27.2.17

São Boaventura e a imagem divina na alma

"[A memória] Retém além disso, como sempiternos e de modo sempiterno, os princípios e os axiomas das ciências [...] reconhecendo-s como inatos [...]
Pela terceira [operação: o reconhecimento dos princípios "inatos"], verifica-se que ela mesma tem presente a si a luz imutável, na qual se lembra das verdades invariáveis" (S. BOAVENTURA, Itinerário da mente para Deus. Introdução, tradução e notas de António Soares Pinheiro, S.J. 3a ed. Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia, 1986, cap. III, 2).

Como diz o tradutor e anotador: "para S. Boaventura, ideias inatas são as que o espírito forma em si mesmo e verifica em si mesmo, no acto de pensar, ao tomar consciência da sua própria realidade" (Ibid., cap. III, nota 3). 

Quando o santo fala da presença da "luz imutável" à memória isto não implica que esta faculdade tenha em e por si mesma esta Luz (que ela seja esta Luz ou viva imersa nela como se de Deus fora "parte"), senão que o reconhecimento dos princípios especulativos não pode se dar senão porque estes são participados por Deus (em termos tomasianos) ou porque Ele ilumina a memória (em termos agostinianos) para que ela veja em si (na alma e não em Deus) tais princípios. O Doutor Seráfico se mantém perfeitamente em consonância com o Doutor da Graça e sua doutrina ortodoxa da "iluminação", não havendo aqui uma formulação "ontologista".

"[...] se não se conhece o que é o ser-por-si, não se pode saber plenamente a definição de qualquer realidade particular [...]
[...] não chega a nossa inteligência a analisar exaurientemente a noção de qualquer dos seres criados, se não é ajudada pela noção do ser puríssimo, actualíssimo, completíssimo e absoluto. E esse é o ser como-tal e eterno, no qual estão na sua pureza as ideias de todos os outros. Realmente, como seria a inteligência capaz de saber que um ser qualquer é defectivo e incompleto, se não tivesse conhecimento nenhum do ser que é isento de toda a deficiência?" (Ibid., cap. III, 3).

Como diz o anotador, "Ser-por-si [...] é evidentemente o que tem em si próprio a razão da sua existência, natureza e absoluta perfeição; em última análise, Deus" (Ibid., cap. III, nota 9). 

Aqui há duas coisas: para conhecer perfeitamente um ente criado precisamos da noção de Ser Puro, que é Deus, e isto pela razão de que todo outro ente finito ou criado foi feito a partir de uma Ideia Eterna. Depois, a constatação da incompletude do ente criado se dá por contraste com "algum" conhecimento do Ser Perfeito. Não está falando o santo da intuição da Essência Divina, mas de duas coisas óbvias: entender perfeitamente um ente criado só é possível à Luz de Deus ou à Luz que é Deus; ver que um ser é imperfeito ou incompleto é ver indiretamente (bastando uma inferência da razão para constatá-lo) que há ou existe o Ser Perfeito. De modo algum há,  aqui, "ontologismo"; se houvesse, também Tomás incorreria no mesmo erro quando diz, na esteira de São João Damasceno, que "temos um conhecimento natural de Deus", a propósito do nosso desejo de felicidade. Que muitos hoje não sejam capazes de fazer a inferência que o Doutor Seráfico fez é um defeito dos contemporâneos e não um indício de que o sábio franciscano exagerasse.

"Nada por conseguinte busca o desejo humano, senão porque ou é o sumo bem, ou se ordena para ele, ou oferece qualquer representação dele. É tão grande a potência do sumo bem, que nada pode ser amado pela criatura, a não ser por desejo dele. Esta engana-se e desencaminha-se, quando em vez da verdade, aceita a [sua] figura e aparência" (Ibid., cap. III, 4).

São Boaventura apenas reitera a ideia clássica de que o homem busca somente o que tem razão de "bem" e, assim, participa diretamente do Bem, que é Deus, ou é meio que nos dirige a Ele, ou aparenta sê-lo ("oferece qualquer representação dele"). O engano e o pecado surgem quando o bem aparente é escolhido no lugar do Verdadeiro. De modo algum o santo está dizendo que todas as nossas escolhas se justificam ou participam efetivamente do verdadeiro e sumo Bem.



"São Boaventura ingressando na Ordem Franciscana" (1628), 
de Francisco de Herrera, o Velho

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