Do capítulo V ("Capitalismo") do livro: CORÇÃO, Gustavo. Dois amores, duas cidades. Vol. 2 (A
civilização do homem-exterior). Rio de Janeiro: Agir, 1967, pp. 191-205.
Veja-se, como complemento, o texto Jacques Le Goff sobre a Idade Média e o capitalismo.
Veja-se, como complemento, o texto Jacques Le Goff sobre a Idade Média e o capitalismo.
* * *
“1. A
grande novidade da renascença: o capitalismo
‘A grande novidade que aparece na
Renascença é o capitalismo’ diz Henri Pirenne. Isto não quer dizer que antes
dos séculos XV e XVI nunca tenha existido operações mercantis, dinheiro, desejo
de lucro, ou organizações para empreendera exploração o trabalho humano.
Qualquer definição que dermos a ‘capitalismo, não será difícil, esmiuçando a
história, encontrar algum episódio a exibir o fenômeno. Os mercadores dos
séculos XII e XIII eram tipos humanos parecidos com os negociantes de todos os
tempos. E até especuladores, parecidíssimos com os de nossos dias, existiram
antes do período das descobertas e do mercantilismo. Nos mesmos dias, e na
mesma cultura ainda medieval, em que uma humilde pastora abre caminho entre
cortesãos para dizer um segredo ao ouvido de Carlos VII, rei de França, um
outro personagem, sem eira nem beira, também abre caminho e chega ao pé do
mesmo rei. Ambos realizam seus desejos: Jeanne d’Arc ganha a confiança do
monarca e torna-se bandeira viva de libertação da França; Jacques Coeur,
conquistando as boas graças do trono, torna-se tesoureiro, moedeiro,
conselheiro, e em breve tempo, o homem mais rico da França, se não do mundo.
Fundou empresas comerciais, financiou as minas de Beau-jolais e do Lyonnais,
construiu palácios em centenas de cidades e ostentou um luxo como igual jamais
se vira em toda a cristandade. Sua divisa assemelhava-se à do florentino L. B.
Alberti: ‘À couer vaillant rien est impossible.’
Como facilmente se imagina, tinha Jacques
Coeur muitos invejosos que não descansaram enquanto não conseguiram derrubá-lo.
Foi preso e despojado da fortuna pelo mesmo versátil Carlos CII, mas logo, no
reinado seguinte, Luiz XII manda rever o processo, reabilitar a memória do
ex-tesoureiro, e devolver aos filhos uma parte da imensa fortuna, por onde se
vê que na revisão do processo e na reabilitação de Jacques Coeur houve maior
diligência do que na revisão e reabilitação de Joana d’Arc.
Mas há um abismo de diferença entre esses
episódios, entre dez ou mil bolsões do fenômeno capitalista, existente na Idade
Média, ou em qualquer outra época, e o bloco, o aparelho, o sistema, o Cosmos
como diz Max Weber, em que se consubstanciou, como fator civilizacional, o
Capitalismo moderno.
R. H. TAWNEY: ‘... o século XVI
assiste à colisão, não somente de diferentes escolas de pensamento religioso,
mas entre a envoltória econômica transformada (the changed economic environment) e a teoria da sociedade vigente.’
(Religion and the Rise of Capitalism,
John Murray, London, 1926, pág. 14)
E note-se bem que esse autor, que no
presente capítulo nos dará uma preciosa contribuição, não diz ‘estrutura
econômica’ e sim ‘envoltória’, ‘environment’, que no seu estudo tem o mesmo
sentido que damos a envoltória ou atmosfera cultural. Por onde se vê que não é
somente no nível da terá, na estrutura material da economia, que se processa o
choque a que se refere Tawney, mas também, e principalmente no domínio das
correntes espirituais. Em outras palavras, a novidade a que se refere Pirenne
não está nos fatos materialmente tomados, não está nos fenômenos econômicos, no
vulto das cifras, e sim no surgimento de um novo espírito que dará àqueles
fatos uma coesão e uma eficácia cultura nunca vistas.
Não pretendemos de modo algum subestimar
os estudos e as considerações dos fatos econômicos tomados no dinamismo próprio
de suas estruturas. As causas materiais, o crescimento demográfico, as formas
de produção, as riquezas naturais, etc. influem poderosamente no curso dos
acontecimentos, e portanto na orientação da história, sem todavia determiná-la
como pretendem os materialistas, mas a maior influência não é a que se exerce
no próprio determinismo dos fatores econômicos, e sim nas ideias e no espírito
que esses elementos suscitam. Um dos melhores exemplos dessa decantação do fato
econômico para o céu dos valores, ideias e critérios culturais é o marxismo,
que pretende descrever um determinismo sócio-histórico-econômico que nunca
funcionou; mas o marxismo, como ideia, funcionou. Não foi o chão da economia,
em seus abalos sísmicos, que produziu os conhecidos fenômenos de nosso tempo;
foram antes as nuvens carregadas de ‘ideologias’.
Coisa análoga diremos do ‘capitalismo’ a
partir do século XVI: é mais uma nova atitude espiritual em face das riquezas
materiais, do que simplesmente uma nova maneira de fabricar ou vender. E é esse
o ângulo que mais nos interessa nessa longa e fatigante pesquisa das correntes
de ideias que formam as fibras da história. O ponto que desejamos bem frisar
aqui é que o homem do século XVI tem uma atitude espiritual diante dos bens
materiais diferente da atitude do século XII ou XIII. Digamos até que tem uma
nova temperança.
R. H. TAWNEY: ‘Há uma envoltória
moral, religiosa e econômica, que impõe sua marca (its stamp) nos indivíduos ainda que eles não tomem consciência
disto. Nem por isso, entretanto, é menos profunda a influência da nova
atmosfera. As categorias econômicas da sociedade moderna, tais como a
propriedade, liberdade de contratar, competição, que constituem, com as
concepções políticas e religiosas, o seu aparelhamento intelectual, foram
provavelmente as forças mais poderosas na formação do caráter dessa sociedade.
Entre a concepção da sociedade como comunidade de classes desiguais com várias
funções, organizada para um fim comum, e a concepção que vê a sociedade como um
mecanismo automantido pelo jogo dos fatores econômicos; entre a ideia que
proíbe ao homem a exploração do próximo e aquela doutrina que chama de
providência divina o egoísmo; entre a atitude que apela para os padrões religiosos
a fim de reprimir os apetites econômicos, e aquela que considera os expedientes
como critérios finais – há um abismo que nenhuma teoria sobre a permanência e a
ubiquidade dos interesses econômicos pode galgar, e que, pelo menos, vale a
pena explorar. Examinar como a primeira se transformou na segunda; acompanhar o
processo que passou de uma concepção de atividade econômica que a considera uma
espécie de conduta moral entre outras, para uma concepção que só vê a
dependência de forças impessoais, e quase automáticas; observar a luta do
individualismo em face das restrições impostas, em nome da religião pela
Igreja, e em nome do bem público pelo Estado, luta que no princípio se
delineia, depois se tolera, e por fim se admite e se justifica triunfalmente em
nome de liberdade econômica; ver como as autoridades eclesiásticas se esforçam
por manter o domínio sobre as esferas que reclamavam, e como por fim abdicam –
eis o que devemos fazer, não pra nos permitir um passatempo de vã curiosidade,
mas para contemplar as fontes do riacho que agora se tornou torrente caudalosa’
(Op. cit., pág. 12-13)
A transformação profunda, que Tawney acaba
de descrever, pode ser resumida nos termos que atrás nos referimos a uma nova
concepção no que concerne ao uso das coisas.
2. A
nova temperança
Ou então, e mais precisamente, tornemos a
dizer que surgiu uma nova temperança.
Disse Aristóteles que para negar a metafísica é preciso fazer metafísica. Do
mesmo modo, para negar um sistema ético é preciso ter um outro que o julgue. A
nossa civilização não trouxe propriamente uma negação, um nihilismo moral e sim
um outro regime, um outro código às vezes mais meticuloso do que o antigo – e
no que concerne ao uso dos bens materiais trouxe uma nova temperança, uma
espécie de ‘santo apego1 aos bens exteriores que dilatam a importância do
indivíduo, em lugar do desprendimento cristão.
Se o leitor quiser ter uma ideia mais
completa e mais documentada da diferença entre as duas atitudes, a medieval e a
moderna, em face das riquezas materiais, poderá ler com proveito o capítulo II
do excelente trabalho de Daniel Villey (Petite
Histoire des Grandes Doctrines Economiques, Presses Universitaires de
France) de onde tiraremos aqui alguns dados relativos a três problemas
fundamentais: o das atividades comerciais, o da usura, e o das organizações de
trabalho.
Em relação ao problema das trocas, pode-se
dizer que o sentimento que domina toda a civilização medieval é o de uma
temerosa reserva ou desconfiança; ao passo que, no mundo novo da Renascença, e
mais ainda nos séculos subsequentes, é uma nova nobreza que surge da
respeitabilidade comercial. Em relação à usura, a posição medieval, ou melhor a
posição cristã-medieval é de franca hostilidade; ao passo que, no mundo novo,
como assinala Tawney, a usura deixa de ser pecado e passa a ser ‘espírito de
empreendimento’. Em relação ao trabalho, a Idade Média, que em tanta coisa da
ordem temporal se inspira na sabedoria da antiguidade clássica, toma uma
posição nova e genuinamente cristã: o trabalho tem uma dignidade e até uma
eficácia de santificação que só foi descoberta na oficina de Nazaré; no mundo
moderno, entretanto, à medida que progridem os meios de produção, o trabalho
ganha um crescente valor, mas valor econômico, valor de eficiência produtiva,
valor material, exterior, que se equaciona com um terrível aviltamento do homem
trabalhador. Veremos adiante como se agravarão os traços da moderna civilização
à medida que ela se aproxima do seu apogeu, a Cidade Liberal dos séculos XVIII
e XIX. Surgirá então, do flanco dessa sociedade, uma reação tardia e
tragicamente equivocada: o socialismo, que reage violentamente contra os
esquemas de distribuição de riquezas materiais, mas vem dar ainda mais força e mais solidez ao princípio nefasto do
individualismo, isto é, ao primado do Homem-Exterior!
Tem-se assim o exemplo da mais desastrada
mistura de generosidade e brutalidade amesquinhadora do homem, que já se viu na
história; ou o exemplo do ideal de redenção por aviltamento, sob a bizarra
alegação de serem todos igualmente aviltados!
3. O
comércio na Idade Média
Consideremos o problema das trocas
lucrativas na Idade Média. Na IIa IIae o, q. 77, a. 4 da Suma, Santo Tomás indaga: ‘Será lícito,
no comércio, vender mais caro do que se comprou?’. Essa questão interpreta o
sentimento geral da época, embora Santo Tomás procure desvencilhar-se de tais
contingências para apreender as normas universais. Como diz Villey, o
sentimento da época ‘opunha, para as vilipendiar, as artes pecuniativae às artes
productivae’. Tendo diante dos olhos o critério da dignidade ou valor
humano do trabalho, o medieval vê com visível antipatia esse lucro que não se
justifica pelo trabalho. É por isso que Santo Tomás, nas objeções, cita o
argumento de S. João Cristóstomo, que certamente traduzia o sentimento comum:
‘Aquele que compra uma coisa para o tráfico lucrativo, se a vende como a comprou, sem nada mudar (integram et imutatem vendendo), é um dos
mercadores expulsos do templo de Deus.’ Vê-se aí que a estigmatização recai
sobre a ausência de acréscimo de valor dado pelo trabalho, e sobre a operação
motivada principalmente pelo lucro. Em outras palavras, há nos ares da Idade
Média uma vaga ideia de que o comércio foge ao trabalho (que é digno e santo),
tendendo para a usura (que é indigna e pecaminosa).
[...]
O severo São Jerônimo, invocado também por
Santo Tomás no mesmo artigo da Suma,
diz assim: ‘Do clérigo que negocia, que de pobre se tornou rico, e de obscuro
famoso, foge como da peste!’ Entretanto Santo Agostinho corrige: ‘O comerciante
ávido de lucro, quando tem um prejuízo, blasfema, mente, pronuncia falsos
juramentos sobre o preço da mercadoria. Mas
esses vícios são do homem, e não do negócio que sem eles não se pode exercer.’
SANTO TOMÁS: ‘O comércio é o estado
daqueles que fazem ofício das trocas. Ora, Aristóteles distinguia duas espécies
de troca. Uma é natural e necessária, e consiste em trocar coisas por coisas,
ou coisas por dinheiro, para as necessidades da vida (...) Há porém outra
espécie de trocas que consiste em trocar dinheiro por dinheiro, ou coisas por
dinheiro, não para as necessidades, mas para o lucro. E é esse tipo de troca
que constitui o comércio. Ora, dessas duas espécies de trocas, Aristóteles
louva a primeira (...) e, com boas razões, censura a segunda que, por sua
própria natureza, favorece a cupidez, que não conhecendo limites tende para o
infinito. É por isso que o comércio, considerado em si mesmo, tem uma certa
torpeza quando não se orienta para um fim bom em si mesmo ou necessário.
Entretanto, se o lucro, que é o fim do comércio, não implica em si mesmo algo
de bom ou necessário, também não implica algo de mau ou de contrário à virtude.
Nada há que impeça, pois, a ordenação do lucro a um fim necessário ou bom.
Assim se tornará lícito o comércio. É o que acontece quando alguém se propõe a
empregar o lucro moderado, que lhe proporciona o comércio, no sustento da
família ou no auxílio dos indigentes; ou ainda quando faz comércio para a
utilidade social, a fim de que não falte o necessário em sua pátria. O lucro
não será então um fim, mas o preço do
trabalho.’
DANIEL VILLEY: ‘No fim das contas
parece que só se condena o desejo de ganho ilimitado para fins avaros e
egoístas. Temos a impressão de uma escapatória, mas somos nós talvez que
estamos errados.’ (Op. cit. pág. 18).
Muito acertadamente Villey admite que não
esteja acertando quando julga que Santo Tomás faz alguma concessão ao
sentimento da época, ou, quem sabe? às inovações que já se desenhavam no
horizonte. Podemos admitir uma certa influência da época, onde vê no comércio, considerado em si mesmo, uma certa
torpeza; mas isto mesmo só se diz com abstração feita dos fins. Mas essa
sensibilidade medieval, se assim a quisermos classificar, está certamente muito
mais próxima do justo e do razoável do que a sensibilidade oposta, que vê no
comércio, considerado em si mesmo,
uma certa dignidade.
[...] O mundo que começou a crescer
vertiginosamente na Renascença, cresceu intemperante, desregrado e apaixonado
demais pelas substâncias materiais de seu crescimento. Infelizmente, naqueles
dias de adolescência civilizacional, Santo Tomás foi esquecido ou escarnecido.
Analisando o pensamento do Doutor
Angélico, no artigo citado, notamos que a primeira condenação do lucro como fim
é feita com preceitos de temperança, e só depois de ramifica em termos de
caridade e justiça. [...] a virtude da humildade, anexa da temperança, é
basilar. Ora, é justamente nessa base que reside a revolução moral do
individualismo burguês. Como já vimos [...] o individualismo, sendo uma espécie
de orgulho, é um pecado contra a temperança, e depois contra a justiça e a
caridade. Mas a intemperança da moral burguesa [...] se reveste de um curioso e
majestoso aspecto de temperança!
4. Quatro
atitudes medievais em relação aos bens materiais (Tawney)
A leitura de textos semelhantes ao que
citamos dará certamente, ao leitor moderno, a divertida impressão de que
aqueles ‘autores da Idade Média estão mais preocupados com os casos de
consciência do que com a solução de problemas econômicos’, como diz Daniel
Villey. E é verdade. Devemos notar que os autores citados são teólogos, autores
espirituais, que em qualquer época devem cuidar mais dos problemas morais do
que dos econômicos. O que se pode dizer é que os teólogos da Idade Média se
interessavam primordialmente pelas virtudes, pelos meios de escapar ao pecado,
do que pelos meios de escapar à pobreza. Nos tempos modernos, entretanto,
aparecem muitos teólogos que publicam maior interesse pelos problemas
econômicos do que pelos problemas teológicos.
[...] A felicidade do homem não consiste
na riqueza, nem no gozo da saúde, nem mesmo na aquisição das virtudes. Só em
Deus descansará o coração inquieto do homem...
[...] Diferentes atitudes em face do
problema econômico foram proclamadas e vividas durante o milênio da
cristandade. Tawney assinala quatro atitudes típicas. A primeira é a do
ascetismo rigoroso que vê na atividade econômica o domínio da concupiscência e
da avareza. A segunda é a de indiferença por esses assuntos materiais em nome
da religião. A terceira atitude conduziu à ‘agitação em vista de uma
determinada reforma, à eliminação de algum clamoroso escândalo, para a promoção
final de uma revolução que trouxesse ao mundo o reino da justiça.’ A quarta,
finalmente, consistiu em ‘aceitar e criticar’, tolerar e corrigir, consistiu,
em suma, em acolher com compreensão o rude mundo dos apetites humanos, o
amontoado às vezes sórdido, do qual pode brotar a vida do espírito, e também,
em insistir que esse material pode ser assumido no Reino de Deus’. (op. cit. pág. 17). Cada uma dessas atitudes
teve seus representantes e seus períodos na Idade Média. Nos primeiros séculos
predominava a concepção ascética que inspirou o monaquismo, e que pretendia
inspirar todo o cristianismo, como se, com votos ou sem eles, os conselhos
evangélicos tivessem força de preceito. Esse rigorismo, que pela por ausência
de matizes, e por brutalidade simplificadora, reaparecerá mais tarde em algumas
seitas protestantes, na heresia jansenista, e até mesmo fora e contra a Igreja
nas asceses revolucionárias dos socialistas dos primeiros tempos, que
obscuramente sentiam que a ‘força está com os puros’, como dizia Zola. A
atitude de indiferença também reaparece, mas agora com sinal trocado:
indiferença religiosa em nome da economia. A terceira atitude voltará também com
os socialistas, mas esvaziada de qualquer conteúdo teologal, ou até
simplesmente moral. A quarta posição, na opinião de Tawney, é a mais
caracteristicamente medieval. Preferimos dizer que é a mais universal e
independente da época. Na verdade essa quarta posição nunca teve dimensões de
experiência histórica. Será sempre uma presença doutrinal, mas não um fator
civilizacional, a menos que, por algum espantoso milagre o mundo passasse a
prestar atenção a Santo Tomás, e as escolas e universidades católicas – já não
dizemos os outros! – graças a uma conversão maravilhosa, passassem a estudar
aquele doutor que Maritain chama de ‘apóstolo dos tempos modernos’!
5. A
lei de ferro. Vencidos e vencedores
No que concerne à usura, o pensamento
medieval condensa os sentimentos e preceitos de suas fontes. Para Aristóteles,
‘o dinheiro não dá cria’; na lei mosaica o empréstimo com juros era proibido;
no Novo Testamento (Lc VI, 34) Jesus
ensina: ‘Se emprestais àqueles de quem esperais receber, que mérito tereis? Os
pecadores também emprestam aos pecadores a fim de receber o equivalente.’ A
tradição patrística afirmará com energia e ênfase que emprestar para receber
juros equivale a explorar a indigência do próximo. ‘Exigir do pobre um aumento
para tua riqueza é o mesmo que sugar um seio estéril’, diz Gregório de Nice. A
partir do quarto século a Igreja proíbe aos religiosos a prática da usura. Mas
tarde a interdição se estende a todos, e o Concílio de Latrão (1179) para
marcar fortemente a repugnância da Igreja pelos empréstimos com juros, proíbe
aos padres a aceitação de esmolas dessa procedência!
Comentando um texto de Aristóteles, diz
Santo Tomás:
‘É com bom fundamento que se prova
ser detestável o empréstimo com juros (fanus), pelo qual o dinheiro cresce por
si mesmo (...) Vemos com efeito que nas proliferações, em conformidade com as
leis da natureza, os filhos são semelhantes aos pais. Se dinheiro produz
dinheiro, temos aí uma espécie de proliferação. Eis por que é demasiadamente
antinatural essa maneira de adquirir dinheiro. Pela ordem natural o dinheiro
provém das coisas, e não do próprio dinheiro’ (I Política leit 8)
Esse era o pensamento, não só da Igreja,
mas também da civilização que por ela se orientava; e continuou a ser doutrina
da Igreja posta em termos condizentes com economia cada vez mais complexa e
dinâmica de nossos dias, para a qual o juro não é necessariamente ‘cria’ do
dinheiro podendo ser uma espécie de trabalho acumulado; e dentro da qual o
acréscimo do preço na mercadoria, nas trocas comerciais, não é necessariamente
ilícito – podendo ser a remuneração da ‘acessibilidade’ que o negociante
realmente acrescenta ao valor da coisa vendida.
Quando se diz que na Renascença surgiu a
novidade do capitalismo, e quando se tenta caracterizar esse fenômeno pela
fecundidade do dinheiro, que é uma intemperança e uma injustiça, não é –
note-se bem! – uma estrutura econômica ou um sistema mercantil e financeiro que
se designa com aquele vocábulo, e se denuncia como avareza e injustiça. O
‘capitalismo’ a que nos referimos nestas páginas não é pura e simplesmente uma
estrutura econômica. Muita gente ainda hoje designa, com o mesmo termo, a
estrutura econômica que já não tem mais o espírito que a animou desde a era do
mercantilismo, nos séculos XV e XVI, até a era do liberalismo, nos séculos
XVIII e XIX. Essa estrutura, que inclui a livre empresa, o regime salarial, o
lucro auferido por um capital, etc., é em si mesma boa, e tudo indica que seja
a melhor que até hoje os homens inventaram.
Outra coisa, entretanto, era a tranquila
filosofia que considerava o dinheiro como o fator principal da empresa, e que
chegava à ferocidade de ver no trabalho um elemento adverso, uma espécie de
ônus, de atrito, de perda que deve ser reduzida ao mínimo. Em vez de figurar ao
lado dos empreendedores capitalistas, como colaboradores e beneficiários do
resultado obtido por esforço conjunto, os trabalhadores eram vistos como puros
fatores materiais sujeitos às leis dos mercados. Com o desenvolvimento das
técnicas e das indústrias essa situação se agravou até ganhar a forma
monstruosa da chamada Lei de Ferro,
pela qual os salários devem ser mantidos baixos, tanto quanto possível próximos
do limite que permita ao operário viver e reproduzir. Mas não basta dizer que o
operário era tratado como um dos vários fatores de produção influente no custo
da mercadoria. Sendo criaturas humanas, dificilmente se poderia manter a
situação de rebaixamento sem consciências mais ou menos clara de uma inimizade
entre as classes. E aí é que reside a gravidade do fenômeno ocorrido naquela
fase da história. Com o critério das posses, do dinheiro, a sociedade não se
dividia apenas em ricos e pobres – dividia-se em vencedores e vencidos!
Posto o problema nesses termos pode-se
dizer que na Idade Média não havia capitalismo. Como vimos atrás, era vivo o
sentimento da dignidade do trabalho. O mais imparcial dos observadores não
poderá negar que havia na Idade Média uma organização trabalhista formada pelas
corporações inspirada no cristianismo, que o mundo contemporâneo, depois das
brutalidades mercantilistas e liberalistas, procura reanimar. Muitas vezes
essas tentativas de nossos dias se enganam grotescamente, e seguem a direção do
socialismo-comunista que é a mais afastada daquele antigo ideal humanista, e que
é, apesar das máscaras da denominações, a continuação mais lógica da civilização
do Homem-Exterior. Os termos são ambíguos, as lutas travadas foram comédias de
erros, mas na verdade o Comunismo é a continuação do espírito que animou o
capitalismo da civilização individualista. E só países ainda hoje chamados
capitalistas – França, Inglaterra, Estados Unidos, etc – são os que melhor se
desembaraçaram do capitalismo propriamente dito, e mais se aproximaram, graças
ao regime democrático, ainda que assaz imperfeito, de um ideal de humanização e
dignificação do trabalho. Será preciso demonstrar que a desumanização do
trabalho soviético é mais parecida com o regime dos operários da era vitoriana
do que o regime do atual trabalhador inglês, francês ou norte-americano?
Esses países, que hoje chamamos
democráticos, em oposição aos totalitários, procuram reatar o programa esboçado
na Idade Média, sobretudo nos séculos de seu esplendor. [...]
MARTIN SAINT-LEÓN: ‘Todo esse
pequeno mundo antigo estava fortemente imbuído de ideias cristãs sobre o justo
salário e o justo preço. Havia sem dúvida, como hoje, cupidez e ambição, mas
uma regra poderosa se impunha a todos, e de um modo geral exigia para cada um o
pão cotidiano prometido pelo Evangelho.’ (Histoire
des Corporations et des Métiers, 3ª ed. 1922, pág. 187 cit. Tawney, op. cit. pág. 27).
Os operários medievais, habituados a
desconfiar da cupidez e das ambições, desconfiavam também da eficiência como
elemento estimulador da competição. Um leitor moderno, se tiver tinturas de
ciências econômicas, esfregará os olhos diante das espantosas regulamentações
de trabalho formuladas e livremente aceitas pelas corporações, onde os
artesãos, entre outras coisas, se comprometiam a não fazer serão com o objetivo
de ganhar mais, e a não usar instrumentos aperfeiçoados que viessem aumentar o
rendimento do trabalho. A ideia dessas limitações, que à primeira vista parece
profundamente estúpida, inspirava-se no desejo de manter com rédas curtas o
apetite intemperante.
EMMET JOHN HUGHES: ‘O appetitus divitiarum infinitus, por
tanto tempo acorrentado como perigoso para a sociedade, era agora no século XVI
liberado, e promovido a princípio energético para a riqueza das nações.’ (Ascensão e Decadência da Burguesia, AGIR,
1945, pág. 72).
A vigilância, de inspiração evangélica,
não aguentou a tensão de forças desencadeadas pela nova civilização. Rompeu-se
o equilíbrio. Perdeu-se a noção da dignidade do trabalho, e o mundo terá de
esperar quatro séculos até que a teoria do valor volte a fundar-se no trabalho.
Mas essa volta, por uma terrível ironia dos acontecimentos, realizar-se-á dentro
de uma doutrina dita científica que leva a consequências inimagináveis as
tendências materialistas do individualismo, do espírito burguês e do
capitalismo. Tawney, no seu jeito inglês, diz que Karl Marx foi o ‘último dos
escolásticos’; mas um escolástico ateu e materialista...
6. A
avareza se chamava avareza, o pecado se chamava pecado
Dissemos, mais de uma vez, que os
ensinamentos da Igreja constituíam a atmosfera cultural da Idade Média, mas
agora acrescentaremos que eram frequentemente violados, grosseiramente
desobedecidos, e o que é mais grave, violados e desobedecidos ostensivamente
pela mesma hierarquia que os guardava. Os abusos cometidos pelas autoridades
eclesiásticas são o assombro da história. À medida que se aproximam os tempos
da Renascença agravam-se os abusos; os santos clamam, o povo geme e os abusos
prosseguem. Movimentos reivindicatórios, ou melhor, movimentos precatórios se
delineiam por toda a cristandade. Os camponeses revoltados da Inglaterra e da
Alemanha apelam para as autoridades civis e eclesiásticas, e até princípios do
século XVI é em termos religiosos, em nome do Cristo Redentor que os servos
pedem liberdade. ‘Considerando que Cristo nos redimiu todos, grandes e
pequenos, sem exceção, com o Seu precioso sangue, é inadmissível que homens nos
mantenham como propriedades suas. De acordo com a Escritura devemos ser
libertados’. Assim clamavam os camponeses alemães em 1525, e em vão clamavam.
Roma não ouvia. Os reis não ouviam. Lutero, que já surgira como um paladino
contra os abusos do papado, dá aos camponeses alemães a mais dura resposta que
era possível imaginar. Esse homem ‘de direita’, como hoje diríamos, não podia
suportar a simples ideia de revolta. Para ele, revoltado, a revolta dos outros
era incompreensível:
‘Nem a justiça, nem a tirania
justificam a revolta. Não resistais àquele que vos oprime... Direis: não deve
existir servidão porque Jesus Cristo nos redimiu. Não será isto fazer da
liberdade cristã uma coisa carnal? O servo cristão possui a liberdade cristã.’
(Roland Mousnier, op. cit., pág. 76).
Digam que na Idade Média o mundo cristão esteve
longe do cumprimento razoável de sua tarefa temporal, que o mau exemplo vinha
do alto, que os séculos acumularam ressentimentos, que as queixas se
envenenavam. Mesmo assim, com todas as prevaricações, subsiste uma diferença
colossal entre a Idade Média e a Civilização Moderna. Uma diferença
colossalmente simples: na Idade Média avareza se chamava avareza e não ‘espírito
de empreendimento’; cupidez se chamava cupidez, e não ‘livre concorrência ou competição
comercial’. Pecado era pecado, mesmo para os que pecavam. E egoísmo era
amor-próprio, fonte e origem de todos os pecados e não força viva de equilíbrio
social. Não nascera ainda filósofo para gabar o egoísmo, ou para inventar a teoria
da ‘mão invisível’ que promove a prosperidade da nação quando seus membros
cuidarem estritamente de seus próprios interesses.
Se o leitor não sentir a importância desta
diferença, e disser consigo mesmo que os belos preceitos nada valem se mal
cumpridos, dificilmente entenderá o que tentamos expor...
Uma coisa são os atos humanos numa
atmosfera cultural que os reprova, ainda que não consiga eficazmente evitá-los;
e outra são os mesmos atos num clima que os encoraja, os oficializa, e os
adorna com denominações novas e científicas.
A passagem de uma civilização para outra
se efetua quando os atos que até então contrariavam a envoltória, a consciência
coletiva, passam a se impor e a criar uma nova consciência coletiva. Foi isto
que aconteceu na explosão do século XVI, e que eu origem a uma nova concepção de
temperança e de justiça e que, séculos depois, se consolidou na sociedade
liberal capitalista. A economia tornou-se autônoma, ou melhor, in-subordinada. E os reitores dos novos
séculos passaram a ensinar que o homem, por decreto da natureza, é inimigo do
homem.
Na Idade Média também havia efervescência
de inimizade. Os homens tratavam como inimigos os que tentassem arrancar-lhes o
pão; mas a grande novidade trazida pela Renascença foi a de tratarem como
inimigos os que lhes amassavam o pão!"
"O banqueiro e sua esposa" de Marinus van Reymerswaele

Nenhum comentário:
Postar um comentário