Excerto de: BARTMANN, Bernard. Teologia Dogmática (vol. I): Revelação e fé - Deus - A Criação. 2a reimpressão. Tradução de Pe. Vicente Pedroso. São Paulo: Paulinas, 1964, pp. 69-70.
"As dificuldades a se resolverem são as seguintes: antes de tudo, não está absolutamente claro se a Igreja quer definir o fato de que o santo em questão tenha chegado à visão de Deus. Além disso, o juízo da Igreja poderia referir-se somente ao pequeno número dos santos canonizados pelo magistério, e não ao número daqueles que, antes da praxe da canonização solene, foram declarados santos pelos Bispos, pelas Ordens Religiosas, e pouco a pouco, foram geralmente aceitos, sem se terem rigorosamente examinado as razões em favor da sua santidade. Enfim - a principal dificuldade deve-se acrescentar que é impossível, sem uma revelação divina, chegar-se a uma certeza de fé sobre o estado de graça de uma alma. Acrescente-se que a Igreja, depois da morte dos Apóstolos, não recebe mais nenhuma revelação pública. Certamente, na revelação, encerrada com os Apóstolos, encontramos a promessa geral da vida eterna para os eleitos; não é porém, atribuída de modo definitivo a nenhuma pessoa particular honrada como santa pela Igreja. A predestinação é um mistério imperscrutável. A Igreja, nas indagações sobre a vida dos santos, baseia-se não sobre testemunho divino, mas tão somente sobre informações humanas e elementos naturais que podem sempre ser subjetivos. Deus pode testemunhar em prol dos santos por meio de milagres. Mas também estes como a própria canonização, não têm relação íntima e direta com as verdades reveladas. Acrescente-se que estes milagres só podem ser reconhecidos por quem neles creem, mas essa fé não é obrigatória. A velha controvérsia se é possível provar um dogma com um milagre que é notório na Igreja, foi resolvida negativamente. É bem difícil confutar tais argumentos, quando seriamente examinados. Quando Eusébio Amort escreve que ‘dubietas revelationis tollatur per indubitata miracula’ afasta-se da noção estrita de revelação.
Portanto, aqui não se deveria falar da mais alta certeza dogmática. Assim pensa também Scheid que, tratando da infalibilidade do Papa na canonização dos santos, escreve: ‘A dificuldade do problema está em se encontrar uma prova verdadeiramente satisfatória desta infalibilidade, cuja existência se afirma. A canonização toca o extremo limite das decisões infalíveis. Não é por isso fácil estabelecer-se, de modo claro e probativo, que ela, em toda a sua extensão, entre também no âmbito da infalibilidade da Igreja’. O mais das vezes, com Melquior Cano, foge-se aos argumentos particulares e peremptórios para se basear no ‘feixe de argumentos’ como se o número pudesse, de algum modo, suprir a fragilidade de cada argumento. Scheid mesmo procurava mostrar que a Igreja pretende obrigar todos os fiéis a crer na canonização. De certo, seria mais segura uma declaração da Igreja que afirmasse ser essa sua vontade.
Contudo, o juízo da Igreja sobre a santidade de uma pessoa merece, sem dúvida, grande consideração, seja por motivo da sua autoridade infalível, seja pela severidade e rigor com que examina os títulos para a canonização. Em todo caso, os atos da canonização só podem ser aceitos por fé geral eclesiástica e não por fé divina. O fiel não faz um ato de fé especial na canonização, mas nela crê, com um ato de fé geral, ato que aceita no seu complexo o culto da Igreja.
Se no número dos Santos encontramos algum ‘falso’ santo, como Barlaam e Josafat, o culto relativo que lhes é prestado vai a Deus. Como um rei pode ser honrado num pseudo-embaixador, assim Deus, num pseudo-santo”.

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