Tuesday, December 06, 2016

C. S. Lewis sobre a Lei Natural

Excertos de LEWIS, C.S. A abolição do homem. Tradução de Remo Mannarino Filho. 2a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012:


"Até bem recentemente, todos os professores, e os homens em geral, acreditavam que o universo tinha uma natureza tal que nossas reações emocionais poderiam tanto ser congruentes como incongruentes em relação a ele -acreditavam, na verdade, que os objetos não são meros receptores, mas podem merecer nossa aprovação ou desaprovação, nossa reverência ou nosso desprezo [...].

Santo Agostinho define a virtude como ordo amoris - a disposição ordenada das afeiçoes, na qual cada objeto corresponde ao grau de amor que lhe é apropriado. Aristóteles diz que o objetivo da educação é fazer com que o aluno goste e desgoste do que é certo gostar e desgostar. Quando a idade do pensamento reflexivo chegar, o aluno assim treinado nas 'afeições ordenadas' ou nos 'justos sentimentos' facilmente encontrará os primeiros princípios da Ética; mas o homem corrupto não poderá enxergá-los e não fará nenhum progresso nessa ciência. Platão, antes dele, já havia dito o mesmo. O animalzinho humano não terá logo de cara as reações certas. Ele deve ser treinado para sentir prazer, agrado, repulsa e ódio em relação às coisas que realmente são prazerosas, agradáveis, repulsivas e odiáveis. Na República, o jovem bem-educado é 'aquele que veria com maior clareza o que há de errado em obras humanas imperfeitas ou em obras incompletas da natureza, e com uma justa aversão censuraria e odiaria o feio mesmo em sua juventude. e elevaria aprazíveis louvores à beleza, recebendo-a em sua alma e sendo nutrido por ela, de modo que se torne um homem de coração gentil. Tudo isso antes que ele alcance a idade da razão; de modo que, quando a Razão por fim lhe chegar, então, com a criação que recebeu, ele abrirá seus braços para lhe dar as boas-vindas e a reconhecerá por causa da afinidade que tem por ela'. No hinduísmo primitivo, a conduta dos homens que podem ser chamados bons consiste na conformidade à -ou quase na participação na- Rta, o grande rito ou modelo do natural e do sobrenatural que se revela do mesmo modo na ordem do cosmos, nas virtudes morais e nas cerimônias do templo. A retidão, a correção, a ordem, a Rta são constantemente identificadas com satya ou a verdade, correspondência com a realidade. [...]

Os chineses também falam de um grande ente (o maior dos entes) chamado Tao. [...] Ele é a Via pela qual o universo prossegue [...] É também a Via que todos os homens deveriam trilhar [...] Os antigos judeus igualmente louvavam a Lei como 'verdadeira'.

[...] É a doutrina do valor objetivo, a convicção de que certas posturas são realmente verdadeiras, e outras realmente falsas, a respeito do que é o universo e do que somos nós. Aqueles que conhecem o Tao podem afirmar que chamar uma criança de graciosa e um ancião de venerável não é simplesmente registrar um fato psicológico sobre nossas momentâneas emoções paternas ou filiais, mas reconhecer uma qualidade que exige de nós uma certa resposta, quer a demos, quer não. De minha parte, não aprecio a companhia de crianças pequenas, mas, uma vez que falo de dentro do Tao, reconheço nisso um defeito meu -da mesma forma como um homem pode reconhecer-se daltônico ou desprovido de ouvido musical. E, uma vez que nossas aprovações e desaprovações são assim reconhecimentos do valor objetivo ou respostas a uma ordem objetiva, os estados emocionais podem portanto estar em harmonia com a razão (quando sentimos afeição por aquilo que merece aprovação) ou em desarmonia com ela (quando percebemos que a afeição é merecida mas não conseguimos senti-la). Nenhuma emoção é, em si mesma, um julgamento; nesse sentido, todas as emoções e sentimentos são alógicos. Mas eles podem ser razoáveis ou irrazoáveis na medida em que se conformam à Razão ou não conseguem conformar-se. O coração nunca toma o lugar da cabeça, mas ele pode, e deve, obedecer-lhe" (pp. 13-18)

[...] Isso a que tenho chamado por conveniência de Tao, e que outros poderiam chamar Lei Natural, Moral Tradicional, Primeiros Princípios da Razão Prática ou Primeiros Lugares-comuns, não é um entre uma série de sistemas de valores possíveis. É a única fonte possível de todos os juízos de valor. Casa seja rejeitado, todos os valores serão também rejeitados. Se qualquer valor for preservado, também ele será preservado. [...] Tudo aquilo que pretende ser um novo sistema ou (como se diz agora) uma 'ideologia' consiste em fragmentos do próprio Tao, arbitrariamente arrancados de seu contexto e então hipertrofiados até a loucura em seu isolamento, mas devendo ainda ao Tao, e somente a ele, a validade que possuem. Se o meu dever para com meus pais não passa de superstição, então o mesmo vale para meus deveres em relação à posteridade. Se a justiça é uma superstição, então também o é o meu dever para com o meu país ou para com a minha raça. Se a busca do conhecimento científico é um valor verdadeiro, então também o é a fidelidade conjugal. A rebeldia das novas ideologias contra o Tao é a rebeldia dos galhos contra a árvore: se os rebeldes pudessem vencer, descobririam que destruíam a si próprios. A capacidade da mente humana para inventar novos valores não é maior do que a de imaginar uma nova cor primária, ou, na verdade, a de criar um novo sol e um novo céu no qual ele se mova.

[...] o Tao comporta um desenvolvimento que vem de dentro. Existe uma diferença entre um autêntico avanço moral e uma simples inovação. Existe um avanço autêntico da máxima confuciana 'Não faças com os outros o que não gostarias que fizessem contigo' para a cristã 'Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam'. Já a moral de Nietzsche é um exemplo de simples inovação. O primeiro caso é um avanço porque ninguém que não reconhecesse a validade da antiga máxima poderia ver uma razão para aceitar a mais recente, e qualquer um que aceitasse a antiga iria imediatamente reconhecer a mais recente como sendo uma ampliação do mesmo princípio. [...] Mas a ética nitzschiana só poderia ser aceita se estivéssemos dispostos a descartar a moral tradicional como um simples erro, se nos puséssemos em uma posição de onde não pudéssemos encontrar nenhum fundamento para os juízos de valor. Essa é a diferença entre um homem que nos diz: 'Já que você gosta de comer legumes frescos, por que não os planta no quintal para comê-los ainda mais frescos?' e um que nos diz: 'Jogue fora esse pedaço de pão e experimente comer tijolos ou centopeias em vez disso" (pp. 42-45). 



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