Tradução de: STEIN, Edith. La
estructura de la persona humana. 3a impressão. Madrid: BAC, 2007, pp.
124-126.
"Espíritos 'puros' finitos
Os que tradicionalmente têm sido
denominados 'espíritos puros' são pessoas finitas. 'Finitas' não no sentido do
fim temporal, senão, por um lado, por não existir desde toda a eternidade,
mas haver sido criadas, e, por outro lado, porque seu ser é limitado: cada uma
dessas pessoas é qualitativamente única, distinta de todas as demais. Estão, portanto, circunscritas a uma determinada substância e ao ser a ela correspondente,
e assim, neste sentido, não superaram por completo a fixação [nota: “limitação”, nos termos
steinianos]. Há pessoas deste tipo ‘mais altas’ e ‘mais baixas’, e o
conhecimento e o amor de umas é distinto do de outras.
Segundo santo Tomás, nelas se dá
oposição de potência e atualidade, mas não a de espírito e matéria. No que se
refere a esta segunda oposição, é preciso admitir decididamente a tese tomista, se
é que por materialidade se entende corporalidade espacial. E se se equiparam
espiritualidade e imaterialidade neste sentido, também a denominação de ‘espíritos
puros’ resulta acertada.
Temos de nos perguntar, entretanto, se
esta noção de matéria não é quiçá demasiado estreita e se ela se desentende de seu
último sentido formal. Neste último sentido formal, com efeito, parece-me que a
matéria não pode faltar na estrutura de nenhum ser criado [nota: é a mesma tese de S. Boaventura]. Para que possa ser finito, tem
de se opor ao divino, isto é, ao infinito e situado mais além de toda
limitação: há de admitir, e inclusive exigir para seu ser, medida e limitação.
A matéria que enche o espaço e é acessível à determinação geométrica já
empresta conteúdo a esta ideia formal de matéria. Aquilo que admite diversos
graus de ser espiritual, a ‘matéria’ que forma parte da estrutura das pessoas
espirituais (na falta de uma denominação melhor, eu a tenho chamado até agora ‘força
espiritual’), é outro tipo de conteúdo dessa ideia. Toda as substâncias finitas
são, por isso, uma unidade de forma e matéria. Desta maneira, só a Deus posso dar
o nome de ‘forma pura’, mas não (diferentemente do que faz santo Tomás) aos
espíritos finitos.
Surge agora a pergunta de se, apesar de
sua fixação ontológica, é própria dos espíritos incorpóreos uma certa superação
da fixação, uma ligeireza e uma mobilidade superiores a sua desvinculação
espacial. Na atualidade pura do Espírito Puro encontramos incluídas todas essas
características. Quais ou quanto delas convém aos espíritos finitos é algo que
poderemos esclarecer tão logo examinemos a relação existente neles entre a
potência e o ato.
Os espíritos puros não têm ‘potências’
no sentido de capacidades a desenvolver: sua existência não reveste a forma de
um processo de desenvolvimento. O que são por natureza, eles o são em ato. Se neles
cabe falar de potencialidade, esta significa a possibilidade da passagem a uma
atualidade mais alta, de um incremento de ser e ao mesmo tempo de um
enriquecimento do que seu espírito abarca. Mas este incremento não se deve a um
desdobramento de sua natureza, senão a uma intervenção sobrenatural: por parte
de Deus ou de espíritos finitos mais altos. Ao ser suscetíveis desse
enriquecimento e incremento de ser, não são imutáveis como Deus. Mas tampouco
são organismos que desdobram no tempo o que são por natureza e nos quais parte
daquilo que são potencialmente não se desdobrará nunca em atos. Seu ser natural
não está submetido a obstáculo algum, nem interior nem exterior, e neste
sentido estão desligados, são ligeiros e se acham em livre movimento espiritual”.
"Serafins, Querubins e Anjos Adoradores"
(1370-71), de Jacopo di Cione

Um comentário:
Maravilhoso o oprofundamento proporcionado por Edith Stein da concepção aristotélico-tomista dos espíritos imateriais por meio da análise fenomenológica da constituição pura do ser humano. Exemplo de pensamento corajoso, tal como é identificado em Edith Stein por São João Paulo II na sua Encíclica Fides et Ratio.
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