Sempre esteve presente, nas HQ dos principais super-heróis da DC ou da Marvel, que têm sido levados ao cinema, o problema trágico, freudiano, da "morte do pai": o Superman, cujos pais morrem e que é um alienígena, o Batman cujos pais são assassinados (o mesmo se passando com seu pupilo Robin), o Homem-Aranha, órfão e que ademais perde o tio, o Capitão América, desarraigado de seu tempo.
Trata-se, também, da questão do existencialismo contemporâneo, de estar "arrojado no mundo", e de ter de "se virar", enfrentar as dificuldades afirmando nietzscheanamente a própria potência; não por acaso, o principal e mais poderoso super-herói dos quadrinhos chama-se Super-Homem.
Trata-se, ainda, do homem que, perdido de Deus (o "Pai") e da tradição (o "mundo"), quer salvar os demais, porém carrega uma culpa e um fardo: "por que só eu sobrevivi à destruição do meu planeta?", "meus pais morreram porque me levaram ao teatro", "meu tio morreu porque eu fui omisso", "meu tempo e meus companheiros ficaram para trás".
A culpa é abafada com as realizações heroicas, com a assunção da responsabilidade pela "salvação" dos demais (da mesma forma que o homem moderno se desentende de seus problemas pessoais no ativismo voluntarista). "Grandes poderes trazem grandes responsabilidades", diz o famoso adágio do Aracnídeo (que tem uma participação simpática em "Guerra Civil")*.
Mas quais os limites do uso do "poder"? O herói responde ante alguém ou algo? Pode "curar" sem estar "curado"?
Esta questão aparece no início do novo filme do Capitão América: o rastro de destruição deixado pelos Vingadores no seu combate contra Ultron (cf. "Vingadores 2: A era de Ultron"), bem como a morte acidental de inocentes causada pela Feiticeira Escarlate no início do novo filme, levam o Estado norte-americano a exigir o registro dos heróis -este tema da HQ "Guerra Civil" (que eu não li), levada ao cinema, apareceu primeiramente em "Watchmen" ("quem vigia os vigilantes?") e foi explorado também no excelente desenho animado "Os Incríveis".
De certo modo, este é um retrato do mundo moderno: se não há um paradigma religioso para a ação moral ("Deus, o Pai, está morto"), é o Estado que virá suprir esta necessidade, estabelecendo seus limites ou condições.
Tony Stark se submete. Steve Rogers, não. O primeiro, magnata cientista e herói tecnológico, que virou o Homem-de-Ferro para salvar a própria pele; o segundo, alma verdadeiramente heroica -deixemos de lado o problema de se seu idealismo representa autenticamente a práxis política norte-americana-, cujo poder é um dom que excede suas capacidades física e intelectual, mas que expressa sua magnanimidade, seu desejo de dar a vida por outrem.
Rogers é de "uma outra época": de algum modo, ele sabe que o que é "certo" não depende da vontade do Estado; se ele participou como soldado na 2a Guerra, foi porque era justo combater o Eixo, ele não foi obrigado.
A partir daí, se desenvolve uma "guerra" entre os heróis, entre os "irmãos", numa trama em que o "assassinato do pai" é o pano de fundo, a condição para o conflito: o Barão Zemo mata o pai do Pantera Negra, incriminando Buck, o amigo do Capitão e agora Soldado Invernal; este, por sua vez, revela-se como o carrasco (agindo involuntariamente) dos pais do Homem-de-Ferro; o qual, por seu turno, matou acidentalmente a família de Zemo. O vilão percebe que os heróis, apesar de todo seu poder, podem ser derrotados se se tornarem inimigos e lutarem entre si. Semeia a discórdia, como o Maligno.
O herdeiro de Wakanda e o Supersoldado, entretanto, interrompem a corrente de ódio: o primeiro perdoa o verdadeiro assassino de seu pai e impede seu suicídio; o segundo, contém sua raiva quando está prestes a matar o amigo Stark, que feriu gravemente o principal amigo, Buck.
A lição que fica é contrária a de Totem e Tabu (Freud): a perda do pai não gera comunhão, mas conflito. Todos são de alguma forma culpados, mas não é uma culpa coletiva e impessoal que, por esta mesma razão, possa ser apaziguada pelos cúmplices; e tampouco cada um vê, inicialmente, o outro como um irmão que caiu no mesmo erro e que, portanto, merece perdão; um vê o outro como assassino, não há solução totêmica nem contrato social (Hobbes) que traga uma verdadeira cura ou salvação.
A solução é ver no rosto do outro o rosto de um irmão, isto é, é lembrar-se, de alguma forma, do pai. Levinas nos diz que o "rosto" do outro é um apelo ao "não matarás". Este é o limite do poder: o amor. O amor verdadeiro, que remete à herança comum: o "poder" não é meu, é um "dom" para o outro, não existe para a minha própria afirmação, mas para que o outro viva e descubra a possibilidade de arrepender-se junto comigo e de voltar à comunhão fraterna, isto é, participar novamente da vida do Pai.
Como se vê isso? O Pantera e o Capitão, que tinham uma relação autenticamente amorosa com o pai, a "pátria" ou o amigo, podem cair em si, e reconhecer o outro. Stark, ainda que não tivesse profundo amor pelos pais, não tem ódio no coração: na realidade, ele vive na superfície de seu ser, mas matou acidentalmente em Sokovia, e não é verdadeiramente um indiferente, como mostra sua preocupação pelo amigo James Rhodes (Máquina de Combate); até por isso, a Providência o impede de matar o Capitão e de ser morto por ele.
O Barão Zemo é um caso à parte. Mas antes de falar dele, gostaria de comentar sobre a atitude de Visão no filme. O androide, que é uma inteligência artificial, meramente lógica e não espiritual, "desculpa" a Feiticeira facilmente porque é incapaz de enxergar a realidade moral, porque seu horizonte é o materialismo determinista (o medo é meramente "uma ocorrência fisiológica"), como ocorre com o cientista ateu, quer seja da natureza, quer seja da sociedade; ele não tem uma "visão superior" ou imparcial das coisas, pelo contrário!
Já Zemo, o homem que montou o enleio, é alguém que faz da sua dor uma razão para matar e espalhar o caos: ele é o único que matou propositalmente e por vingança (curiosamente, a ele se aplica melhor o epíteto de "Vingador"), e que se auto-justifica em sua insanidade. É verdadeiramente uma imagem do Demônio, que não aproveitará a oportunidade dada pelo Pantera, e que nos permite compreender o caráter irremissível da culpa satânica.
* * *
* Curiosamente, há uma referência, do Homem-Aranha, ao (excepcional) filme "Império Contra-Ataca", da série "Star Wars", em que o problema de fundo também é a relação entre pai (Darth Vader) e filho (Luke Skywalker), sobre a qual gostaria de falar em outra ocasião.
De certo modo, este é um retrato do mundo moderno: se não há um paradigma religioso para a ação moral ("Deus, o Pai, está morto"), é o Estado que virá suprir esta necessidade, estabelecendo seus limites ou condições.
Tony Stark se submete. Steve Rogers, não. O primeiro, magnata cientista e herói tecnológico, que virou o Homem-de-Ferro para salvar a própria pele; o segundo, alma verdadeiramente heroica -deixemos de lado o problema de se seu idealismo representa autenticamente a práxis política norte-americana-, cujo poder é um dom que excede suas capacidades física e intelectual, mas que expressa sua magnanimidade, seu desejo de dar a vida por outrem.
Rogers é de "uma outra época": de algum modo, ele sabe que o que é "certo" não depende da vontade do Estado; se ele participou como soldado na 2a Guerra, foi porque era justo combater o Eixo, ele não foi obrigado.
A partir daí, se desenvolve uma "guerra" entre os heróis, entre os "irmãos", numa trama em que o "assassinato do pai" é o pano de fundo, a condição para o conflito: o Barão Zemo mata o pai do Pantera Negra, incriminando Buck, o amigo do Capitão e agora Soldado Invernal; este, por sua vez, revela-se como o carrasco (agindo involuntariamente) dos pais do Homem-de-Ferro; o qual, por seu turno, matou acidentalmente a família de Zemo. O vilão percebe que os heróis, apesar de todo seu poder, podem ser derrotados se se tornarem inimigos e lutarem entre si. Semeia a discórdia, como o Maligno.
O herdeiro de Wakanda e o Supersoldado, entretanto, interrompem a corrente de ódio: o primeiro perdoa o verdadeiro assassino de seu pai e impede seu suicídio; o segundo, contém sua raiva quando está prestes a matar o amigo Stark, que feriu gravemente o principal amigo, Buck.
A lição que fica é contrária a de Totem e Tabu (Freud): a perda do pai não gera comunhão, mas conflito. Todos são de alguma forma culpados, mas não é uma culpa coletiva e impessoal que, por esta mesma razão, possa ser apaziguada pelos cúmplices; e tampouco cada um vê, inicialmente, o outro como um irmão que caiu no mesmo erro e que, portanto, merece perdão; um vê o outro como assassino, não há solução totêmica nem contrato social (Hobbes) que traga uma verdadeira cura ou salvação.
A solução é ver no rosto do outro o rosto de um irmão, isto é, é lembrar-se, de alguma forma, do pai. Levinas nos diz que o "rosto" do outro é um apelo ao "não matarás". Este é o limite do poder: o amor. O amor verdadeiro, que remete à herança comum: o "poder" não é meu, é um "dom" para o outro, não existe para a minha própria afirmação, mas para que o outro viva e descubra a possibilidade de arrepender-se junto comigo e de voltar à comunhão fraterna, isto é, participar novamente da vida do Pai.
Como se vê isso? O Pantera e o Capitão, que tinham uma relação autenticamente amorosa com o pai, a "pátria" ou o amigo, podem cair em si, e reconhecer o outro. Stark, ainda que não tivesse profundo amor pelos pais, não tem ódio no coração: na realidade, ele vive na superfície de seu ser, mas matou acidentalmente em Sokovia, e não é verdadeiramente um indiferente, como mostra sua preocupação pelo amigo James Rhodes (Máquina de Combate); até por isso, a Providência o impede de matar o Capitão e de ser morto por ele.
O Barão Zemo é um caso à parte. Mas antes de falar dele, gostaria de comentar sobre a atitude de Visão no filme. O androide, que é uma inteligência artificial, meramente lógica e não espiritual, "desculpa" a Feiticeira facilmente porque é incapaz de enxergar a realidade moral, porque seu horizonte é o materialismo determinista (o medo é meramente "uma ocorrência fisiológica"), como ocorre com o cientista ateu, quer seja da natureza, quer seja da sociedade; ele não tem uma "visão superior" ou imparcial das coisas, pelo contrário!
Já Zemo, o homem que montou o enleio, é alguém que faz da sua dor uma razão para matar e espalhar o caos: ele é o único que matou propositalmente e por vingança (curiosamente, a ele se aplica melhor o epíteto de "Vingador"), e que se auto-justifica em sua insanidade. É verdadeiramente uma imagem do Demônio, que não aproveitará a oportunidade dada pelo Pantera, e que nos permite compreender o caráter irremissível da culpa satânica.
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* Curiosamente, há uma referência, do Homem-Aranha, ao (excepcional) filme "Império Contra-Ataca", da série "Star Wars", em que o problema de fundo também é a relação entre pai (Darth Vader) e filho (Luke Skywalker), sobre a qual gostaria de falar em outra ocasião.

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