Mais um texto do amigo Lincoln Haas Hein
Espírito Vivente, Âmbitos de realidade e símbolos como ícones no processo arteterapêutico espiritual tendo em vista a vocação pessoal, a individuação.
Tentando unir o
pouco que sei de São Tomás, Zubiri, Quintás e Gregório Palamas (um complemento
às minhas meditações sobre arteterapia, espiritualidade e canto gregoriano
agora que tenho um pouco mais de noção dos conceitos usados pelos padres gregos
e pelo personalismo cristão):
Quanto mais algo é,
quanto mais algo é ser, mais é bem e mais é capaz de difundir-se comunicando
sem com isso perder sua própria substantividade. Quanto mais substancial
(ousia) e portanto quanto mais espiritual é um ser mais é âmbito de realidade
criador de âmbitos de realidade. Mais é aberto a dialogar criativamente em
encontros nos quais recolhe bem e comunica bem realizando-se em religações que
manifestam o poder do real.
Sem deixar de ser
essência (ousia) o ser como bem se torna energia vivente, espírito vivificante
(pneuma) que recolhido em si e mantendo intacta sua essência pode entretanto
dar a participar seu espírito como energia (potência ativa que plasma
comunicações de si que também são energia).
O Espírito divino
como plenitude e fundamento do real é perfeitamente recolhido e difusivo em si
mesmo em uma comunicação de três pessoas (hipostasis) que vivem a mesma vida
criativa e não necessita das criaturas para realizar o encontro pessoal e o
poder do real mas livremente escolhe fundar novos âmbitos que participam dessa
sua vida íntima em diversos graus.
Os homens como
criaturas espirituais e mais próximas de Deus tem em si o ser pessoal, a
capacidade de como espírito vivente comunicar bem e recolher bem criativamente
em encontros que manifestam o poder do real mas isso se dá apenas religando-se
em diálogo com âmbitos já criados por Deus e/ou com o próprio Deus.
Entretanto, é
possível verificar no homem a capacidade de em obras culturais comunicar seu
espírito; quando autênticas, as obras de arte que nascem dos encontros com
âmbitos de realidade são âmbitos que plasmam em si sensível e meta-sensível,
tem algo de vida que se comunica.
Esse dar-se e
receber do ser espiritual como bem implica necessariamente a cognição, a troca
de luz e espelhamento do real e todo encontro criativo plasma âmbitos
manifestando a energia vivificante do ser de tal modo que o ser aberto ao
encontro nessa experiência criativa vive o sentimento espiritual. Sentimento
que é "Consensio" na "Conscientia", ser que toca o ser na
intimidade sem que a distinção desapareça; a beleza se mostra num afeto que é
impressão afetiva, síntese entre saber e sabor, entre conhecer e amar, entre
bem, verdade, unidade e ser.
"Santa Margarida Maria Alacoque contemplando
o Sagrado Coração de Jesus" (c.1765), de Corrado Giaquinto
A partir do núcleo pessoal que é o nous e coração, memória do ser como capacidade para o real, e a partir do logos que manifesta criativamente e pessoalmente a luz recebida no nous é possível a realização do espírito vivente como terceira potência, o amor da vontade como unidade com o bem sem cair na indistinção e "empastelamento" destrutivo dos diversos âmbitos de realidade. É nessa unificação das três potências espirituais (nous, logos, pneuma / memória, razão, vontade / intelecto, raciocínio, querer), sem que percam sua distinção e relação recíproca, que o homem se torna belo por amor à Beleza (filocalia) no sentimento espiritual mais elevado que é chamado por São João da Cruz toque substancial. Há graus e graus de sentimento espiritual desde o menos espiritual que é a simples consciência das paixões (emoções) até a experiência da Chama viva de amor, a experiência da energia vivificante do Espírito Santo movendo todas as coisas.
Spiritus domini replevit orbem terrarum, alleluia. Et hoc quod continet
omnia, scientiam habet vocis. alleluia.
Quando o homem se
deixa conduzir pela fantasia e pelas paixões sem direcioná-las pela atenção do
nous ao real ocorre não o êxtase em direção à unidade com a beleza mas a
vertigem que aliena. O nous enquanto energia, enquanto atividade sutil de
consciência se afasta do recolhimento, se afasta da sua essência (o coração)
neste processo de manipulação egoísta do real pela ignorância e pela vontade
escrava do ideal de domínio objetificante (que não percebe a realidade ambital,
a possibilidade da troca, o outro ser como sujeito e substância, seja ele
pedra, planta, animal, homem, obra cultural, ou outra realidade).
O encontro pessoal,
a verdadeira compreensão através tanto da razão quanto da experiência de
unidade com o real exige os dois pólos do bem: o pólo do recolhimento e o da
difusividade (sístole e diástole do coração). Os dois pólos precisam estar
presentes no homem noeticamente, ou seja, através da consciência atenta ao
real. Essa atenção noética é verdadeiramente criativa quando unificada ao
coração que recolhe as experiências e unificada pelo encontro aos âmbitos de
realidade, aos seres que se apresentam comunicando um valor pela beleza. O
encontro acontece somente quando os dois pólos simultaneamente interagem na
atitude que mescla temor reverencial e piedade. O ser pessoal do homem para
formar-se e configurar-se plenamente como ícone do divino precisa do encontro
com o real nessa atitude.
Quando o homem não
respeita com temor reverencial seu recolhimento próprio e o recolhimento
próprio dos outros seres e se deixa levar pela fantasia desarraigada ele
confunde o logos/razão na sua expressão imaginativa e conceitual com a intuição
da verdade que só pode acontecer na intimidade do nous, do intelecto. Ao fazer
essa confusão cria os dilemas sujeito-objeto, autonomia-heteronomia sem
perceber como uma realidade distinta pode se tornar íntima. A partir disso
desesperadamente busca uma forma de unidade. E, ao invés de atingi-la pelo
êxtase, destrói-se e aos outros seres na objetificação doentia num processo de
vertigem que mescla os âmbitos (destruindo sua unicidade e tratando toda a
realidade como uma matéria quantificada medível e determinável por seu
arbítrio) e os transforma em ídolos.
Quando porém não
busca unidade através da piedade difusiva também sofre alienação do real. Ao
buscar um recolhimento extremo de si o homem realiza parte do processo extático
apenas e encontra ao negar-se a toda fantasia o vazio do seu próprio nous
desligado do real. Nessa confusa experiência de luz e trevas pode identificar-se
erroenamente com o divino e idolatrar seu próprio ego vendo nele uma partícula
do verdadeiro real aprisionada num corpo.
É preciso fugir
dessas duas formas de idolatria pela iconização dos âmbitos de realidade. O
símbolo na sua ambiguidade constitutiva pode ser ídolo ou ícone. Pode ser
patológico conduzindo as emoções e sentimentos para o âmbito do pathos, da
paixão desordenada ou pode ser curativo e comunicativo de bem conduzindo as
emoções e sentimentos para o âmbito do êthos (a configuração de uma segunda
natureza no homem pela livre criatividade humana). Quanto mais espiritual o
sentimento estético mais pode se associar à ética bem compreendida, mais a
experiência da arte na configuração de ícones pode possibilitar a cura e
terapia da alma na configuração do coração espiritual pela vocação pessoal,
pela ética que se torna íntima e fonte de realização.

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