30.8.18

Gustavo Corção sobre o capitalismo


Do capítulo V ("Capitalismo") do livro: CORÇÃO, Gustavo. Dois amores, duas cidades. Vol. 2 (A civilização do homem-exterior). Rio de Janeiro: Agir, 1967, pp. 191-205.

Veja-se, como complemento, o texto Jacques Le Goff sobre a Idade Média e o capitalismo.

* * *

“1. A grande novidade da renascença: o capitalismo

‘A grande novidade que aparece na Renascença é o capitalismo’ diz Henri Pirenne. Isto não quer dizer que antes dos séculos XV e XVI nunca tenha existido operações mercantis, dinheiro, desejo de lucro, ou organizações para empreendera exploração o trabalho humano. Qualquer definição que dermos a ‘capitalismo, não será difícil, esmiuçando a história, encontrar algum episódio a exibir o fenômeno. Os mercadores dos séculos XII e XIII eram tipos humanos parecidos com os negociantes de todos os tempos. E até especuladores, parecidíssimos com os de nossos dias, existiram antes do período das descobertas e do mercantilismo. Nos mesmos dias, e na mesma cultura ainda medieval, em que uma humilde pastora abre caminho entre cortesãos para dizer um segredo ao ouvido de Carlos VII, rei de França, um outro personagem, sem eira nem beira, também abre caminho e chega ao pé do mesmo rei. Ambos realizam seus desejos: Jeanne d’Arc ganha a confiança do monarca e torna-se bandeira viva de libertação da França; Jacques Coeur, conquistando as boas graças do trono, torna-se tesoureiro, moedeiro, conselheiro, e em breve tempo, o homem mais rico da França, se não do mundo. Fundou empresas comerciais, financiou as minas de Beau-jolais e do Lyonnais, construiu palácios em centenas de cidades e ostentou um luxo como igual jamais se vira em toda a cristandade. Sua divisa assemelhava-se à do florentino L. B. Alberti: ‘À couer vaillant rien est impossible.’

Como facilmente se imagina, tinha Jacques Coeur muitos invejosos que não descansaram enquanto não conseguiram derrubá-lo. Foi preso e despojado da fortuna pelo mesmo versátil Carlos CII, mas logo, no reinado seguinte, Luiz XII manda rever o processo, reabilitar a memória do ex-tesoureiro, e devolver aos filhos uma parte da imensa fortuna, por onde se vê que na revisão do processo e na reabilitação de Jacques Coeur houve maior diligência do que na revisão e reabilitação de Joana d’Arc.

Mas há um abismo de diferença entre esses episódios, entre dez ou mil bolsões do fenômeno capitalista, existente na Idade Média, ou em qualquer outra época, e o bloco, o aparelho, o sistema, o Cosmos como diz Max Weber, em que se consubstanciou, como fator civilizacional, o Capitalismo moderno.

R. H. TAWNEY: ‘... o século XVI assiste à colisão, não somente de diferentes escolas de pensamento religioso, mas entre a envoltória econômica transformada (the changed economic environment) e a teoria da sociedade vigente.’ (Religion and the Rise of Capitalism, John Murray, London, 1926, pág. 14)

E note-se bem que esse autor, que no presente capítulo nos dará uma preciosa contribuição, não diz ‘estrutura econômica’ e sim ‘envoltória’, ‘environment’, que no seu estudo tem o mesmo sentido que damos a envoltória ou atmosfera cultural. Por onde se vê que não é somente no nível da terá, na estrutura material da economia, que se processa o choque a que se refere Tawney, mas também, e principalmente no domínio das correntes espirituais. Em outras palavras, a novidade a que se refere Pirenne não está nos fatos materialmente tomados, não está nos fenômenos econômicos, no vulto das cifras, e sim no surgimento de um novo espírito que dará àqueles fatos uma coesão e uma eficácia cultura nunca vistas.

Não pretendemos de modo algum subestimar os estudos e as considerações dos fatos econômicos tomados no dinamismo próprio de suas estruturas. As causas materiais, o crescimento demográfico, as formas de produção, as riquezas naturais, etc. influem poderosamente no curso dos acontecimentos, e portanto na orientação da história, sem todavia determiná-la como pretendem os materialistas, mas a maior influência não é a que se exerce no próprio determinismo dos fatores econômicos, e sim nas ideias e no espírito que esses elementos suscitam. Um dos melhores exemplos dessa decantação do fato econômico para o céu dos valores, ideias e critérios culturais é o marxismo, que pretende descrever um determinismo sócio-histórico-econômico que nunca funcionou; mas o marxismo, como ideia, funcionou. Não foi o chão da economia, em seus abalos sísmicos, que produziu os conhecidos fenômenos de nosso tempo; foram antes as nuvens carregadas de ‘ideologias’.

Coisa análoga diremos do ‘capitalismo’ a partir do século XVI: é mais uma nova atitude espiritual em face das riquezas materiais, do que simplesmente uma nova maneira de fabricar ou vender. E é esse o ângulo que mais nos interessa nessa longa e fatigante pesquisa das correntes de ideias que formam as fibras da história. O ponto que desejamos bem frisar aqui é que o homem do século XVI tem uma atitude espiritual diante dos bens materiais diferente da atitude do século XII ou XIII. Digamos até que tem uma nova temperança.

R. H. TAWNEY: ‘Há uma envoltória moral, religiosa e econômica, que impõe sua marca (its stamp) nos indivíduos ainda que eles não tomem consciência disto. Nem por isso, entretanto, é menos profunda a influência da nova atmosfera. As categorias econômicas da sociedade moderna, tais como a propriedade, liberdade de contratar, competição, que constituem, com as concepções políticas e religiosas, o seu aparelhamento intelectual, foram provavelmente as forças mais poderosas na formação do caráter dessa sociedade. Entre a concepção da sociedade como comunidade de classes desiguais com várias funções, organizada para um fim comum, e a concepção que vê a sociedade como um mecanismo automantido pelo jogo dos fatores econômicos; entre a ideia que proíbe ao homem a exploração do próximo e aquela doutrina que chama de providência divina o egoísmo; entre a atitude que apela para os padrões religiosos a fim de reprimir os apetites econômicos, e aquela que considera os expedientes como critérios finais – há um abismo que nenhuma teoria sobre a permanência e a ubiquidade dos interesses econômicos pode galgar, e que, pelo menos, vale a pena explorar. Examinar como a primeira se transformou na segunda; acompanhar o processo que passou de uma concepção de atividade econômica que a considera uma espécie de conduta moral entre outras, para uma concepção que só vê a dependência de forças impessoais, e quase automáticas; observar a luta do individualismo em face das restrições impostas, em nome da religião pela Igreja, e em nome do bem público pelo Estado, luta que no princípio se delineia, depois se tolera, e por fim se admite e se justifica triunfalmente em nome de liberdade econômica; ver como as autoridades eclesiásticas se esforçam por manter o domínio sobre as esferas que reclamavam, e como por fim abdicam – eis o que devemos fazer, não pra nos permitir um passatempo de vã curiosidade, mas para contemplar as fontes do riacho que agora se tornou torrente caudalosa’ (Op. cit., pág. 12-13)

A transformação profunda, que Tawney acaba de descrever, pode ser resumida nos termos que atrás nos referimos a uma nova concepção no que concerne ao uso das coisas.

2. A nova temperança

Ou então, e mais precisamente, tornemos a dizer que surgiu uma nova temperança. Disse Aristóteles que para negar a metafísica é preciso fazer metafísica. Do mesmo modo, para negar um sistema ético é preciso ter um outro que o julgue. A nossa civilização não trouxe propriamente uma negação, um nihilismo moral e sim um outro regime, um outro código às vezes mais meticuloso do que o antigo – e no que concerne ao uso dos bens materiais trouxe uma nova temperança, uma espécie de ‘santo apego1 aos bens exteriores que dilatam a importância do indivíduo, em lugar do desprendimento cristão.

Se o leitor quiser ter uma ideia mais completa e mais documentada da diferença entre as duas atitudes, a medieval e a moderna, em face das riquezas materiais, poderá ler com proveito o capítulo II do excelente trabalho de Daniel Villey (Petite Histoire des Grandes Doctrines Economiques, Presses Universitaires de France) de onde tiraremos aqui alguns dados relativos a três problemas fundamentais: o das atividades comerciais, o da usura, e o das organizações de trabalho.

Em relação ao problema das trocas, pode-se dizer que o sentimento que domina toda a civilização medieval é o de uma temerosa reserva ou desconfiança; ao passo que, no mundo novo da Renascença, e mais ainda nos séculos subsequentes, é uma nova nobreza que surge da respeitabilidade comercial. Em relação à usura, a posição medieval, ou melhor a posição cristã-medieval é de franca hostilidade; ao passo que, no mundo novo, como assinala Tawney, a usura deixa de ser pecado e passa a ser ‘espírito de empreendimento’. Em relação ao trabalho, a Idade Média, que em tanta coisa da ordem temporal se inspira na sabedoria da antiguidade clássica, toma uma posição nova e genuinamente cristã: o trabalho tem uma dignidade e até uma eficácia de santificação que só foi descoberta na oficina de Nazaré; no mundo moderno, entretanto, à medida que progridem os meios de produção, o trabalho ganha um crescente valor, mas valor econômico, valor de eficiência produtiva, valor material, exterior, que se equaciona com um terrível aviltamento do homem trabalhador. Veremos adiante como se agravarão os traços da moderna civilização à medida que ela se aproxima do seu apogeu, a Cidade Liberal dos séculos XVIII e XIX. Surgirá então, do flanco dessa sociedade, uma reação tardia e tragicamente equivocada: o socialismo, que reage violentamente contra os esquemas de distribuição de riquezas materiais, mas vem dar ainda mais força e mais solidez ao princípio nefasto do individualismo, isto é, ao primado do Homem-Exterior!

Tem-se assim o exemplo da mais desastrada mistura de generosidade e brutalidade amesquinhadora do homem, que já se viu na história; ou o exemplo do ideal de redenção por aviltamento, sob a bizarra alegação de serem todos igualmente aviltados!

3. O comércio na Idade Média
Consideremos o problema das trocas lucrativas na Idade Média. Na IIa IIae o, q. 77, a. 4 da Suma, Santo Tomás indaga: ‘Será lícito, no comércio, vender mais caro do que se comprou?’. Essa questão interpreta o sentimento geral da época, embora Santo Tomás procure desvencilhar-se de tais contingências para apreender as normas universais. Como diz Villey, o sentimento da época ‘opunha, para as vilipendiar, as artes pecuniativae às artes productivae’. Tendo diante dos olhos o critério da dignidade ou valor humano do trabalho, o medieval vê com visível antipatia esse lucro que não se justifica pelo trabalho. É por isso que Santo Tomás, nas objeções, cita o argumento de S. João Cristóstomo, que certamente traduzia o sentimento comum: ‘Aquele que compra uma coisa para o tráfico lucrativo, se a vende como a comprou, sem nada mudar (integram et imutatem vendendo), é um dos mercadores expulsos do templo de Deus.’ Vê-se aí que a estigmatização recai sobre a ausência de acréscimo de valor dado pelo trabalho, e sobre a operação motivada principalmente pelo lucro. Em outras palavras, há nos ares da Idade Média uma vaga ideia de que o comércio foge ao trabalho (que é digno e santo), tendendo para a usura (que é indigna e pecaminosa).

[...]

O severo São Jerônimo, invocado também por Santo Tomás no mesmo artigo da Suma, diz assim: ‘Do clérigo que negocia, que de pobre se tornou rico, e de obscuro famoso, foge como da peste!’ Entretanto Santo Agostinho corrige: ‘O comerciante ávido de lucro, quando tem um prejuízo, blasfema, mente, pronuncia falsos juramentos sobre o preço da mercadoria. Mas esses vícios são do homem, e não do negócio que sem eles não se pode exercer.’

SANTO TOMÁS: ‘O comércio é o estado daqueles que fazem ofício das trocas. Ora, Aristóteles distinguia duas espécies de troca. Uma é natural e necessária, e consiste em trocar coisas por coisas, ou coisas por dinheiro, para as necessidades da vida (...) Há porém outra espécie de trocas que consiste em trocar dinheiro por dinheiro, ou coisas por dinheiro, não para as necessidades, mas para o lucro. E é esse tipo de troca que constitui o comércio. Ora, dessas duas espécies de trocas, Aristóteles louva a primeira (...) e, com boas razões, censura a segunda que, por sua própria natureza, favorece a cupidez, que não conhecendo limites tende para o infinito. É por isso que o comércio, considerado em si mesmo, tem uma certa torpeza quando não se orienta para um fim bom em si mesmo ou necessário. Entretanto, se o lucro, que é o fim do comércio, não implica em si mesmo algo de bom ou necessário, também não implica algo de mau ou de contrário à virtude. Nada há que impeça, pois, a ordenação do lucro a um fim necessário ou bom. Assim se tornará lícito o comércio. É o que acontece quando alguém se propõe a empregar o lucro moderado, que lhe proporciona o comércio, no sustento da família ou no auxílio dos indigentes; ou ainda quando faz comércio para a utilidade social, a fim de que não falte o necessário em sua pátria. O lucro não será então um fim, mas o preço do trabalho.’

DANIEL VILLEY: ‘No fim das contas parece que só se condena o desejo de ganho ilimitado para fins avaros e egoístas. Temos a impressão de uma escapatória, mas somos nós talvez que estamos errados.’ (Op. cit. pág. 18).

Muito acertadamente Villey admite que não esteja acertando quando julga que Santo Tomás faz alguma concessão ao sentimento da época, ou, quem sabe? às inovações que já se desenhavam no horizonte. Podemos admitir uma certa influência da época, onde vê no comércio, considerado em si mesmo, uma certa torpeza; mas isto mesmo só se diz com abstração feita dos fins. Mas essa sensibilidade medieval, se assim a quisermos classificar, está certamente muito mais próxima do justo e do razoável do que a sensibilidade oposta, que vê no comércio, considerado em si mesmo, uma certa dignidade.

[...] O mundo que começou a crescer vertiginosamente na Renascença, cresceu intemperante, desregrado e apaixonado demais pelas substâncias materiais de seu crescimento. Infelizmente, naqueles dias de adolescência civilizacional, Santo Tomás foi esquecido ou escarnecido.

Analisando o pensamento do Doutor Angélico, no artigo citado, notamos que a primeira condenação do lucro como fim é feita com preceitos de temperança, e só depois de ramifica em termos de caridade e justiça. [...] a virtude da humildade, anexa da temperança, é basilar. Ora, é justamente nessa base que reside a revolução moral do individualismo burguês. Como já vimos [...] o individualismo, sendo uma espécie de orgulho, é um pecado contra a temperança, e depois contra a justiça e a caridade. Mas a intemperança da moral burguesa [...] se reveste de um curioso e majestoso aspecto de temperança!

4. Quatro atitudes medievais em relação aos bens materiais (Tawney)

A leitura de textos semelhantes ao que citamos dará certamente, ao leitor moderno, a divertida impressão de que aqueles ‘autores da Idade Média estão mais preocupados com os casos de consciência do que com a solução de problemas econômicos’, como diz Daniel Villey. E é verdade. Devemos notar que os autores citados são teólogos, autores espirituais, que em qualquer época devem cuidar mais dos problemas morais do que dos econômicos. O que se pode dizer é que os teólogos da Idade Média se interessavam primordialmente pelas virtudes, pelos meios de escapar ao pecado, do que pelos meios de escapar à pobreza. Nos tempos modernos, entretanto, aparecem muitos teólogos que publicam maior interesse pelos problemas econômicos do que pelos problemas teológicos.

[...] A felicidade do homem não consiste na riqueza, nem no gozo da saúde, nem mesmo na aquisição das virtudes. Só em Deus descansará o coração inquieto do homem...

[...] Diferentes atitudes em face do problema econômico foram proclamadas e vividas durante o milênio da cristandade. Tawney assinala quatro atitudes típicas. A primeira é a do ascetismo rigoroso que vê na atividade econômica o domínio da concupiscência e da avareza. A segunda é a de indiferença por esses assuntos materiais em nome da religião. A terceira atitude conduziu à ‘agitação em vista de uma determinada reforma, à eliminação de algum clamoroso escândalo, para a promoção final de uma revolução que trouxesse ao mundo o reino da justiça.’ A quarta, finalmente, consistiu em ‘aceitar e criticar’, tolerar e corrigir, consistiu, em suma, em acolher com compreensão o rude mundo dos apetites humanos, o amontoado às vezes sórdido, do qual pode brotar a vida do espírito, e também, em insistir que esse material pode ser assumido no Reino de Deus’. (op. cit. pág. 17). Cada uma dessas atitudes teve seus representantes e seus períodos na Idade Média. Nos primeiros séculos predominava a concepção ascética que inspirou o monaquismo, e que pretendia inspirar todo o cristianismo, como se, com votos ou sem eles, os conselhos evangélicos tivessem força de preceito. Esse rigorismo, que pela por ausência de matizes, e por brutalidade simplificadora, reaparecerá mais tarde em algumas seitas protestantes, na heresia jansenista, e até mesmo fora e contra a Igreja nas asceses revolucionárias dos socialistas dos primeiros tempos, que obscuramente sentiam que a ‘força está com os puros’, como dizia Zola. A atitude de indiferença também reaparece, mas agora com sinal trocado: indiferença religiosa em nome da economia. A terceira atitude voltará também com os socialistas, mas esvaziada de qualquer conteúdo teologal, ou até simplesmente moral. A quarta posição, na opinião de Tawney, é a mais caracteristicamente medieval. Preferimos dizer que é a mais universal e independente da época. Na verdade essa quarta posição nunca teve dimensões de experiência histórica. Será sempre uma presença doutrinal, mas não um fator civilizacional, a menos que, por algum espantoso milagre o mundo passasse a prestar atenção a Santo Tomás, e as escolas e universidades católicas – já não dizemos os outros! – graças a uma conversão maravilhosa, passassem a estudar aquele doutor que Maritain chama de ‘apóstolo dos tempos modernos’!

5. A lei de ferro. Vencidos e vencedores

No que concerne à usura, o pensamento medieval condensa os sentimentos e preceitos de suas fontes. Para Aristóteles, ‘o dinheiro não dá cria’; na lei mosaica o empréstimo com juros era proibido; no Novo Testamento (Lc VI, 34) Jesus ensina: ‘Se emprestais àqueles de quem esperais receber, que mérito tereis? Os pecadores também emprestam aos pecadores a fim de receber o equivalente.’ A tradição patrística afirmará com energia e ênfase que emprestar para receber juros equivale a explorar a indigência do próximo. ‘Exigir do pobre um aumento para tua riqueza é o mesmo que sugar um seio estéril’, diz Gregório de Nice. A partir do quarto século a Igreja proíbe aos religiosos a prática da usura. Mas tarde a interdição se estende a todos, e o Concílio de Latrão (1179) para marcar fortemente a repugnância da Igreja pelos empréstimos com juros, proíbe aos padres a aceitação de esmolas dessa procedência!

Comentando um texto de Aristóteles, diz Santo Tomás:

‘É com bom fundamento que se prova ser detestável o empréstimo com juros (fanus), pelo qual o dinheiro cresce por si mesmo (...) Vemos com efeito que nas proliferações, em conformidade com as leis da natureza, os filhos são semelhantes aos pais. Se dinheiro produz dinheiro, temos aí uma espécie de proliferação. Eis por que é demasiadamente antinatural essa maneira de adquirir dinheiro. Pela ordem natural o dinheiro provém das coisas, e não do próprio dinheiro’ (I Política leit 8)

Esse era o pensamento, não só da Igreja, mas também da civilização que por ela se orientava; e continuou a ser doutrina da Igreja posta em termos condizentes com economia cada vez mais complexa e dinâmica de nossos dias, para a qual o juro não é necessariamente ‘cria’ do dinheiro podendo ser uma espécie de trabalho acumulado; e dentro da qual o acréscimo do preço na mercadoria, nas trocas comerciais, não é necessariamente ilícito – podendo ser a remuneração da ‘acessibilidade’ que o negociante realmente acrescenta ao valor da coisa vendida.

Quando se diz que na Renascença surgiu a novidade do capitalismo, e quando se tenta caracterizar esse fenômeno pela fecundidade do dinheiro, que é uma intemperança e uma injustiça, não é – note-se bem! – uma estrutura econômica ou um sistema mercantil e financeiro que se designa com aquele vocábulo, e se denuncia como avareza e injustiça. O ‘capitalismo’ a que nos referimos nestas páginas não é pura e simplesmente uma estrutura econômica. Muita gente ainda hoje designa, com o mesmo termo, a estrutura econômica que já não tem mais o espírito que a animou desde a era do mercantilismo, nos séculos XV e XVI, até a era do liberalismo, nos séculos XVIII e XIX. Essa estrutura, que inclui a livre empresa, o regime salarial, o lucro auferido por um capital, etc., é em si mesma boa, e tudo indica que seja a melhor que até hoje os homens inventaram.

Outra coisa, entretanto, era a tranquila filosofia que considerava o dinheiro como o fator principal da empresa, e que chegava à ferocidade de ver no trabalho um elemento adverso, uma espécie de ônus, de atrito, de perda que deve ser reduzida ao mínimo. Em vez de figurar ao lado dos empreendedores capitalistas, como colaboradores e beneficiários do resultado obtido por esforço conjunto, os trabalhadores eram vistos como puros fatores materiais sujeitos às leis dos mercados. Com o desenvolvimento das técnicas e das indústrias essa situação se agravou até ganhar a forma monstruosa da chamada Lei de Ferro, pela qual os salários devem ser mantidos baixos, tanto quanto possível próximos do limite que permita ao operário viver e reproduzir. Mas não basta dizer que o operário era tratado como um dos vários fatores de produção influente no custo da mercadoria. Sendo criaturas humanas, dificilmente se poderia manter a situação de rebaixamento sem consciências mais ou menos clara de uma inimizade entre as classes. E aí é que reside a gravidade do fenômeno ocorrido naquela fase da história. Com o critério das posses, do dinheiro, a sociedade não se dividia apenas em ricos e pobres – dividia-se em vencedores e vencidos!

Posto o problema nesses termos pode-se dizer que na Idade Média não havia capitalismo. Como vimos atrás, era vivo o sentimento da dignidade do trabalho. O mais imparcial dos observadores não poderá negar que havia na Idade Média uma organização trabalhista formada pelas corporações inspirada no cristianismo, que o mundo contemporâneo, depois das brutalidades mercantilistas e liberalistas, procura reanimar. Muitas vezes essas tentativas de nossos dias se enganam grotescamente, e seguem a direção do socialismo-comunista que é a mais afastada daquele antigo ideal humanista, e que é, apesar das máscaras da denominações, a continuação mais lógica da civilização do Homem-Exterior. Os termos são ambíguos, as lutas travadas foram comédias de erros, mas na verdade o Comunismo é a continuação do espírito que animou o capitalismo da civilização individualista. E só países ainda hoje chamados capitalistas – França, Inglaterra, Estados Unidos, etc – são os que melhor se desembaraçaram do capitalismo propriamente dito, e mais se aproximaram, graças ao regime democrático, ainda que assaz imperfeito, de um ideal de humanização e dignificação do trabalho. Será preciso demonstrar que a desumanização do trabalho soviético é mais parecida com o regime dos operários da era vitoriana do que o regime do atual trabalhador inglês, francês ou norte-americano?

Esses países, que hoje chamamos democráticos, em oposição aos totalitários, procuram reatar o programa esboçado na Idade Média, sobretudo nos séculos de seu esplendor. [...]

MARTIN SAINT-LEÓN: ‘Todo esse pequeno mundo antigo estava fortemente imbuído de ideias cristãs sobre o justo salário e o justo preço. Havia sem dúvida, como hoje, cupidez e ambição, mas uma regra poderosa se impunha a todos, e de um modo geral exigia para cada um o pão cotidiano prometido pelo Evangelho.’ (Histoire des Corporations et des Métiers, 3ª ed. 1922, pág. 187 cit. Tawney, op. cit. pág. 27).

Os operários medievais, habituados a desconfiar da cupidez e das ambições, desconfiavam também da eficiência como elemento estimulador da competição. Um leitor moderno, se tiver tinturas de ciências econômicas, esfregará os olhos diante das espantosas regulamentações de trabalho formuladas e livremente aceitas pelas corporações, onde os artesãos, entre outras coisas, se comprometiam a não fazer serão com o objetivo de ganhar mais, e a não usar instrumentos aperfeiçoados que viessem aumentar o rendimento do trabalho. A ideia dessas limitações, que à primeira vista parece profundamente estúpida, inspirava-se no desejo de manter com rédas curtas o apetite intemperante.

EMMET JOHN HUGHES: ‘O appetitus divitiarum infinitus, por tanto tempo acorrentado como perigoso para a sociedade, era agora no século XVI liberado, e promovido a princípio energético para a riqueza das nações.’ (Ascensão e Decadência da Burguesia, AGIR, 1945, pág. 72).

A vigilância, de inspiração evangélica, não aguentou a tensão de forças desencadeadas pela nova civilização. Rompeu-se o equilíbrio. Perdeu-se a noção da dignidade do trabalho, e o mundo terá de esperar quatro séculos até que a teoria do valor volte a fundar-se no trabalho. Mas essa volta, por uma terrível ironia dos acontecimentos, realizar-se-á dentro de uma doutrina dita científica que leva a consequências inimagináveis as tendências materialistas do individualismo, do espírito burguês e do capitalismo. Tawney, no seu jeito inglês, diz que Karl Marx foi o ‘último dos escolásticos’; mas um escolástico ateu e materialista...

6. A avareza se chamava avareza, o pecado se chamava pecado

Dissemos, mais de uma vez, que os ensinamentos da Igreja constituíam a atmosfera cultural da Idade Média, mas agora acrescentaremos que eram frequentemente violados, grosseiramente desobedecidos, e o que é mais grave, violados e desobedecidos ostensivamente pela mesma hierarquia que os guardava. Os abusos cometidos pelas autoridades eclesiásticas são o assombro da história. À medida que se aproximam os tempos da Renascença agravam-se os abusos; os santos clamam, o povo geme e os abusos prosseguem. Movimentos reivindicatórios, ou melhor, movimentos precatórios se delineiam por toda a cristandade. Os camponeses revoltados da Inglaterra e da Alemanha apelam para as autoridades civis e eclesiásticas, e até princípios do século XVI é em termos religiosos, em nome do Cristo Redentor que os servos pedem liberdade. ‘Considerando que Cristo nos redimiu todos, grandes e pequenos, sem exceção, com o Seu precioso sangue, é inadmissível que homens nos mantenham como propriedades suas. De acordo com a Escritura devemos ser libertados’. Assim clamavam os camponeses alemães em 1525, e em vão clamavam. Roma não ouvia. Os reis não ouviam. Lutero, que já surgira como um paladino contra os abusos do papado, dá aos camponeses alemães a mais dura resposta que era possível imaginar. Esse homem ‘de direita’, como hoje diríamos, não podia suportar a simples ideia de revolta. Para ele, revoltado, a revolta dos outros era incompreensível:

‘Nem a justiça, nem a tirania justificam a revolta. Não resistais àquele que vos oprime... Direis: não deve existir servidão porque Jesus Cristo nos redimiu. Não será isto fazer da liberdade cristã uma coisa carnal? O servo cristão possui a liberdade cristã.’ (Roland Mousnier, op. cit., pág. 76).

Digam que na Idade Média o mundo cristão esteve longe do cumprimento razoável de sua tarefa temporal, que o mau exemplo vinha do alto, que os séculos acumularam ressentimentos, que as queixas se envenenavam. Mesmo assim, com todas as prevaricações, subsiste uma diferença colossal entre a Idade Média e a Civilização Moderna. Uma diferença colossalmente simples: na Idade Média avareza se chamava avareza e não ‘espírito de empreendimento’; cupidez se chamava cupidez, e não ‘livre concorrência ou competição comercial’. Pecado era pecado, mesmo para os que pecavam. E egoísmo era amor-próprio, fonte e origem de todos os pecados e não força viva de equilíbrio social. Não nascera ainda filósofo para gabar o egoísmo, ou para inventar a teoria da ‘mão invisível’ que promove a prosperidade da nação quando seus membros cuidarem estritamente de seus próprios interesses.

Se o leitor não sentir a importância desta diferença, e disser consigo mesmo que os belos preceitos nada valem se mal cumpridos, dificilmente entenderá o que tentamos expor...

Uma coisa são os atos humanos numa atmosfera cultural que os reprova, ainda que não consiga eficazmente evitá-los; e outra são os mesmos atos num clima que os encoraja, os oficializa, e os adorna com denominações novas e científicas.

A passagem de uma civilização para outra se efetua quando os atos que até então contrariavam a envoltória, a consciência coletiva, passam a se impor e a criar uma nova consciência coletiva. Foi isto que aconteceu na explosão do século XVI, e que eu origem a uma nova concepção de temperança e de justiça e que, séculos depois, se consolidou na sociedade liberal capitalista. A economia tornou-se autônoma, ou melhor, in-subordinada. E os reitores dos novos séculos passaram a ensinar que o homem, por decreto da natureza, é inimigo do homem.

Na Idade Média também havia efervescência de inimizade. Os homens tratavam como inimigos os que tentassem arrancar-lhes o pão; mas a grande novidade trazida pela Renascença foi a de tratarem como inimigos os que lhes amassavam o pão!"


"O banqueiro e sua esposa" de Marinus van Reymerswaele

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