23.4.19

A alegoria da caverna de Platão

"A fim de abrir os olhos aos cegos, soltar do cárcere os presos e da prisão os que habitam nas trevas" (Is 42,7).

"Tomando o cego pela mão, levou-o para fora do povoado, e cuspindo-lhe nos olhos e impondo-lhes as mãos, perguntou-lhe: 'Percebes alguma coisa?" E ele, começando a ver, disse: 'Vejo as pessoas como se fossem árvores andando'. Em seguida, ele colocou novamente as mãos sobre os olhos do cego, que viu distintamente e ficou restabelecido e podia ver tudo nitidamente e de longe. E mandou-o para casa, dizendo: 'Não entres no povoado!"" (Mc 8,23-26).

"Com tua luz nós vemos a luz" (Sl 35,10). "O Verbo era a luz verdadeira que ilumina todo homem" (Jo 1,9).


"Agora vemos em espelho, e de maneira confusa, mas, depois, veremos face a face" (1Cor 13,12).




Sobre a Alegoria da Caverna

Todas as pessoas interessadas por Filosofia já ouviram falar da “Alegoria da Caverna” (ou “Mito da Caverna”), que se encontra no Livro VII de A República, o texto mais conhecido de Platão. O que é menos conhecido das pessoas é que tal alegoria representa os quatro graus de conhecimento do gráfico da “linha dividida”, que o discípulo de Sócrates apresenta anteriormente no Livro VI da referida obra.

Meu objetivo é fazer uma interpretação gnosiológica (de psicologia do conhecimento, em sentido clássico) e metafísica (enfocando a questão da “participação”) destes textos e a partir deles, com a ajuda de Aristóteles, de Xavier Zubiri, de Tomás de Aquino e da Teologia. 

* * * 

A alegoria da caverna ilustra os "quatro graus do conhecimento" do gráfico do livro VI (os dois primeiros graus se referem ao mundo sensível e os outros dois ao mundo cognoscível propriamente dito): 

a) a eikasia ("representação imaginária"), ou a "conjectura"/"suposição" a partir das “imagens” ("sombras" e "reflexos");

b) a pistis ("fé", "confiança"), ou a “crença” nos objetos reais representados pelas imagens;

c) a dianoia (âmbito das "ciências"), que é o "entendimento" ou “raciocínio” (matemático) a partir de "hipóteses" indemonstráveis (postulados), que são tomadas como "princípios" para as "conclusões", e que utilizam "figuras" ou "imagens" (desenhos) dos entes matemáticos pressupostos;

d) a noesis (intelecção metafísica), que toma as "hipóteses" do grau anterior enquanto tais (como “sistema de referência”, diria Zubiri em Inteligencia y Razón), apoiando-se nelas para se elevar dialeticamente ao princípio universal certo (a Ideia do Bem), concluindo intelectualmente (sem o auxílio de imagens) a partir daí.


Vejam-se estes dois esquemas gráficos:



Esquema encontrado no link abaixo: 
http://www.andretadei.com.br/osgrausdoconhecimentodelineadosnarepublicadeplatao/

Considera-se que os graus do conhecimento do sensível (imaginação e fé) correspondem à doxa ou "opinião", e os graus do conhecimento do inteligível (matemática e metafísica) correspondem à episteme ou "ciência", sem mais (como no segundo esquema acima). E há a tendência, num primeiro momento, de considerar o conhecimento sensível como o conhecimento do interior da caverna da alegoria, e o conhecimento inteligível com o conhecimento do exterior. Mas será exatamente assim? 

Quanto ao primeiro, tenha-se em conta que o paralelismo estabelecido por Sócrates, a respeito do mundo sensível, é, literalmente, o seguinte: "a divisão foi feita de tal modo que a imagem está para o objeto que reproduz como a opinião está para a ciência". De modo que creio (rs) que se pode dizer que a "fé", na comparação feita, comporta algum grau de "ciência"; se considerada no âmbito da percepção atual dos objetos, pode-se dizer que esta participa mais do conhecimento verdadeiro do que a imaginação, e é a esta percepção que a imaginação deve sempre se referir (as "testemunhas" dos fatos são mais credíveis do que os que fazem suposições, e esta verdade é de grande interesse para a Teologia). 

Por outro lado, o conhecimento matemático, que é ciência do mundo propriamente "cognoscível" (além da empiria), na medida em que se utiliza de "imagens" (as "figuras geométricas", por exemplo) para tentar ver o âmbito matemático invisível, ou, ainda, na medida em que possui "hipóteses" como "princípios", participa em algum grau da "fé" (e assim se vê como esta não tem um sentido negativo), e por isto não possui o mesmo grau de certeza que o conhecimento metafísico, para Platão. As figuras matemáticas estão para os entes matemáticos como as sombras estão para os objetos; os objetos são, em relação às sombras, "claros e distintos" (perceba-se a ressonância disto na filosofia matematizante de René Descartes). E, ainda, também os entes matemáticos estariam, para as Ideias, como as sombras  ou reflexos estão para os objetos...


Na alegoria presente no livro VII, temos prisioneiros que estão presos dentro de uma caverna, de costas para objetos carregados por homens atrás de um muro e cujas sombras são projetadas na parede pela luz de um fogo. Um deles se liberta, sai da caverna e, ao longo de um processo de acomodação da vista à luz natural, vê as coisas fora, distinguindo as sombras, depois as imagens dos homens e das coisas nas águas, e os próprios objetos; depois, os astros e a Lua durante a noite; finalmente, o próprio Sol é que poderá ser visto. Veja-se a seguinte gravura, que ilustra a alegoria:


Imagem ilustrativa tirada do link abaixo:
http://www.psiconlinews.com/2017/06/o-mito-da-caverna-de-platao.html


A "caverna" parece-me uma boa representação da cavidade cranial; ela representa a percepção que o cérebro alcança através dos sentidos externos e internos e da linguagem a eles associada, aquém do mundo cognoscível, seja o âmbito da matemática ("matéria inteligível") considerado em si mesmo, seja o âmbito da metafísica (do “espírito” propriamente). 

eikasia, enquanto conhecimento de “sombras”, é um conhecimento baseado nas imagens percebidas e conservadas pelos sentidos internos do "senso comum" (a “fantasia" aristotélica), da "memória sensível", da “imaginação” (a fantasia em atividade) e, consequentemente, fica no âmbito da “cogitativa” ou “razão particular”, que desenvolve e conclui o raciocínio (conjectural) sem  uma formal “apreensão da realidade” (Zubiri) ou sem uma “abstração da forma” (Aristóteles). É o âmbito de um conhecimento vulgar irrefletido. 

Na medida em que este tipo de conhecimento imaginativo absorve a experiência e tradição do passado como "válidas", ou que procura se fixar atentamente na visão reiterada da mesma realidade, ainda que sem uma formal intelecção dos fundamentos, adentramos o nível da pistis e temos o "empirismo" filosófico e a atitude “conservadora”. 

Esta seria a base para o entendimento matemático ou científico: o estabelecimento, pelapistis, isto é, pela confiança na realidade, de conceitos básicos que nos orientam nesta mesma realidade. Por isso Sócrates diz que, o raciocínio matemático "utiliza imagens dos objetos sensíveis", ainda que não pensando nelas, mas nos entes matemáticos. Os “objetos carregados por homens” no interior da caverna, aliás, bem representam o âmbito das imagens matemáticas visualizáveis e construídas como “entes de razão” (fundadas in re): as estátuas carregadas representam as figuras geométricas ou o espaço geométrico, e os homens que as transportam fazem as vezes das propriedades numéricas aritméticas que “fluem”; o “espaço” e o “tempo” (internos) como características de toda apreensão sensível, tema tão importante na filosofia moderna, sobremaneira da kantiana (mas já presente desde Descartes, com suas noções da “extensão” e da “flexibilidade” como a essência ou verdade clara e distinta do corpóreo).

Se a razão, em sua dualidade de inteligência e sensibilidade, descobre o seu fim intelectual ou contemplativo, isto é, a necessidade de descansar ou repousar num Princípio Intelectual absoluto, se encaminha à dialética filosófica, isto é, à noesis. "Só entram geômetras na Academia" porque a aptidão raciocinante é um preparo para a aquisição da aptidão puramente intelectual (como a oração meditativa prepara a oração contemplativa na vida espiritual; na metafísica cristã, a preparação matemática de certo modo foi substituída pela Fé teologal e a vida sacramental, que podem gerar, pela Graça, e nos chamados à vida intelectual, esta aptidão ao mundo inteligível).

De outra parte, se a dianoia, que é o raciocínio matemático, converte-se no grau "superior" do conhecimento, como foi feito através do "racionalismo" filosófico, deixa de ser o ponto de "apoio" para a subida dialética ao Princípio transcendente, e gera uma cosmovisão imanentista, tanto conceitualista em teoria quanto voluntarista na práxis: as "ideias", não as realidades suprassensíveis platônicas, descobertas na investigação, mas os "conceitos", construídos pelo pensamento, se transformam no fundamento da realidade, e daí vem a atitude "progressista" (que só pode surgir em solo cristão, em virtude da transposição da Fé no Reino futuro para o plano da imanência).

Esse idealismo imanentista moderno ficaria no âmbito do que Zubiri chama “talidade”, isto é, seu escopo não é a essência, mas a riqueza do conteúdo real. Este conteúdo é sempre efetivamente envolto por uma essência real ou ontológica, mas esta não é formalmente considerada nas investigações filosóficas e científicas modernas, e uma tal omissão implica na eliminação daquela interface real que permite a ascensão dialética ao mundo inteligível das Ideias e a Deus.

Certamente há uma mínima formalidade real “sentiligida” (expressão de um comentador zubiriano) pela inteligência senciente, apta para a apreensão lógica e matemática de leis funcionais acerca dos objetos percebidos, deixando-se entre parênteses os possíveis fundamentos além da experiência, quer propositalmente (para evitar os problemas cruciais da existência de Deus, da Lei Natural e da alma imortal), quer pela inépcia intelectual ou metafísica para se colocar a questão. Fica-se despreocupadamente no âmbito de uma razão dianoética, elevando-a a apreensora do plano "mais real", e indiferente ao problema da fonte metafísica real de toda objetividade científica.

Se se pode comparar a caverna ao cérebro, sua entrada representa nossos sentidos, considerados não somente como fonte de impressões que modificam nossos receptores sensoriais, mas em sua constitutiva “abertura” ao mundo além da apreensão: Zubiri nos ensina que a "inteligência senciente" apreende o conteúdo sensível como algo de suyo, que “não se esgota na apreensão” e que nos coloca a possibilidade do problema de sua “realidade além”; problema que não se nos impõe necessariamente, mas que tira sua legitimidade da própria apreensão atenta e admirativa do caráter “real” ou inteligível de todo conteúdo sensível.

O fogo do interior da caverna, que Platão compara ao Sol visível, é a própria luz do “ser” criado (Tomás) ou da “realidade” (Zubiri) que cria o âmbito da visibilidade e conhecimento dos objetos e das imagens (sombras); também podemos dizer que é a luz do “intelecto agente” aristotélico, participado a cada homem, que ilumina simultaneamente os objetos e a mente.

A libertação e a subida são atitudes humanas integrais, morais, mais do que simplesmente intelectuais ou “teoréticas”: é uma espécie de “graça” o que permite sair da escravidão dos costumes de um senso comum que ignora as questões metafísicas ou “últimas”. A ascensão dialética tem um componente moral e religioso irrenunciável, já que a contemplação das ideias ou realidades metafísicas não é algum imperativo pragmático.

Fora da caverna, o liberto vê a “realidade” além das imagens, distinguindo, pela ordem: as “sombras” (de fora), as imagens dos homens e coisas “refletidas” nas águas, os próprios “objetos reais” (homens e coisas reais), os “astros e a Lua” durante a noite, e, possivelmente, o próprio Sol.

Bem, qual a diferença destas “sombras” para as primeiras do interior da caverna? Parece-me que o essencial é que a visão do “inteligível” - a qual não deve ser considerada como uma espécie de “rapto” místico - é a simples consideração da sombra “à luz” da realidade; a libertação efetiva não é uma “mudança de lugar”, mas uma mudança de atitude, pela qual, agora, as imagens são referidas ou conhecidas formalmente como imagens de algo real para além delas. Ninguém está efetivamente preso “à visão de sombras numa caverna” – isto é uma metáfora –, mas ao entendimento de que “a representação das imagens sensíveis e a conjetura a partir delas” seria o máximo conhecimento; assim como ninguém efetivamente “sai corporalmente de uma caverna para ver a realidade fora”, mas se liberta dos limites em que acreditava. 

Trata-se, em outras palavras, de entender que o homem sensível que vejo (ou qualquer outra coisa sensível) existe efetivamente além da visão pela qual ele me aparece; tal visão não é uma “aparência”, é uma “aparição”, e “ver” que é assim é referir a visão sensível a uma realidade que é um “mais” que não se esgota nesta visão sensível, e cuja natureza pode ser investigada pela dialética filosófica. A Filosofia, além disso, não estabelece apenas uma "lei de prováveis reaparições" que possa estar relativamente sob controle, mas é uma "dedicação" à realidade investigada.
Ainda, trata-se de ver o “encadeamento” da sombra e do reflexo ao objeto, e do objeto à luz dos astros e do Sol, e assim já não estar mais preso às “cadeias” de um senso comum “desligado” do real. Em outros termos, trata-se da percepção inteligente da “corrente” de “participações” do Ser, ou, em termos zubirianos, da visualização formal da “religação” metafísica.

Parece-me também conveniente não deixar passar a imagem dos “reflexos nas águas”, porque aqui se introduz uma diferença importante em relação às meras “sombras”, que pode ser visualizada “à luz” da psicologia aristotélica: o “reflexo” é a presença da “forma” real no intelecto “possível”, já que as “águas” têm a característica da “plasticidade”. A figura sensível está presente na “fantasia” (senso comum) e a forma inteligível, no “intelecto paciente”.

A Lua e os astros representam a Sabedoria Criada e as Formas ou Substâncias Separadas (os Anjos), cujas glória relativa e ordem matemática são reflexos da Sabedoria Incriada representada pelo Sol, a Ideia Primeira do Bem, ou, em termos aristotélicos, o Ato Puro ou Primeiro Motor, porém não "imóvel", senão "difusivo de si", e cuja visão direta é a "visão mística”.

Há uma conexão ascendente dos tipos de conhecimento porque há uma conexão descendente de participações da realidade: a ordem gnosiológica e epistemológica que parte das sombras e dos reflexos aos objetos, e destes aos “astros” e ao “Sol” corresponde à ordem metafísica da participação que desce do Bem às Ideias e Entes matemáticos, e destes às coisas sensíveis e suas imagens.

As correlações filosóficas que fui realizando acima entre a alegoria de Platão e a psicologia de Aristóteles e de Zubiri permitirão agora a exposição de mais alguns elementos metafísico-gnosiológicos integradora das contribuições destes grandes filósofos, que aparentemente se contradizem sobre alguns tópicos centrais acerca do ser e do conhecimento.

A primeira coisa que deve ficar clara é que o objeto da “abstração” aristotélica e o da “dialética” platônica são distintos: Aristóteles quer encontrar o fundamento inteligível, na coisa sensível (no “composto hilemórfico”), para o conhecimento científico, e isto é a “forma” abstraível; Platão (como Agostinho, em sua teoria da “iluminação”), quer encontrar o fundamento metafísico da verdade última da coisa sensível.

Para Aristóteles, a abstração do intelecto agente apreende, via imagem (“fantasma”), a "forma", que é o princípio de inteligibilidade das coisas sensíveis ou materiais. Na coisa ou substância sensível, a forma é, segundo o Estagirita, o princípio configurante, estruturador da matéria (que é o princípio material). A forma não se reduz ao conteúdo material, não é uma qualidade física mais; e nem apenas um princípio estruturante da figuração e da proporção da coisa, pois isto ainda a faria ser do âmbito matemático, e não do estritamente metafísico e essencial. A forma é, portanto, "imaterial", em cada coisa sensível. Apenas a alma humana, na interpretação tomasiana, é forma "espiritual" ou "subsistente", precisamente por ser apreendedora da "quididade" imaterial das coisas, na qual "se transforma" pela abstração.

Para o Estagirita, ainda, a "essência" está em cada coisa sensível, a compor com os acidentes sua individualidade: "Sócrates" tem nele a “humanidade” e a “socraticidade”, por assim dizer. Em termos da biologia contemporânea, para efeitos comparativos, tem um DNA com um "momento" específico ou "quididativo" (que o estrutura como ser humano), e outro momento individual (que o estrutura como este homem concreto que é Sócrates). Não estão todos os homens em Sócrates; mas a natureza humana está toda nele, mesmo que individualizada.

"Ah, mas a forma de um homem é sua alma, não a genética da espécie humana". Verdade, mas o que faz a forma que é a "alma"? Já considerando a Teologia: em sua individualidade, a alma é um reflexo do Ser Divino, configura cada homem como uma "imagem" de Deus, de modo que cada pessoa humana reflete Deus finitamente. 

Deus está presente (antes ainda da Graça, como Conservador e Iluminador, nos termos agostinianos) em cada alma individual, mas esta alma não é todas as almas, nem a totalidade delas é a Ideia de Homem, que é o Verbo Realíssimo, refletido – e não "repartido" (contra a gnose da "centelha divina) – em cada alma com seu corpo, o qual, por sua vez, conserva em seu DNA, como reflexo de sua alma, a informação biológica da natureza humana, em sua especificidade e individualidade. 

Abstrair e conceituar "homem" em verdade, como “pessoa humana”, não é ver diretamente Deus (ontologismo), mas é ver algo bem real, que é a presença, a modo de "espelho", (da Luz) do Verbo "que ilumina todo homem" nesta realidade falante, bípede, política, etc. 

Deixando de lado os artefatos, que não são verdadeiras substâncias, o mundo mineral (que, no limite, poderia constituir uma substância única), e os vegetais (por comodidade), vejamos os animais: eles têm formas que não são almas subsistentes, segundo a filosofia aristotélica, e também têm códigos genéticos, segundo a biologia contemporânea: cada animal não é a espécie toda, mas a espécie está totalmente nele. 

Ora, se o código genético do animal fosse mero arranjo lógico do biólogo, não estaríamos diante de uma verdadeira essência; se, desde a outra perspectiva, sua alma mortal não fosse o reflexo de uma Ideia paradigmática, a abstração da forma seria mera conjunção lógica, e não haveria qualquer distinção real entre o “realismo moderado” e o “conceitualismo”.

Assim, o que se "vê" (não diretamente) quando se abstrai a formalidade essencial de um animal, é a "vida" da qual ele participa, que não é subsistente nele, mas que não é a energia meramente bio-química ou a informação genética que perpassa e se comunica por tal espécie (o que redundaria em materialismo), mas o reflexo do "ato" ou energeia das Ideias paradigmáticas das coisas viventes, que se encontram abaixo do "Anjo do Senhor", a quem refletimos nós.

* * *


Apêndice 1: a linha do conhecimento de A República, Livro VI

Sócrates — Agora, pega uma linha cortada em dois segmentos desiguais, representando um o gênero visível, o outro o cognoscível, e corta de novo cada segmento respeitando a mesma proporção; terás então, classificando as divisões obtidas conforme o seu grau relativo de clareza ou de obscuridade, no mundo visível, um primeiro segmento, a das imagens. Denomino imagens primeiramente às sombras, depois aos reflexos que se veem nas águas ou na superfície dos corpos opacos, polidos e brilhantes, e a todas as representações semelhantes. Compreendes?

Glauco — Lógico que sim.

Sócrates — Considera agora que o segundo segmento corresponde aos objetos que essas imagens representam, ou seja, os animais que nos cercam, as plantas e todas as obras de arte.

Glauco — Estou considerando.

Sócrates — Concordas também em dizer que, no que concerne à verdade e ao seu contrário, a divisão foi feita de tal modo que a imagem está para o objeto que reproduz como a opinião está para a ciência?

Glauco — Concordo plenamente.

Sócrates — Vê agora coma deve ser dividido o mundo cognoscível.

Glauco — Como?

Sócrates — Na primeira parte desse segmento, a alma, utilizando as imagens dos objetos que no segmento precedente eram os originais, é obrigada a estabelecer suas análises partindo de hipóteses, seguindo um caminho que a leva, não a um princípio, mas a uma conclusão. No segundo segmento, a alma parte da hipótese para chegar ao princípio absoluto, sem lançar mão das imagens, como no caso anterior, e desenvolve a sua análise servindo-se unicamente das Ideias.

Glauco — Não compreendo muita bem o que dizes.

Sócrates — Sem dúvida, compreenderás mais facilmente depois de ouvires o que vou dizer. Sabes, penso eu, que aqueles que se dedicam à geometria, à aritmética ou às outras ciências do mesmo gênero pressupõem o par e o ímpar, as figuras, três espécies de ângulos e outras coisas da mesma família para cada pesquisa diferente; que, tendo pressuposto estas coisas como se as conhecessem, não se dignam justificá-las nem a si próprios nem aos outros, considerando que elas são evidentes para todos; que, finalmente, a partir daí, deduzem o que se segue e acabam por alcançar, de forma consequente, a demonstração que tinham em vista.

Glauco — Sei disso perfeitamente.
Sócrates — Então, sabes também que eles utilizam figuras visíveis e raciocinam sobre elas pensando não nessas mesmas figuras, mas nos originais que elas reproduzem. Os seus raciocínios baseiam-se no quadrado em si mesmo e na diagonal em si mesma, e não naquela diagonal que traçam; o mesmo vale para todas as outras figuras. Todas essas figuras que modelam ou desenham, que produzem sombras e os seus reflexos nas águas, eles as utilizam como tantas outras imagens, para tentar ver esses objetas em si mesmas, que, de outro modo, só podem ser percebidos pelo pensamento.

Glauco — É verdade.

Sócrates — Eu afirmava que os objetos desse gênero pertencem à classe do cognoscível mas que, para conseguir conhecê-los, a alma é obrigada a recorrer a hipóteses, servindo-se destas como de imagens dos mesmos objetos que produzem sombras no segmento inferior, e que, em relação a essas sombras, são tidas e considerados como claros e distintos.

Glauco — Compreendo que o que dizes se refere à geometria e às ciências da mesma natureza.

Sócrates — Percebes agora que entendo por segunda divisão do mundo cognoscível aquela que a razão alcança pelo poder da dialética, considerando suas hipóteses não como princípios, mas como simples hipóteses, isto é, pontos de apoio e trampolins para se elevar até o princípio universal que já não admite hipóteses. Atingido esse princípio, ela se apega a todas as consequências que decorrem dele, até chegar à última conclusão, sem recorrer a nenhum dado sensível, mas somente às Ideias, pelas quais procede e às quais chega.


Glauco — Compreendo-te em parte, mas não satisfatoriamente, porque tratas de um tema muito difícil. Queres estabelecer que o conhecimento do ser e do inteligível, que é adquirido pela ciência da dialética, é mais claro que aquele que é adquirido pelas ciências, as quais possuem hipóteses como princípios. É certo que aqueles que se consagram às ciências são obrigados a utilizar o raciocínio, e não os sentidos. No entanto, visto que nas suas investigações não apontam para um princípio, mas partem de hipóteses, julgas que eles não têm a inteligência dos objetos estudados, mesmo que a tivessem como um princípio. Parece-me que denominas conhecimento discursivo, e não inteligência, a geometria e outras ciências do mesmo gênero, considerando esse conhecimento intermediário entre a opinião e a inteligência.

Sócrates — Compreendeste-me bastante bem. Aplica agora a estas quatro seções estas quatro operações da alma: a inteligência à seção mais elevada, o conhecimento discursivo à segunda, a fé à terceira, a imaginação à última; e dispõe-nas por ordem de clareza, partindo do princípio de que, quanto mais seus objetos participam da verdade, mais eles são claros.

Glauco — Compreendo. Concordo contigo e adoto a ordem que tu sugeres.



Apêndice 2: a alegoria da caverna de A República, Livro VII


Sócrates - Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas. 

Glauco - Estou vendo. 

Sócrates - Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio. 

Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros. 

Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte? 

Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida? 

Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo? 

Glauco - Sem dúvida. 

Sócrates - Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam? 

Glauco - É bem possível. 

Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles? 

Glauco - Sim, por Zeus! 

Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados? 

Glauco - Assim terá de ser. 

Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora? 

Glauco - Muito mais verdadeiras. 

Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram? 

Glauco - Com toda a certeza. 

Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras? 

Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início. 

Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz. 

Glauco - Sem dúvida. 

Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é. 

Glauco - Necessariamente. 

Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna. 

Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão. 

Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram? 

Glauco - Sim, com certeza, Sócrates. 

Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia? 

Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira. 

Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol? 

Glauco - Por certo que sim. 

Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo? 

Glauco - Sem nenhuma dúvida. 

Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública. 

Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la. 

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