização” do culto
divino frequentemente totalmente alheios ao objetivo pastoral da celebração,
pelo esquecimento do caráter de “reunião” que tinha o ato eucarístico, entre
outros...
A
renovação litúrgica que agora se intenta trata de voltar a estabelecer a
relação do ato eucarístico com a última Ceia mediante uma reforma total do rito
que acerte a restabelecer o essencial. Isso equivale a suprimir o acessório, a abreviar,
a evitar repetições e duplicidades, a restabelecer as boas tradições antigas,
etc. É da maior importância a reinstauração da antiga oração
eucarística, e com isso a reforma do cânon. A assimilação da
celebração eucarística à última Ceia do Senhor é de um significado plenamente
ecumênico (grifos e negritos meus).
2.
Proclamação
da Palavra de Deus – Uma das recriminações dos reformadores era que a
Palavra de Deus já não se ouvia nos divinos ofícios dos católicos. A
proclamação tem lugar em uma língua incompreensível, os textos da Escritura não
se explicam ao povo, descuida-se a pregação...
[...]
A
renovação litúrgica atual persegue o objetivo de restabelecer com todo seu
vigor a proclamação da Palavra de Deus [...]: de dar uma leitura inteligível da
Sagrada Escritura na própria língua do povo; dar leitura aos textos que até
agora se omitiam (nova ordem de perícopes que deverá se estender a um ciclo de
vários anos); de destacar a importância da predicação; de restabelecer os
antigos ofícios da Palavra (que em especial em países pobres em sacerdotes
possam ser exercidas com independência da celebração eucarística); de empapar
toda a Liturgia (inclusive os cantos e os “exercícios de piedade”) do espírito
da Sagrada Escritura.
[...]
3.
Culto
do ministério do povo fiel – Outra das recriminações da Reforma foi a de que,
tanto a Igreja, como a liturgia medievais haviam se clericalizado em sumo grau.
O povo chegou a ficar descartado de maneira que, fundamentalmente, só ao
sacerdote foi assinalada uma parte ativa no culto.
Na
Igreja primitiva o povo tinha uma parte ativa na liturgia: orava-se em comum,
cantava-se em comum, consumia-se o Corpo do Senhor e bebia-se seu Sangue em
comunidade. A implantação da liturgia romana na França deu como resultado uma
total eliminação da participação ativa dos fiéis: a língua latina, que o povo
não entendia, a redução da celebração comum a uma contemplação passiva [...];
uma solenização que vinha a cobrir cada vez mais o essencial; [...] a
celebração da missa, em vez de em face do povo, em face da parede [...]
A
renovação litúrgica que agora se pretende trata de restabelecer de novo o culto
divino como culto de todo o povo sacerdotal. O fim
primordial desta renovação [...] é o de reinstaurar a participação ativa do
povo em toda a liturgia: uma disposição do culto que o faça inteligível: orar e
cantar em comum, participar em comum no ágape eucarístico, uso da língua vulgar
e comunhão com as duas espécies, evitar as “missas privadas”, renovação da
música sacra com fins pastorais mediante novas formas de canto dos salmos, etc.
Sem dúvida, tudo isto representa a realização dos desejos ecumênicos
essenciais.
4.
Adaptação
à mentalidade de cada povo – Foi censurada também a “romanização” inoportuna,
tanto da Igreja como da liturgia católicas. O culto não se adapta de nenhuma
maneira à mentalidade de cada povo, nem a sua estrutura, nem a sua língua, nem
a seus gestos.
[...]
A
renovação que agora se propõe persegue o objetivo de adaptar de novo o culto,
no que seja possível, ao gênio de cada povo, com o fim de que a liturgia da
Igreja volta outra vez a ser uma autêntica liturgia popular. Unidade
não quer dizer, forçosamente uniformidade: totalidade,
não significa singularidade. [...] Tudo isto significa uma grande independência
para o episcopado de cada país e uma descentralização a respeito da cúria
romana. Devem buscar-se outros ritos, principalmente para os países
de missão (estes últimos grifos são meus) [...]
* * *
O Consilium e a confecção do novo missal
Comentários a excertos de: BUGNINI,
Annibale. La reforma de la liturgia: 1948-1975. Madri: Biblioteca de
Autores Cristianos, 1999.
O novo missal representa um novo
rito. Vejamos o modo e o espírito com o qual ele foi formado, segundo o
testemunho de D. Annibale Bugnini, secretário do Consilium ad exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia, órgão responsável por executar a reforma litúrgica conciliar. Em seu livro A reforma litúrgica, Bugnini explica os passos da
fabricação do novo missal, cujas mudanças estruturais foram o tempo todo
acompanhadas por Paulo VI, o qual, como veremos, se, por um lado, quis manter
certos elementos tradicionais que o Consilium queria retirar, por outro, quis
modificar outros elementos tradicionais que o Consilium queria manter!
A respeito da primeira fase dos
trabalhos (abril 1964-outubro 1965), Bugnini afirma que o Consilium, partido do
art. 50 de SC, e recordando a “necessidade de uma clara distinção entre a
liturgia da palavra e a liturgia da eucaristia”, considerou o seguinte (em
abril de 64):
Entre as partes do Ordo Missae
parece que devem ser revisados cuidadosamente os ritos iniciais, o ofertório, a
comunhão e a despedida, aos quais se somaram diversos elementos quando o rito
romano passou às Gálias. Por exemplo, se deveria:
a)
diminuir o número de sinais da cruz, beijos ao altar, genuflexões,
inclinações e coisas parecidas;
b)
encurtar e simplificar as orações ao pé do altar;
c)
prover, ao menos nos dias mais solenes, a participação do povo ou de seus
representantes nos ritos do ofertório (como na liturgia ambrosiana); as orações
que acompanham a oferenda dos dons deveriam expressar igualmente o sentido da
oblação e a oração sobre as oferendas deveria dizer-se em voz alta;
d)
aumentar o número de prefácios e dizer o cânon em voz alta;
e)
dizer também em voz alta o embolismo do Pai nosso, como se faz na ação
litúrgica da Sexta-Feira Santa;
f)
ordenar melhor o rito da fração do pão;
g)
abreviar a fórmula da comunhão, por exemplo, “Corpus Christi, Amen”,
como se faz na liturgia de Santo Ambrósio;
h)
terminar a missa com a bênção e a fórmula de despedida “Ite, missa est” (p.
299).
O grupo de estudos fez outras “valiosas
observações” (sic); destaco:
1.
O ponto de partida da reforma não deve ser a missa “privada”, senão a
“missa com o povo”; e não a missa lida, senão a missa com canto. [...]
2.
Estudo especial merece o número de leituras e sua longitude. É
conveniente que habitualmente se façam três leituras: de profeta, apóstolo e
evangelho?
3.
Os problemas acerca do cânon são muitos:
a)
reduzir o número de cruzes?
b)
omitir os “Améns” dentro do cânon, exceto o último que diria todo o
povo?
c)
não deveriam dizer-se em voz alta todo o cânon, ou ao menos a Doxologia
final, e as principais orações?
d)
não se poderiam intercalar no cânon aclamações do povo como se faz em
outras liturgias?, não deveriam ser revisadas as séries dos santos, para
fazê-las mais fiéis à verdade histórica, e outras fórmulas, para qu seu sentido
seja mais facilmente compreendido pelos fiéis?
4.
Também a parte final da missa deveria ser revisada a fundo: suprimir o
último evangelho?, prover salmos e cânticos para o espaço reservado à ação de
graças depois da comunhão?, propor várias fórmulas para a bênção do povo? (pp.
299-300).
Em outubro de 1964, foram aprovadas
algumas normas que deviam guiar o grupo na elaboração definitiva do Ordo
Missae:
1. A descrição do rito da missa partirá
da missa celebrada com canto, com um leitor, um servente pelo menos, um coro ou
um cantor e o povo.
2. O lugar próprio da liturgia da
palavra é o ambão, o da eucarística, o altar.
3. Haverá só uma oração coleta, outra
sobre as oferendas e outra depois da comunhão.
4. Nos domingos e dias festivos haverá
três leituras.
5. Ademais do Credo
niceno-constantinopolitano, poderá ser usado em algumas circunstâncias e
situações o símbolo apostólico, recitado ou cantado.
6. A bênção final poderá ser cantada.
7. No texto latino se conserva a
despedida “Ite, missa est”, que poderá ser traduzida do modo mais conforme com
a índole própria de cada língua vulgar.
8. Na entrada, no ofertório e na
comunhão, poderão se introduzir cantos adaptados ao tempo e à ação sagrada (Ibid.,
p. 301).
Alguns novos elementos encontraram
sua aplicação prática quando entrou em vigor uma primeira versão do novo Ordo
Missae em 7 de março de 1965. Depois da sexta reunião geral do Consilium
(junho de 65), chegou-se ao esquema completo do Ordo Missae: “Schema primum Ordinis Missae normativae”:
“Chama-se missa ‘normativa’ porque, entre as diversas formas de celebrar a
missa, que sempre devem existir, é a que serve de norma para todas as demais” (Ibid., p. 302). Este esquema foi discutido em setembro de
1965, na sétima reunião geral do Consilium. Conforme o esquema:
a
celebração começa com o canto da assembleia. Os ministros fazem o sinal da cruz
em silêncio. Vem depois a saudação do celebrante e o ato penitencial, Kyrie, Gloria e coleta. O ponto discutido era o de se a
sucessão de três cantos: entrada, Kyrie e Gloria, que podia fazer pesados estes ritos
iniciais. Propunha-se fazer facultativo o canto do Kyrie.
Liturgia da palavra, com três leituras (facultativas), homilia,
símbolo nos domingos e dias de preceito, e oração dos fiéis. Esta oração se
considerava como um elemento estrutural e fixo da celebração, que não deveria
ser omitido “em nenhuma celebração, nem sequer nos dias feriais e,
oportunamente adaptada, tampouco nas missas privadas”
Ofertório: começa com o lavabo das mãos; segue a
preparação dos dons, levados ao altar e postos nele pelo celebrante com umas
fórmulas breves.
[Nota de rodapé:
“Para a apresentação do pão propunha-se um texto da Didaché (cap. 9) com algum
acréscimo: “Sicut hic panis erat dispersus et collectus factus est unus, ita
colligatur Ecclesiae tua in regnum tuum. Gloria tibi in saecula”. Para a
apresentação do cálice: “Sapientia aedificavit sibi domum, miscuit vinum et
possuit mensam. Gloria tibi in saecula” (Prov 9, 1-2). Os Padres, exceto cinco
pelo que se refere ao pão, expressaram sua aprovação destas fórmulas.]
Imediatamente
depois da oração “In spiritu humilitatis”, o celebrante diz a oração sobre as
oferendas; e depois começa a oração eucarística com o diálogo do prefácio.
Cânon romano: Esta era a questão mais delicada e
complexa. Por uma parte, a veneração por esta oração fazia titubear o grupo
ante a perspectiva de tocá-la; por outra, as propostas dos estudiosos e as
petições dos pastores impulsionavam a dar-lhe um ordenamento distinto, mais
lógico [!!!]. [...]
Na
audiência concedida ao cardeal Lercaro em 20 de junho de 1966, o Papa
manifestou sua opinião sobre dois pontos:
a) Ato penitencial: “Use-se devidamente adaptado o Kyrie, quando a missa não tem Gloria; para
evitar três cantos seguidos (Introito, Kyrie e Gloria), supra-se o Kyrie omitido com outra fórmula penitencial; esta fórmula deve ser tal que permita
a participação da assembleia (não como a das atuais orações “ad pedes
altaris", que são ditas só pelo celebrante e os ministros)”
b) Canon: “Deixe-se intacta a anáfora atual; componham-se ou busquem-se outras
duas ou três anáforas para usá-las em determinados tempos especiais”.
Com isto
ficava claro o caminho para ulteriores investigações sobre a base autorizada do
próprio Pontífice.
Em novembro de 1966, o Papa decidiu
que os esquemas mais importantes da reforma litúrgica fossem apresentados ao
Sínodo dos Bispos de 1967. Foram votadas e aprovadas no Sínodo, em outubro de
1967: o acréscimo de outras três orações eucarísticas [127 sim, 22 não, 34 iuxta
modum]; o acréscimo das palavras “quod pro vobis tradetur” na fórmula da
consagração do pão [110 sim, 12 não, 61 iuxta modum]; a supressão das
palavras “mysterium fidei” na fórmula da consagração do vinho [93 sim, 48 não,
42 iuxta modum]; a concessão às Conferências episcopais da adoção do
Símbolo dos Apóstolos, além do Símbolo niceno-constantinopolitano [142 sim, 22
não, 19 iuxta modum] (cf.
Ibid., p. 309).
Foram feitas quatro perguntas gerais
acerca da missa normativa, e o resultado a respeito da primeira pergunta é bem
revelador: “Aprova-se, em linhas gerais a estrutura da missa ‘normativa’?”. As
respostas foram: 71 sim, 43 não, 62 iuxta modum. Bugnini apresenta uma
síntese das ressalvas (destaco em negrito a mente tradicional de várias
ressalvas):
1.
Sobre a estrutura da missa normativa em geral:
a) A missa “normativa” deve ser a missa
lida, não a missa cantada; é mais fácil celebrá-la assim nas paróquias nos domingos e dias
festivos.
b) As Conferências episcopais devem ser livres
para fazer as oportunas adaptações conforme às exigências das regiões e
tradições dos povos.
c) Todo o esquema deve ser enriquecido,
especialmente com sinais da cruz, genuflexões e reverências, que respondem ao desejo e aos
gostos de muitos povos.
d) Conservem-se as orações que o
sacerdote diz em segredo, inclusive aumente-se seu número, de modo que o sacerdote tenha a
possibilidade de eleger.
e) Não se deixe nada ao arbítrio do
sacerdote, esteja tudo bem
determinado, e não haja diferenças entre uma região e outra.
f) A liturgia da palavra parece
demasiado extensa com relação à liturgia eucarística.
g) Deixe-se ampla liberdade às
Conferências episcopais para escolher as leituras e compor as orações.
h) Sejam mais numerosos os momentos de
silêncio.
i) Não se deem momentos de silêncio, que
não respondem à mentalidade do homem moderno, dado totalmente à ação (Ibid.,
p. 311).
Entre as observações sobre a liturgia eucarística, destaco a que foi
feita sobre o ofertório: “o ofertório parece pobre; conservem-se as orações
e os ritos hoje em uso, especialmente a infusão da água no vinho com a oração
que a acompanha” (Ibid., loc. cit.).
A segunda pergunta visava à aprovação do ato penitencial, participado
por toda a assembleia, com fórmulas diversas segundo os tempos litúrgicos e as
circunstâncias; e as respostas foram: 108 sim, 23 não, 39 iuxtam modum.
A terceira pergunta visava à aprovação experimental de três leituras; as
respostas foram: 72 sim, 59 não, 41 iuxtam modum. A quarta pergunta
visava à aprovação da possibilidade de substituição das antífonas do introito,
ofertório e comunhão, a juízo das Conferências e segundo o texto aprovado por
elas; as respostas foram 126 sim, 25 não, 19 iuxtam modum. A ressalva
mais importante foi: “cuide-se de que os textos tradicionais, tão cheios de
piedade e arte, não caiam no esquecimento” (Ibid., p. 313).
O comentário de Bugnini às respostas revela toda a falsidade daquele
processo pseudo-colegial; a disposição de impor as próprias opiniões sobre
liturgia já estava tomada pelo infeliz bispo:
Todos estes detalhes mostram quão
pouco agradável era para muitos o caminho da reforma. Não é fácil desfazer-se
de costumes seculares, abrir-se a novos horizontes, deixar-se penetrar das
exigências expressas pelos sinais dos tempos. O que em teoria parece evidente,
na prática choca com a férrea couraça de muitas contingências (Ibid., loc. cit).
A nona reunião geral do Consilium foi em novembro de 1967,
trabalhando sobre os resultados do Sínodo, e resultou num informe ao Papa. Os
pontos que o Consilium submetia à consideração do Papa foram os
seguintes:
1. Ofertório: cada “ação” irá acompanhada de sua
correspondente fórmula. O texto será proposta na décima reunião geral, em abril
de 1968.
2. Orate, fratres: consideradas as razões em favor e
contra, e com o fim de dar maior relevo à oração sobre as oferendas, ao
diálogo do prefácio e ao cânon, o Consilium não seria contrário a que se
suprimisse o Orate, fratres. Se se julgasse oportuno conservá-lo, a
fórmula deveria ser revisada.
3. Ato penitencial: serão redigidas três fórmulas, numa
da quais entrará o Confiteor.
4. Leituras: a solução de fazer obrigatoriamente
três leituras seria uma imposição mal aceita. É preferível propô-las como
opcionais, ou seja, com a possibilidade de escolher uma das duas primeiras; o
objetivo se conseguiria igualmente com uma adequada catequese e preparação.
5. Variantes nas fórmulas da consagração: alguns Padres do Sínodo e do
Consilium pediam unanimemente que as variantes introduzidas nas fórmulas
de consagração das novas orações eucarísticas fossem introduzidas também no
canon romano, de modo que as fórmulas da consagração sejam idênticas em todas
as anáforas. Desde o ponto de vista prático, a sugestão era convincente e
aceitável.
Seria, pois, necessário superar o
princípio da “intangibilidade” do canon romano?
6. Novas orações eucarísticas: seria oportuno que fossem aprovadas
e promulgadas quanto antes. Há, com efeito, uma grande expectativa, depois de
tudo o que se disse no Sínodo.
7. Símbolo dos apóstolos: segundo a votação sinodal e a do
Consilium, pareceria conveniente aceitar a sugestão de que a Santa Sé conceda
às Conferências que o tenham pedido a faculdade de dizer na missa o símbolo dos
apóstolos por motivos e necessidades particulares.
[Nota de rodapé sobre o Orate,
fratres: Todos os consultores (30), exceto um, eram contrários à
conservação do Orate, fratres; dos Padres havia 30 contra, 12 a favor, e
3 iuxta modum (favoráveis a conservar só a primeira parte, como uma
monição à oração sobre as oferendas), um se absteve. O problema foi amplamente
discutido no Consilium. A favor se propunham os seguintes argumentos: a
fórmula está atualmente em vigor e é uma dessas em que o povo participa notavelmente;
é uma expressão da participação na oferenda do sacrifício; não se antecipam
conceitos próprios da oração eucarística, como nas outras orações ofertoriais. Contra:
falta de uniformidade na forma em que a Igreja usa dita fórmula (em voz alta
nas missas rezadas, em voz baixa nas cantadas); falta de participação pela
dificuldade para traduzi-la em muitas regiões; obscurece a solenidade do
diálogo do prefácio; a confusão de algumas ideias (sacrifício meu e vosso,
como se fossem dois elementos distintos e justapostos); e repetição de ideias
expressadas já na oração dos fiéis na intenção da assembleia já reunida.]
Aqui, quanto ao Orate, fratres, a objeção implícita é a de que
ela mantém a ideia do “sacrifício” própria das orações de oferecimento do pão e
do vinho que seriam retiradas; a vontade é a do afastamento total da ideia de
oblação sacrificial. A objeção contra a expressão “sacrifício meu e vosso”
é de uma estultícia atroz: é óbvio que não se refere a “dois sacrifícios
distintos e justapostos” (sic), mas a dois modos de participar no
mesmo sacrifício: oferecendo in persona Christi e oferecendo pelas
mãos e junto com o sacerdote (cf. Pio XII, Mediator Dei, n. 83).
Em janeiro de 1968, o Papa assistiu a três formas da nova celebração:
uma missa lida com cantos, em que se usaram cantos com novas melodias adaptadas
ao texto italiano, e se disse o canon romano na tradução da Conferência
episcopal italiana (11 de janeiro); uma missa completamente lida com a
participação do povo, e a oração eucarística “IV” (12 de janeiro); e uma missa
cantada, com a oração eucarística “III” (13 de janeiro) (cf.
Ibid., pp. 316-319).
O Papa fez as seguintes observações:
1. Evitar mudanças na missa atual, o
quanto seja possível.
2. Esforçar-se para encontrar uma forma
mais orgânica e normal para a introdução (sinal da cruz e ato penitencial).
3. A parte do ofertório parece
incompleta; seja porque os fiéis não têm parte alguma nela, quando devia ser a
parte da missa em que sua ação é mais direta e evidente, seja porque as
fórmulas do ofertório estão reservadas ao celebrante, que as diz em silêncio e
em latim.
O ofertório merece uma proeminência
especial de modo que os fiéis (ou seus representantes) exercitem sua função
específica de oferentes.
4. Na consagração: parece que devem
acrescentar-se à fórmula da consagração do pão as palavras do Evangelho de São
Lucas “quod pro vobis datur. Hoc facite in meam commemorationem” (Lc 22, 19);
ou se não, as da primeira carta de São Paulo aos Coríntios: “quod pro vobis
tradetur; hoc facite in meam commemorationem” (11, 24).
Na consagração do cálice:
poder-se-iam acrescentar ao fim da fórmula da consagração as palavras
“Mysterium fidei”, como uma aclamação final do celebrante que repetiriam os
fiéis (ou à que responderiam com outra aclamação)
5. Organizar bem o grupo de fórmulas
relativas à paz; por isso não há que modificar a terceira invocação do “Agnus
Dei”.
6. Pessoas autorizadas insistem em que
se reponha o último evangelho (o prólogo de São João) depois da bênção. Talvez
se poderia por como recitação privada do celebrante depois da bênção, antes, ou
em lugar, do “Trium puerorum”, como oração de ação de graças.
7. Como já se observou, as palavras
consecratórias não devem recitar-se como uma narração, senão com o tom especial
e consciente do celebrante que adverte que fala e atua “in persona Christi”.
[Nota sobre o ofertório: Os ritos do
ofertório se dispuseram de um modo distinto ao que tinham no primeiro esquema
da missa normativa. Sua sequência é a atual: apresentação do pão com a fórmula
dita em segredo pelo celebrante; infusão da água no vinho com fórmula e
apresentação do vinho com sua fórmula; “In spiritu humilitatis”; lavabo das
mãos e imediatamente a oração sobre as oferendas.
Os textos são distintos dos do primeiro
esquema da missa normativa, resultado de uma investigação feita pelo prof.
Jounel, por encargo da secretaria do Consilium:
- Para a apresentação do pão:
“Suscipe, Sancte Pater, hunc panem quem de operibus manuum nostrarum offerimus,
ut fiat unigeniti Filii tui corpus”.
- À infusão da água no vinho: “Per
huius aquae et vini mysterium eius efficiamur, Domine, divinitatis consortes,
qui humanitatis nostrae fieri dignatus est particeps, Iesus Christus, Filius
tuus Dominus noster”.
- À apresentação do cálice:
“Offerimus tibi, Domine, calicem hunc, in quo populi tui unitatis mysterium
exprimitur ut sanguis fiat Domini nostri Iesu Christi”.
- Ao lavabo das mãos: “Cor mundum
crea in me, Deus, et spiritum rectum innova in visceribus meis”.] (Ibid.,
p. 320).
Bugnini faz a autojustificação de sua obra dizendo que “as celebrações
demonstraram que nem tudo era perfeito, mas todos se convenceram de que
substancialmente o rito era válido” (Ibid., p. 323). Havia ainda alguns “desejos do Papa”, que Bugnini assim descreveu:
1. Início da missa: O desejo do Papa é que toda missa
comece com o sinal da cruz dito em voz alta pelo celebrante, com resposta do
povo.
2. Ato penitencial: O tríplice esquema proposto parece demasiado
complicado. O Papa teria preferido um só esquema, no qual possivelmente se
usasse o Confiteor.
3. Ofertório: Deveria haver um só esquema de fórmulas
que expressem a ideia da oferenda do trabalho humana inserido no sacrifício de
Cristo. Deve haver também uma ativa participação do povo, ao menos quando não
canta. Neste caso, o sacerdote dirá a fórmula em voz baixa.
4. Palavras da consagração: Em todas as orações eucarísticas,
antes da consagração, deve haver uma rubrica que recorde ao sacerdote que as
palavras da consagração não devem ser proferidas “a modo de narração”, senão
“clara e distintamente como exige sua própria natureza”.
5. As palavras Mysterium fidei
sejam pronunciadas pelo celebrante antes da aclamação do povo.
6. Convém dispor melhor os ritos da paz.
Os peritos do Consilium tinham algumas dificuldades para aceitar as
emendas do Papa, conforme Bugnini:
1. Início da missa com o sinal da cruz. a) Seria uma novidade
contrária a toda a tradição litúrgica. Atualmente só nas missas rezadas o
celebrante se persigna ao começar as orações ao pé do altar; nas missas
cantadas só o fazem os ministros; o povo não a faz porque está cantando o
introito ou o Kyrie. Introduzir-se-ia assim em toda missa, ainda na mais
solene, uma prática da missa rezada que tem sua origem na piedade pessoal do
sacerdote. b) Se ao saudar o povo se usa uma fórmula trinitária,
teríamos duas fórmulas trinitárias seguidas, ou seja, uma duplicação contrária
ao mandado pela Constituição litúrgica. c) As Igrejas orientais não a
fazem, exceto a Igreja bizantina, na que o sacerdote se persigna, mas em
silêncio.
2. Ato penitencial. Razões pastorais aconselham que se
proponham várias fórmulas para dar à oração certa variedade [nota de rodapé: o
Papa aceitou esta proposta].
3. Ofertório. Chegou-se a uma nova redação das
fórmulas. Mas se pedia também que o sacerdote tivesse a opção de não dizê-la em
voz alta, inclusive quando não se está executando um canto; e isto, dizia-se,
para dar aos fiéis a ocasião de recolher-se para uns momentos de oração em
silêncio, depois da liturgia da palavra. Advertia-se, ademais, que as
aclamações do povo não concordavam com a estrutura do ofertório e duplicavam a
participação do povo com o Amém da
oração sobre as oferendas.
4. Mysterium fidei. Fazer que o celebrante diga essa
frase antes da aclamação do povo: a) seria uma novidade que não se
encontra na tradição litúrgica; b) mudaria a estrutura do canon em um
momento importante; c) mudaria também o sentido das palavras em questão
por não ter já conexão com a consagração do cálice.
Se se quer que se conservem essas
palavras, dizia a relação, deveriam unir-se diretamente em uma só proposição ou
com a fórmula da consagração do vinho ou com a aclamação (Ibid., pp. 325-326).
É curioso que o Consilium alegue a “tradição litúrgica” contra certas
mudanças, e afirme outras mudanças sem se importar com o que todos tinham como
“a” tradição litúrgica, isto é, o Missal Tradicional. O que seria “tradução
litúrgica” para o Consilium? Não o Missal Romano entregue ao século XVI
e, daí, aos seguintes, mas aquilo que a ciência litúrgica empírica dos peritos
considerava que deveria ser, os ritos deixados para trás ou imaginados que
serviriam aos propósitos dos “reformadores”.
Foi enviado um informe ao Papa, de 10 de maio de 1968; este “leu e releu
o Ordo Missae”, e fez algumas observações aos Padres do Consilium, para
“serem tidas em conta, com livre e ponderado juízo”. Dentre as observações,
destaco as seguintes (cf. Ibid., pp. 330-333):
·
Sobre o sinal da cruz no início da
missa, “seu pensamento foi recolhido”.
·
Sobre a liturgia da Palavra, sugeriu que
as leituras bíblicas concluíssem com a exclamação “Palavra de Deus” ou “Palavra
do Senhor”, mais a resposta “Deo gratias” depois da primeira e segunda
leituras, e “Laus tibi, Christe”, depois do Evangelho, o que também foi
acolhido.
·
Sobre o ofertório, sua sugestão de
acrescentar os incisos “quem Tibi offerimus”, “quod Tibi offerimus”, “sem os
quais não são fórmulas de ofertório”, foi acolhida com reticência pelo
Consilium, já que desejavam que a “apresentação dos elementos que servirão para
o sacrifício, não contenha o termo ‘oferecer’”; segundo Bugnini, “não se queria
antecipar ou diminuir o valor da única oferenda de Cristo imolado, expressada
no canon”; manteve-se a proposta do Papa, “pois as dificuldades poderiam
resolver-se bem nas traduções”; assim, por exemplo, a brasileira diz “vos
apresentamos”.
Na verdade, não fazem diferenças estes incisos, porque o que importa é
“o que”, ou melhor, “quem” se oferece, e não o ato de oferecer. Em outubro de
1968, depois da décima-primeira reunião do Consilium foi enviado um informe no
qual foram abordadas as mudanças no canon romano. Uma petição
Expressava o desejo de fazer atrativo
[sic] o uso do canon romano, ainda depois da introdução das novas orações
eucarísticas [!!!]. Para este fim se pedia poder omitir as conclusões: “Por
Cristo...” ao final das diversas partes, reduzir o número dos nomes de santos
no “Communicantes”, e a supressão dos que se mencionam no “Nobis quoque”.
A secretaria da Congregação apoiava
estas petições, propondo que na primeira lista de santos se pusessem entre
parênteses os nomes desde Santo André a São Cosme e Damião, e na segunda desde
Inácio a Anastácia. Uma rubrica indicaria que os nomes entre parênteses podiam
ser omitidos. O mesmo se propunha acerca das conclusões “Por Cristo...”, exceto
a última que abraça a todo o canon. Deste modo, o venerável canon romano não
sofria alteração, e ao mesmo tempo se facilitaria seu uso na missa com
participação do povo [!!!] (Ibid.,
p. 334).
Isto é uma coisa de loucos: rebelam-se contra o direito exclusivo do
Canon Romano, fabricando novas orações eucarísticas, e depois medem o valor
pastoral (a “atratividade”) do Canon da Tradição pelos seus inventos humanos!
Apenas para tornarem opcionais os trechos do Canon Romano que não convinham à
sua “reforma”.
Assim Paulo VI apresentou o Novus Ordo Missae no Consistório de
28 de abril de 1969:
Desta exigência de oração, centrada
no Sacrifício eucarístico, nascem, como de uma fonte perene de água límpida, as
disposições litúrgicas às que nos referimos ao princípio: o novo Ordo Missae,
que, após longo e paciente trabalho de simplificação nos ritos iniciais, nos do
ofertório, da fração do Pão e da Paz, constitui um ponto de chegada da reforma
da santa missa, desejada pelos Padres conciliares, e quer contribuir cada vez
mais à viva e consciente participação dos fiéis no Divino Sacrifício (Ibid., p. 336).

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