Monday, November 06, 2017

Espírito Vivente, âmbitos de realidade e símbolos como ícones no processo arteterapêutico espiritual

Mais um texto do amigo Lincoln Haas Hein

Espírito Vivente, Âmbitos de realidade e símbolos como ícones no processo arteterapêutico espiritual tendo em vista a vocação pessoal, a individuação.

Tentando unir o pouco que sei de São Tomás, Zubiri, Quintás e Gregório Palamas (um complemento às minhas meditações sobre arteterapia, espiritualidade e canto gregoriano agora que tenho um pouco mais de noção dos conceitos usados pelos padres gregos e pelo personalismo cristão):

Quanto mais algo é, quanto mais algo é ser, mais é bem e mais é capaz de difundir-se comunicando sem com isso perder sua própria substantividade. Quanto mais substancial (ousia) e portanto quanto mais espiritual é um ser mais é âmbito de realidade criador de âmbitos de realidade. Mais é aberto a dialogar criativamente em encontros nos quais recolhe bem e comunica bem realizando-se em religações que manifestam o poder do real.

Sem deixar de ser essência (ousia) o ser como bem se torna energia vivente, espírito vivificante (pneuma) que recolhido em si e mantendo intacta sua essência pode entretanto dar a participar seu espírito como energia (potência ativa que plasma comunicações de si que também são energia).

O Espírito divino como plenitude e fundamento do real é perfeitamente recolhido e difusivo em si mesmo em uma comunicação de três pessoas (hipostasis) que vivem a mesma vida criativa e não necessita das criaturas para realizar o encontro pessoal e o poder do real mas livremente escolhe fundar novos âmbitos que participam dessa sua vida íntima em diversos graus.

Os homens como criaturas espirituais e mais próximas de Deus tem em si o ser pessoal, a capacidade de como espírito vivente comunicar bem e recolher bem criativamente em encontros que manifestam o poder do real mas isso se dá apenas religando-se em diálogo com âmbitos já criados por Deus e/ou com o próprio Deus.

Entretanto, é possível verificar no homem a capacidade de em obras culturais comunicar seu espírito; quando autênticas, as obras de arte que nascem dos encontros com âmbitos de realidade são âmbitos que plasmam em si sensível e meta-sensível, tem algo de vida que se comunica.

Esse dar-se e receber do ser espiritual como bem implica necessariamente a cognição, a troca de luz e espelhamento do real e todo encontro criativo plasma âmbitos manifestando a energia vivificante do ser de tal modo que o ser aberto ao encontro nessa experiência criativa vive o sentimento espiritual. Sentimento que é "Consensio" na "Conscientia", ser que toca o ser na intimidade sem que a distinção desapareça; a beleza se mostra num afeto que é impressão afetiva, síntese entre saber e sabor, entre conhecer e amar, entre bem, verdade, unidade e ser.

O coração espiritual no homem é entendimento luminoso (nous enquanto essência) capaz de encontro com o real nas experiências reversíveis de troca de bem (nous enquanto energia e potência espiritual ao efetivar-se como atenção consciente) mas não pode ser definido, é núcleo pessoal e como tal essência individual que só se mostra como energia participada ao dar de si e recolher em si. Somente nesse dar e recolher em si pelo encontro é possível ao homem plasmar símbolos e manifestar plenamente o "logos", a razão como potência da alma.


"Santa Margarida Maria Alacoque contemplando 
o Sagrado Coração de Jesus" (c.1765), de  Corrado Giaquinto

A partir do núcleo pessoal que é o nous e coração, memória do ser como capacidade para o real, e a partir do logos que manifesta criativamente e pessoalmente a luz recebida no nous é possível a realização do espírito vivente como terceira potência, o amor da vontade como unidade com o bem sem cair na indistinção e "empastelamento" destrutivo dos diversos âmbitos de realidade. É nessa unificação das três potências espirituais (nous, logos, pneuma / memória, razão, vontade / intelecto, raciocínio, querer), sem que percam sua distinção e relação recíproca, que o homem se torna belo por amor à Beleza (filocalia) no sentimento espiritual mais elevado que é chamado por São João da Cruz toque substancial. Há graus e graus de sentimento espiritual desde o menos espiritual que é a simples consciência das paixões (emoções) até a experiência da Chama viva de amor, a experiência da energia vivificante do Espírito Santo movendo todas as coisas.

Spiritus domini replevit orbem terrarum, alleluia. Et hoc quod continet omnia, scientiam habet vocis. alleluia.

Quando o homem se deixa conduzir pela fantasia e pelas paixões sem direcioná-las pela atenção do nous ao real ocorre não o êxtase em direção à unidade com a beleza mas a vertigem que aliena. O nous enquanto energia, enquanto atividade sutil de consciência se afasta do recolhimento, se afasta da sua essência (o coração) neste processo de manipulação egoísta do real pela ignorância e pela vontade escrava do ideal de domínio objetificante (que não percebe a realidade ambital, a possibilidade da troca, o outro ser como sujeito e substância, seja ele pedra, planta, animal, homem, obra cultural, ou outra realidade).

O encontro pessoal, a verdadeira compreensão através tanto da razão quanto da experiência de unidade com o real exige os dois pólos do bem: o pólo do recolhimento e o da difusividade (sístole e diástole do coração). Os dois pólos precisam estar presentes no homem noeticamente, ou seja, através da consciência atenta ao real. Essa atenção noética é verdadeiramente criativa quando unificada ao coração que recolhe as experiências e unificada pelo encontro aos âmbitos de realidade, aos seres que se apresentam comunicando um valor pela beleza. O encontro acontece somente quando os dois pólos simultaneamente interagem na atitude que mescla temor reverencial e piedade. O ser pessoal do homem para formar-se e configurar-se plenamente como ícone do divino precisa do encontro com o real nessa atitude.

Quando o homem não respeita com temor reverencial seu recolhimento próprio e o recolhimento próprio dos outros seres e se deixa levar pela fantasia desarraigada ele confunde o logos/razão na sua expressão imaginativa e conceitual com a intuição da verdade que só pode acontecer na intimidade do nous, do intelecto. Ao fazer essa confusão cria os dilemas sujeito-objeto, autonomia-heteronomia sem perceber como uma realidade distinta pode se tornar íntima. A partir disso desesperadamente busca uma forma de unidade. E, ao invés de atingi-la pelo êxtase, destrói-se e aos outros seres na objetificação doentia num processo de vertigem que mescla os âmbitos (destruindo sua unicidade e tratando toda a realidade como uma matéria quantificada medível e determinável por seu arbítrio) e os transforma em ídolos.

Quando porém não busca unidade através da piedade difusiva também sofre alienação do real. Ao buscar um recolhimento extremo de si o homem realiza parte do processo extático apenas e encontra ao negar-se a toda fantasia o vazio do seu próprio nous desligado do real. Nessa confusa experiência de luz e trevas pode identificar-se erroenamente com o divino e idolatrar seu próprio ego vendo nele uma partícula do verdadeiro real aprisionada num corpo.

É preciso fugir dessas duas formas de idolatria pela iconização dos âmbitos de realidade. O símbolo na sua ambiguidade constitutiva pode ser ídolo ou ícone. Pode ser patológico conduzindo as emoções e sentimentos para o âmbito do pathos, da paixão desordenada ou pode ser curativo e comunicativo de bem conduzindo as emoções e sentimentos para o âmbito do êthos (a configuração de uma segunda natureza no homem pela livre criatividade humana). Quanto mais espiritual o sentimento estético mais pode se associar à ética bem compreendida, mais a experiência da arte na configuração de ícones pode possibilitar a cura e terapia da alma na configuração do coração espiritual pela vocação pessoal, pela ética que se torna íntima e fonte de realização.

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