8.7.20

Sobre a Divinização na Teologia Oriental - Parte 2


Segunda parte da minha tradução do Capítulo V (O Dom do Espírito e a divinização) de: LUIS LORDA, Juan. La Gracia de Dios. Madrid: Palabra, 2005, pp. 99-121.

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3. A DOUTRINA DE GREGORIO PALAMAS

A distinção entre essência e energias

Gregorio Palamas defende, com toda a tradição grega, que o homem foi divinizado até chegar a ser “partícipe da natureza divina” (2Pe 1, 4). Mas, ao mesmo tempo, quer respeitar a tradição que diz que a essência divina em si mesma é inalcançável. Então desenvolve um princípio que encontra em Máximo o Confessor: “Deus pode ser participado no que se comunica, mas não pode ser participado em sua essência incomunicável”. E distingue entre a essência incomunicável e as “energias incriadas”, que, a modo de raios divinos, saem de Deus e chegam à criatura divinizando-a. Segundo isto, entende a graça como a energia divina que ilumina e introduz na contemplação beatificante e permite participar da glória divina.

“Posto que se pode participar de Deus e posto que a essência sobreessencial de Deus é absolutamente imparticipável, há algo entre a essência imparticipável e os participantes que lhes permite participar de Deus (...). É necessário buscar que Deus seja participável de um modo ou outro para que, participando assim, cada um receba de maneira adequada e por analogia da participação, o ser, a vida e a deificação” (Triadas, III, 2, par. 24). Se aos participantes se lhes transmitisse a plenitude da essência divina, seriam outros deuses. Tem que haver alguma diferença entre como é a essência divina em si mesma e como se dá aos homens que participam nela. Segundo Gregório Palamas, essas energias em Deus são o mesmo que a essência (como os raios em sua origem são o mesmo que o sol), mas, enquanto iluminam e divinizam a criatura, distinguem-se realmente da essência.

As “energias” divinas são, literalmente, os “atos” externos (ad extra) de Deus. É o modo de chamar às diversas ações livres de Deus: por um lado, a criação, que origina o ser e a vida; por outro, a graça que diviniza e glorifica. As ações saem da essência divina e, em sua origem, são incriadas e se identificam com ela; mas se distinguem da essência divina e entre si enquanto produzem efeitos externos e distintos. São frequentemente representadas como “raios” que procedem da essência divina. Desta forma, Palamas crê resolver a primeira dificuldade. Na contemplação não se alcança a essência mesma de Deus, senão essa essência enquanto se nos dá a participar, as energias. À energia divina que nos diviniza se lhe pode chamar graça, glória ou, como veremos em seguida, iluminação.

“A iluminação e a graça divina e deificante não é a essência senão a energia de Deus” (Capita physica, 68 e 69); “A graça é, pois, incriada e é dada pelo Filho, enviada e concedida a seus discípulos. Não é o próprio Espírito, senão um dom divinizador, energia não só incriada, senão inseparável do santíssimo Espírito” (Triadas, III, 8). Comenta V. Lossky: “Pela vinda do Espírito Santo, a Trindade habita em nós e nos deifica, nos confere suas energias incriadas, sua glória, sua divindade, que é a luz eterna na que devemos participar” (Teologia mística, p. 127). As energias, que se referem ao operar ad extra, distinguem-se das processões que são o operar ad intra, e constituem a essência mesma de Deus necessária e eterna. As expressões de Palamas podem suscitar alguma confusão, porque as chama “incriadas” e porque fala de uma nova “distinção” (diáfora) na Trindade entre essência e energias. Tropeçamos com a falta de propriedade de toda linguagem para falar de Deus. As energias são incriadas no sentido em que tudo o que há em Deus é incriado (a criação é, evidentemente, criada, mas o ato pelo que Deus a cria, não). Quanto à “distinção”, há que assinalar que propriamente não é “para dentro” da própria essência, senão antes “para fora”, quanto aos efeitos que produz.

A doutrina da distinção ou diversidade (diáfora) entre Essência e Energias divinas, em Deus, suscitou oposição no seio da teologia bizantina. Mas, em sucessivos sínodos de Constantinopla, foi aceita como doutrina praticamente oficial (ss. XIV e XV). Perdeu importância com o translado do centro da Ortodoxia para a Rússia. Mas foi retomada no século XX como doutrina central e característica da teologia ortodoxa.

Há que se reconhecer que não faltam em Palamas expressões infelizes e que suscitam perplexidade, porque, às vezes, expressa as distinções de uma maneira demasiado “física”. Ademais de Barlaam de Calabria, opuseram-se às teses de Gregorio Palamas os teólogos bizantinos Gregorio Akyndinos (1300-1348) e Nicéforo Gregoras (1292-1361), que tinham certa formação tomista, mas eram fortemente antilatinos. Os Sínodos de Constantinopla dos anos 1341, 1347 e 1351 assumira, em termos cada vez mais claros, a doutrina de Gregório Palamas como expressão correta e inclusive regra da fé e condenaram as posições contrárias. Junto à questão do Filioque, esta doutrina foi usada para caracterizar a Ortodoxia frente ao Ocidente cristão. Este uso polêmico provocou que a teologia ocidental a mirasse com receio. As obras de Palamas foram publicadas no Migne (PG 51, 151), com uma advertência sobre sua possível heterodoxia. No Oriente cristão, a doutrina palamita perdeu importância quando o centro da Ortodoxia se deslocou desde Constantinopla a Moscou, por motiva da dominação otomana. Quase esquecida depois, foi retirada no século XVIII do ensinamento oficial da Igreja russa.

Paradoxalmente, o artigo que dedicou a Palamas, Martin Jugie no Diccionnaire de Théologie Catholique 11 (1932) 1735-1818, bem documentado, mas inspirado por um espírito de controvérsia, provocou, por reação, a defesa de Palamas entre os teólogos ortodoxos russos emigrados a Paris depois da Revolução russa de 1917. Estes destacaram a importância da distinção para a identidade da tradição ortodoxa e reformularam seu pensamento, evitando as expressões menos felizes. No primeiro congresso de Teologia Ortodoxa (Atenas 1936), G. Florovsky defendeu a volta a Palamas. Em paris, Vladimir Lossky preparou uma síntese renovada do sistema espiritual e teológico palamita em Teologia mística da Igreja do Oriente (1944); depois, seu discípulo Jean (John) Meyendorff que, com sua tese Introdução a l’étude de Grégoire Palamas (1959), fixou o modo moderno de entender a distinção de Palamas, acentuando o aspecto espiritual e existencial da doutrina. Com Meyendorff, a escola passou aos Estados unidos, ao Saint Vladimir Seminar. E hoje está presente em todos os territórios da Ortodoxia e nos teólogos ortodoxos mais significativos (por exemplo, o romeno D. Staniloe, autor de uma conhecida dogmática). O fato de assumi-la como doutrina distintiva complicou um pouco as coisas.

A luz tabórica

Toda oração verdadeira tem algo de mística, alcança em algum grau a contemplação de Deus. Isto não é fruto de nosso esforço, senão que Deus o dá, é graça de Deus. Segundo Palamas, o que contemplam os santos é a energia divina da iluminação que vem de Deus. Palamas faz sua distinção com ânimo de fundamentar a tradição hesicasta sobre a contemplação, a realidade da iluminação como divinização.

Para não nos perdermos com as imagens ou as expressões desacostumadas há que se ter sempre presente que, quando Palamas fala de luz, refere-se ao que nós entendemos por iluminação. Só que em Palamas abarca tudo, e tem uma manifestação física até chegar à transformação do corpo glorioso. Ao nascer o Batista, exclamou seu pai Zacarias: “Pelas entranhas de misericórdia de nosso Deus, nos visitará o sol que nasce do alto, para iluminar aos que jazem nas trevas e sombras da morte, e para endereçar nossos passos pelo caminho da paz” (Lc 1, 78-79).

O modelo de homem divinizado é Jesus Cristo, que contemplamos glorioso depois de sua ressurreição, e na cena da Transfiguração, no Tabor. Na luz que brilha em Cristo Glorioso, a tradição ortodoxa vê o reflexo de sua divindade. Os apóstolos contemplaram a glória de Deus, pela transformação do corpo de Cristo. Mas também o viram graças a uma iluminação em seu entendimento, porque não se tratava só de uma luz física. Os bizantinos identificam essa luz com a glória (ou a graça) de Deus; é uma energia divina que procede da essência divina; também a chamam “luz tabórica”, para recordar a glória do Tabor. Também se manifestou nas teofanias do Sinai (cf. Ex 19, 16-18; 24, 15-18).

O Oriente cristão tem uma devoção imensa à festa da Transfiguração. Ali vê refletida não só a glória de Cristo, senão também a promessa de nossa salvação. Citando uma passagem da homilia de São João Damasceno sobre a transfiguração “a glória da Divindade se faz glória do corpo” (n. 12), diz Palamas: “Esta luz misteriosa, inacessível, imaterial, incriada, deificante, eterna; este brilho da natureza divina, esta glória da Divindade, esta beleza do Reino celestial é acessível aos sentidos, ao mesmo tempo que os supera” (Triadas, III, 1, 22). Explica V. Lossky: “No momento da encarnação, a luz divina se concentrou, por dizê-lo assim, em Cristo, Deus-Homem, em quem habitava corporalmente a plenitude da divindade. Isto quer dizer que a humanidade de Cristo estava deificada pela união hipostática com a natureza divina (...), mas se produziu uma mudança na consciência dos apóstolos, que receberam por algum tempo a faculdade de ver o Mestre tal como era, resplandecente da luz eterna de sua divindade” (XI, pp. 165-166); “Para ver a luz divina com os olhos corporais como a viram os discípulos no monte Tabor, há que participar de dita luz, ser transformado por ela em maior ou menor medida. A experiência mística supõe, pois, uma mudança de nossa natureza, sua transformação pela graça” (XI, p. 166). A Liturgia das Horas católica recolhe uma homilia de Anastásio Sinaíta (+ ca. 700) na festa da Transfiguração do Senhor (6 de agosto): “com quem brilharemos com nossa mirada espiritualizada, renovados de certo modo os traços de nossa alma, feitos conforme a sua imagem e, como ele, transfigurados e feitos partícipes da natureza divina”. Ademais, ver Catecismo da Igreja Católica 554-555.

Essa luz incriada (a graça ou a glória) explica a experiência dos místicos que, quando chegam ao terceiro grau (união), estão seguros de ser iluminados e contemplar de algum modo a Trindade. Os autores ortodoxos insistem em que é uma iluminação espiritual, que procede diretamente da essência divina. Essa luz vence a obscuridade do pecado, restaura a união com Deus e diviniza o homem. Ao explica-lo têm muito em conta a teologia da luz nos escritos de São João; e este salmo: “pois em ti está a fonte da vida e em tua luz veremos a luz” (Sl 36(35) 10), de que também gosta Santo Agostinho.

Diz V. Lossky: “Na medida em que Deus se manifesta, se comunica e pode ser conhecido, é luz. Se Deus é chamado Luz, não é tão só por analogia com a luz material. A luz divina não tem um sentido alegórico e abstrato: é um elemento da experiência mística (...). A visão perfeita da divindade feita perceptível em sua luz incriada (...) pertence ao século futuro.  Entretanto, os que são dignos dela, conseguem ver (...) desde esta vida, como o viram os três apóstolos no monte Tabor” (XI, p. 163); “Enquanto luz – princípio de manifestação –, a graça não pode permanecer imperceptível em nós. Se nossa natureza está em estado de saúde espiritual não podemos não sentir a Deus. A insensibilidade na vida interior é um estado anormal  (...). Uma pessoa que entra em união cada vez mais estreita com Deus não pode permanecer fora da luza. Se se encontra submergida nas trevas é que sua natureza está obscurecida por algum pecado ou, bem, que Deus o prova para aumentar seu fervor” (XI, 167). O pecado nos afasta de Deus e nos torna insensíveis para captá-lo; assim ocorreu com o pecado original.

Essa luz (graça ou glória) é incriada, procede de Deus e a dá o Espírito Santo para divinizar o homem. Os santos a têm interiormente quando alcançam a contemplação. Essa luz divina, que é a graça do Espírito Santo, combate a obscuridade do homem e impulsiona constantemente à conversão. E também pode se manifestar externamente, como antecipação do corpo glorificado. É o fundamento da iconografia do halo (ou o reflexo de glória) dos santos. Far-se-á plena na ressureição final, quando brilhe também externamente e se tornem gloriosos os corpos dos santos.

Como assinala G. Matzaridis: “A luz incriada, de acordo com o ensinamento de Palamas e, em geral, dos hesicastas, é o dom divinizante do Espírito Santo” (The deification, p. 99); “Pela recepção da graça deificante do Espírito, o intelecto humano é deificado e comunica esta graça ao corpo, de tal forma que todo o homem toma parte no dom deificante” (The deification, p. 103). Isto tem um efeito corporal, como sucede com o halo dos santos, a incorruptibilidade de seus corpos; e a fragrância – o bom odor de Cristo – que muitos deixaram ao morrer. Diz J. Meyendorff: “Desde Macário do Egito até Serafim de Sarov, os místicos do Oriente cristão afirmaram que a comunhão com Deus abarca o composto humano inteiro, e que a luz divina brilha, às vezes, no próprio corpo do homem divinizado, e que esta luz é uma antecipação da ressurreição final” (St. Grégoire Palamas et la mystique ortodoxe, Seuil, Paris 1959, 76).

Segue V. Lossky, glosando a S. Simeão o teólogo: “A luz divina se converte no princípio de nossa consciência: nela conhecemos a Deus e nos conhecemos a nós mesmos. Ela perscruta as profundidades do ser que acede á união com Deus, torna-se para ele o juízo de Deus antes do juízo final. (...). A consciência plena na luz divina se realizará em todos quando a segunda vinda de Cristo (...) A própria ressurreição será uma manifestação do estado interior dos seres, pois os corpos deixarão transparecer os segredos das almas (...). Então, tudo quanto a alma havia amassado em seu tesouro interior aparecerá no exterior, no corpo. Tudo se fará luz, tudo estará penetrado de luz incriada. Os corpos dos santos se tornarão semelhantes ao corpo glorioso do Senhor, tal como apareceu aos apóstolos no dia da Transfiguração” (XI, 173-174). A iconografia católica costuma representar os santos com um halo dourado, que expressa sua iluminação (interna e externa); e ao Senhor (menino ou na cruz) com uns raios especiais, que chama “potências”, que querem expressar o fulgor de sua divindade.

A iluminação na tradição católica

A teologia ocidental fica um pouco perdida com o “realismo” das expressões bizantinas. Mas há que se entender bem: a luz tabórica (energia divina) não é a luz física nem tampouco a luz natural da inteligência. É a iluminação de Deus que ilumina diretamente o entendimento, renova o coração e chega a produzir efeitos físicos no corpo humano. Ao contemplar a Deus diretamente, o homem se enche de glória, se diviniza: “em tua luz veremos a luz” (Sl 36 (35) 10). A teologia ocidental fala em termos semelhantes da luz da glória (lumen gloriae, DzS 895), quando pensa na visão beatífica, ainda que esta expressão não tem na teologia ocidental a relevância antropológica e espiritual da “luz tabórica” na teologia oriental. Essa luz da glória, estritamente falando, é a ação de Deus sobre o entendimento humano que lhe permite contemplá-lo. Com a imagem privilegiada e tão formosa da luz se expressa a glória de Deus e a divinização do homem.

Os mal-entendidos que causam os termos lidos em contextos diferentes fazem que as teologias se ponham objeções mútuas que são quase exatamente as mesmas. A teologia ocidental, às vezes, queixou-se de que contemplar a essência através das energias divinas é, na realidade, contemplar a Deus em um “meio”. Mas os teólogos ortodoxos insistem uma e outra vez que as energias não são nada intermédio, senão a própria essência divina enquanto se dá a participar. Por sua parte, com o mesmo argumento, a teologia oriental descartou o ‘lumen gloriae’. Mas a teologia ocidental insiste em que não é algo criado, senão a elevação que Deus causa no entendimento humano para que possa conhece-lo. Deus mesmo se deixa contemplar, mediante essa iluminação. Para os orientais, a essência de Deus sempre permanece mais além, e o que se contempla são as energias (o que se pode contemplar da essência). Os ocidentais dizem que, na visão beatífica, contempla-se a essência, mas não totalmente: tota sed non totaliter. Parecem variantes de vocabulário sobre intuições comuns.

“Lux aeterna luceat eis”: “que a luz eterna brilhe para eles”, pede a liturgia católica para os fiéis defuntos; “Por causa de sua transcendência, Deus não pode ser visto tal qual é mais que quando ele mesmo abre seu Mistério à contemplação imediata do homem e lhe dá a capacidade para isso. Esta contemplação de Deus em sua glória é chamada pela Igreja ‘a visão Beatífica’” (Catecismo da Igreja Católica 1028; cf. 1722). Diz o Catecismo Romano: “O único modo de conhecer a essência (substantia) divina é que ela mesma se uma a nós e de um modo incrível arraste nossa inteligência e assim sejamos capazes de contemplar a formosura de sua natureza” (XIII, 8); “Alcançaremos a luz da glória quando, iluminados por seu esplendor, vejamos a Deus, luz verdadeira, em sua mesma luz, pois os bem-aventurados sempre intuem a Deus presente, e com esse dom, melhor e maior que nenhum outro, são feitos partícipes da essência divina e gozam de uma verdadeira e estável felicidade” (XIII, 9); Santo Tomás de Aquino, seguindo a Santo Agostinho, pensa que essa luz se fará visível fisicamente “pelo brilho da caridade divina nos corpos renovados” (S. Th. I, q. 12, a. 3, ad 2).

A contemplação será plena no céu, e nos divinizará, mas a inabitação é uma certa antecipação da glória (cf. Mystici Corporis, 31). Em distinta medida, o conhecimento da fé e a contemplação mística (a união com Deus na oração) são uma certa antecipação da visão beatífica. Isto o sustenta a tradição ocidental, em acordo com a tradição oriental sobre a divinização.

Diz o Catecismo Romano: “O próprio Deus que disse que das trevas brilhasse a luz, a acendeu em nossos corações para que o Evangelho não nos ficasse encoberto” (II, 2). Segue o novo Catecismo: “A fé nos faz provar de antemão o gozo e a luz da visão beatífica, fim de nosso caminhar aqui abaixo. Então veremos a Deus ‘face a face’ (1Cor 13, 12), ‘tal qual é’ (1Jo 3, 2). “A fé é, pois, já o começo da vida eterna” (Catecismo da Igreja Católica 163). Ainda que haja uma diferença: “então poderemos ver o que agora cremos. Também agora está em nós e nós nEle; mas agora o cremos, então o conheceremos (...), caminhamos na fé e não na visão; mas então o veremos diretamente tal qual é” (In Johan. 75, 4). Na mística, intensifica-se o conhecimento experimental. Diz Santa Edith Stein, comentando São João da Cruz sobre a “transformação da alma” (Chama, 3, 1): “A luz destes divinos resplendores não é como a luz das lâmpadas materiais. Estas alumiam com suas chamas os objetos que estão em torno e fora delas; aquelas, em contrapartida, alumiam e fazem ver o que está dentro das próprias chamas. E a alma, que se acha precisamente metida dentro daquele incêndio de luz, fica transformada e feita resplendores” (Ciência da Cruz, II, 3, A, b). O próprio São João da Cruz conclui sua Chama com estas palavras: “Sendo essa aspiração cheia de bens e glória, por ela o Espírito Santo encheu a alma de bens e glória, e nisto a enamorou de si mesmo, além de tora expressão e sentimento, nas profundezas de Deus”. Aproximando-se de Deus, parece que não pode dizer nada mais, chega ao silêncio.

4. CONSIDERAÇÕES SOBRE O PALAMISMO

A Igreja católica não fez nenhuma observação direta sobre a doutrina palamita acerca da contemplação e a distinção entre essência e energias, pelo que se pode considerar como uma doutrina teológica que se pode defender. O Concílio de Florença, em seu Decreto para os Armênios (a. 1442), destacou o princípio: “Estas três Pessoas são um só Deus (...) e tudo é uno onde não obsta a oposição de relação”. Isto quer dizer que tudo é comum às três Pessoas e também destaca a unidade da essência divina. À teologia ocidental lhe pareceu, às vezes, que a distinção entre essência e energias comprometia a unidade da essência. Mas isto não é assim, porque a teologia oriental assume plenamente a unidade da essência divina, ainda que se possam encontrar expressões de Palamas pouco felizes e imprecisdas. Sua distinção não se dá propriamente na essência divina, senão em sua manifestação. Na realidade, as energias são a mesma essência divina enquanto se manifesta em suas obras.

A teologia ocidental foi, às vezes, muito polêmica (Jugie), mas, com o crescimento dos estudos ecumênicos, os juízos foram matizados. Não tem muito sentido, por exemplo, sugerir que as expressões de Palamas têm sabor panteísta, quando seu ponto de partida é precisamente que a essência divina é inalcançável. Alguns autores católicos permanecem críticos (M. J. Le Guillou); outros fazem matizes “trinitários” à distinção (Ivanka, Ch. Journet, J. M. Garrigues), outros pensam que não há incompatibilidades de fundo (G. Philips, Y. Congar, A. de Halleux). Muitos apreciam que as diferenças se devem a uma ideia distinta da participação (Garriges, Congar). Em todo caso, quando o tema se afronta sem afã polêmico, e tendo presentes os limites de nossa linguagem, as coisas se vêem em sua justa medida.

A distinção de Palamas tem algo de taulogógica, ou seja, de evidente e incontestável. Deus em si mesmo é inacessível para o homem. Nós o alcançamos na medida em que se nos dá (por suas obras, evidentemente). Mas nunca o abarcamos nem possuímos plenamente (totus sed non totaliter). Isto significa que, em parte, o alcançamos; e, em parte, não. Há algo que se nos dá (sempre através da ação divina) e algo que permanece mais além. Esta distinção óbvia é muito deficiente mas, desde já, não divide a Deus em duas partes. A teologia católica usa distinções parecidas à de Palamas entre a Trindade imanente e a Trindade econômica, entre a vida íntima de Deus (imanente) e as missões das Divinas Pessoas (transeunte), entre o operar divino ad intra e ad extra, entre o âmbito do necessário e o âmbito do voluntário e livre em Deus. As ações ad extra de Deus são o mesmo e, ao mesmo tempo, não são o mesmo que a essência. Diz V. Lossky: “Essência e energias não são, para Palamas, duas partes de Deus, como imaginam agora alguns críticos modernos, senão dois modos diferentes da existência de Deus, em sua natureza e fora de sua natureza; o mesmo Deus que permanece totalmente inacessível em sua essência e se comunica totalmente pela graça” (La vision de Dieu, 130); “As energias não são elementos do ser divino que poderiam ser consideradas à parte, separadamente da Trindade da que são manifestação comum, a irradiação externa (...), significam uma manifestação exterior da Trindade, que não pode ser interiorizada, introduzida, por assim dizer, no interior do ser divino, como sua determinação natural” (Teologia mística, 60).

Entendendo corretamente os termos, inclusive atendendo a seu significado literal, a distinção entre essência e energias se pode reduzir à distinção entre a natureza divina e as ações “ad extra” com as que Deus cria, santifica ou glorifica o cristão. Nesta medida, não coloca dificuldades. A teologia ocidental não se fixou nestes atos, mas em seus efeitos. Esses atos são distintas manifestações de Deus. Em sua origem, identificam-se com Deus. Mas, ao mesmo tempo, nós os distinguimos porque causa efeitos distintos. Somos criados pela ação de Deus (criação); somos santificados e glorificados também pela ação de Deus (graça). Por estas ações conhecemos e chegamos a Deus, sem abarcá-lo nunca. As coisas seguem unidas ao ato criador de Deus e, entretanto, não são Deus. E algo parecido sucede com a graça (ou a iluminação). Expressada nestes termos, a distinção parece não apresentar incompatibilidades (é minha opinião), ainda que suas formulações resultem desacostumadas (às vezes, imprecisas) e desenvolvam uma metáfora da luz que raramente usada pela teologia católica (ainda que sim por sua mística e sua iconografia). À teologia ocidental lhe falta uma reflexão sobre as ações divinas enquanto tais; à teologia oriental, quiçá, convenha fazer-se entender e evitar expressões chocantes: em concreto, tem que evitar “coisificar” as energias (e, em particular, a graça ou luz tabórica).

Resumindo as principais diferenças:

1) Quando falam da graça, a tradição católica e a ortodoxa palamita se fixam em aspectos distintos do mesmo fenômeno. A ortodoxa chama graça à própria ação de Deus (energia) que causa a divinização; enquanto que a católica chama graça, como veremos, ao efeito que a divinização causa no homem (graça santificante).

2) A tradição palamita, ademais, identifica graça e iluminação. E entende que todos os efeitos transformadores e físicos da glória têm a ver com os efeitos dessa graça no homem. A tradição católica distingue a graça e a glória, ainda que entenda que a graça seja como que uma antecipação da glória. Ademais, não se fixa tanto nos aspectos externos – físicos – da graça, ainda que os supõe implicitamente.

3) A tradição palamita pensa a participação como um tomar parte, um “contato” beatificante que nos diviniza (uma luz que ilumina e transforma). Há uma metáfora implícita (o raio). A católica a representa como uma ação de Deus que transforma diretamente a criatura e causa nela uma participação (a graça santificante). Entende essa participação em graus como sucede com o ser ou a beleza (participação transcendental). De maneira semelhante a como todo ser participa do ser divino, toda alma santificada pela inabitação participa, em algum grau, da vida divina, sem se converter em Deus. Por isso, a preocupação que late no sistema palamita não se colocou na teologia católica: participar em Deus não quer dizer ser animados diretamente por sua essência. Os teólogos latinos não pensam que, ao dizer isso, entendem como participa o homem de Deus (nem sequer representam isto); simplesmente afirmam que participa. Na teologia católica, a participação é um conceito, não uma imagem.

4) O Oriente Ortodoxo critica a noção católica de “graça criada” por entender que não pode dar-se nenhum “meio” criado na união com Deus que diviniza. Mas se trata de um mal-entendido sobre o sentido da expressão “graça criada”, ao qual às vezes, deram motivo os próprios autores católicos por usá-la mal. Como teremos ocasião de estudar, a graça santificante não é uma “coisa” ou “substância” criada, senão um hábito; ou seja, é a mudança que se produz na criatura (a divinização). Não é nenhuma coisa, senão uma elevação. É criada só no sentido de que Deus produz esse efeito na criatura quando quer.

5) Aos orientais desgosta o racionalismo da teologia ocidental, que tenta abarcar tudo. Parece-lhes que falta sentido da profundidade dos mistérios (apofatismo). Em muita parte, a teologia ocidental lhes parece afastada da tradição patrística e sem conexão com a vida sacramental e espiritual. Em ocasiões, não lhes falta razão.

6) Aos ocidentais desconcerta o realismo da teologia oriental e também a terminologia metafórica. Os orientais imaginam as energias divinas como se fossem raios que procedem da essência divina. Sabem que isto é uma metáfora imprópria, mas querem destacar a realidade do ato (criador ou divinizador): que procede da essência divina e causa a realidade das coisas ou a divinização do homem, com a glória que tantas vezes é reflexo da presença de Deus.

Tanto ao julgar as expressões da teologia palamita quanto da teologia escolástica, há que se evitar absolutamente a tendência a “coisificar”, porque isto produz quase todos os mal-entendidos. Nem a graça, nem as energias divinas, nem a iluminação, nem o “lumen gloriae”, nem a divinização, nem a santidade são “coisas” nem “substâncias” nem “fluidos”. Desde um ponto de vista ontológico se está falando das ações de Deus ou da transformação que essas ações produzem no homem. Grande parte dos problemas nesta matéria se devem a confusões produzidas na imaginação pelo mal uso dos termos.

Duas tradições que se enriquecem

A contribuição da teologia ortodoxa à teologia católica durante o século XX, devida em grande parte à diáspora russa na França e Estados unidos, foi muito relevante. Assentou as bases de uma aproximação que traz um enriquecimento mútuo. O sentido profundo do mistério que tem a tradição oriental fez pensar a teologia católica, e sua proximidade aos Padres permitiu recuperá-los de uma maneira viva, com seu sabor teológico, litúrgico e espiritual. Pelo que se refere ao tratado da graça, a constante referência bíblica à economia da salvação (o Espírito Santo), a viveza com que usa as categorias patrísticas (admirável intercâmbio), a inserção sacramental (Cabásilas) e o forte acento espiritual da teologia ortodoxa (iluminação) foram um elemento renovador. Compensou claramente a tendência ao racionalismo que esteve presente neste tratado, e reforçou sua relação com o mistério trinitário.

Por sua parte, a teologia ortodoxa se beneficiou grandemente pelos estudos ocidentais e edições dos Padres; de seu esforço sistemático e seu empenho no diálogo e evangelização do mundo moderno. Acolheu com interesse o Catecismo da Igreja Católica, no que encontra tantas coisas em comum, porque foi construído com esse espírito. E, apesar das dificuldades, correspondeu aos esforços ecumênicos. É de desejar que um melhor conhecimento mútuo de ambas tradições favoreça a unidade. Esta unidade tem sua expressão de fé no Credo, mas cabem, e couberam sempre, diferenças legítimas entre os teólogos, e também nas tradições litúrgicas e espirituais, precisamente porque o mistério de Deus é inabarcável. Nenhum teólogo e nenhuma teologia representa plenamente a mente da Igreja, senão só Jesus Cristo.

Apesar das aparências iniciais, as distâncias doutrinais não estão tanto na doutrina da graça, como em outros pontos: a questão do Primado (a função do Papa na Igreja), a concepção da Trindade (a ordem das Pessoas), alguns aspectos da escatologia (o purgatório e a escatologia final) e de prática sacramental (práxis católica sobre a confirmação, separada do batismo e, atualmente, posterior à Eucaristia; também a facilidade oriental para dissolver o matrimônio), À parte, há que se ter em conta profundas diferenças de mentalidade, agravos históricos muito duros (as Cruzadas e a Queda de Constantinopla) e questões de competência pastoral que pesam muito mais do que parece. Não se podem deixar de valorizar os esforços ecumênicos de João Paulo II: “Que breve, muito breve, Cristo, Orientale lumen, nos conceda descobrir que, na realidade, apesar de tantos séculos de afastamento, encontramo-nos muito próximos, porque, talvez sem sabe-lo, caminhávamos juntos para o único Senhor e, portanto, uns para os outros” (Orientale lumen, 29).

Conclusão

A patrística grega pensa a transformação do cristão como uma divinização, usando metáforas que têm uma expressão litúrgica. Frente às aspirações da tradição clássica platônica, os cristãos vão defender que o Evangelho encerra uma promessa de imortalidade. O cristão é, verdadeiramente, um homem divinizado, porque recebeu o Espírito Santo. Com ele, a Trindade se faz presente na alma. Quem antes era pecador, agora tem dentro um princípio de santidade, e foi introduzido nas misteriosas relações da vida divina. Este mistério revelado nos textos sagrados, foi entendido pelos Padres da Igreja recorrendo à noção filosófica platônica de participação e desenvolvendo as grandes ideias-metáforas do admirável intercâmbio e da recapitulação em Cristo.

A tradição ortodoxa recebeu este grande tema da patrística grega e o converteu em uma das chaves da mensagem cristã, dando-lhe uma ampla expressão teológica, ascética, litúrgica e artística. Gregório Palamas desenvolveu sua doutrina da divinização para defender esta tradição e, especialmente, a espiritualidade hesicasta. Estabeleceu uma distinção entre Essência e Energias para expressar de que maneira a essência incomunicável de Deus pode ser participada.

Ainda que a novidade da expressão provoque alguns mal-entendidos, vimos que o Ocidente usa esquemas parecidos. E não parece haver incompatibilidade de fundo. O que a teologia patrística grega e a tradição do Oriente expressa em termos de iluminação e divinização, a teologia ocidental o expressa em termos de graça santificante e virtudes sobrenaturais. Na terceira parte do livro voltaremos sobre o tema e poderemos entender melhor o que isto quer dizer.

A divinização é um grande tema espiritual que conecta com secretas aspirações da alma humana, que também se refletem em diversas religiões. Há no homem uma veia mística e um desejo de plenitude, cuja profundidade se intui no fundo da alma. É frequente que essa aspiração tenha uma expressão panteísta (hinduísmo, New Age). “A Deus ninguém nuca viu, o Unigênito no-lo revelou” (Jo 1,18). Pelo Filho acedemos diretamente ao Pai, que é o Deus pessoal e criador, que se revelou no Antigo Testamento. A doutrina da criação os ensina a distância que se dá entre o Criador e a criatura; por isso, sabemos que Deus não se identifica com o fundo da alma, ainda que esteja ali por sua ação. E pela economia da Redenção, sabemos que a aspiração ao encontro com Deus se realiza em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo.

Bibliografia

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