Thursday, January 19, 2017

Notas sobre a Arte e a Beleza

O que é arte? O que ela tem a ver com o conhecimento, a ação e a técnica? A arte tem necessariamente a ver com a beleza? O que é a beleza? Como a beleza se relaciona com a verdade e o bem? Qual a relação entre beleza, arte e matéria? Da arte moderna, pode-se falar que visa (sempre) à beleza? Estas são algumas das questões que surgem quando nos deparamos com os problemas filosóficos da arte e do belo. O presente texto pretende tão somente oferecer algumas pistas sobre o tema.

Quando aqui me refiro à arte, estou pensando nas “belas artes”, isto é, naquelas artes que, tradicionalmente, foram referidas à produção de obras belas, como a música, a poesia, o teatro, a dança, a escultura ou a pintura. Mas, se falamos de “belas artes”, é porque há outras “artes”, e é possível que a compreensão do gênero nos ajude a entender melhor a espécie. Pois bem, a arte é um dos atos que resumem as realizações humanas, ao lado do conhecimento e da ação. Por “ato” entendo aqui a atuação das potências humanas mais gerais: a potência para saber (teoria), a potência para agir moralmente, no âmbito privado, da ética, e social, da política (práxis), e a potência de produzir ou construir artefatos (poiesis). Tais artefatos podem ter uma finalidade utilitária, e então estamos diante da “técnica” (techné, em latim ars, daí nossa palavra “arte”, sinônima, portanto, de técnica), ou podem ter uma finalidade estética, e então temos as “belas artes”, às quais foi reservada, mais tarde, de maneira praticamente exclusiva, a palavra arte. Assim, arte é “produção”, não é um tipo de conhecimento, como se costuma dizer; os temas ou conteúdos artísticos não são o que propriamente caracteriza ou define a arte, ainda que não exista “arte sem conteúdo” (por mais abstrato que possa ser nos dias atuais). 

Para a filosofia clássica, a beleza é definida como “imagem da verdade” (Platão) e “visibilidade do bem” (Tomás), e é apreendida sensivelmente como “o que agrada à vista e ao ouvido” (Tomás). A beleza se relaciona, portanto, com os "transcendentais" verdade e bem, que são, respectivamente, a presença do ser à inteligência e sua presença à vontade. Se a verdade tem razão de “forma” que se dá a conhecer, e o bem de “fim” que atrai a si, penso que se poderia dizer que a beleza, relacionada tanto a uma quanto ao outro, é a “ponte” que os unifica; ela é, no ser, uma potência que se dá a conhecer atraindo a si: diante da beleza, não cabe nem a fria especulação teórica, nem a tensão de quem tem algo a resolver, mas a comoção de quem tem diante de si, por um lado, não uma essência lógica universal, mas o próprio ser individual em sua singularidade, e por outro lado, não um ideal distante a ser perseguido, mas como que o vislumbre da plenitude do ser que está aí.

Na estética moderna, a beleza é apanágio do sentimento. Se aqui se falou de “comoção”, então penso que se pode entrar num acordo com a filosofia moderna: o sentimento estético, de ordem espiritual, é o “órgão” ou faculdade da beleza que é experimentada através dos sentidos da visão e da audição. E se também falamos de individualidade, é porque temos a matéria como princípio de atualização (Zubiri) ou presentificação da beleza (das criaturas). Classicamente, à beleza foram atribuídas três notas essenciais: a integridade, a harmonia e a claridade. Belo (formoso) é o que manifesta sua essência (forma) em sua inteireza e boa disposição. E modernamente, Kant definiu o sentimento estético como um agrado desinteressado. Unindo as duas coisas: diante de um objeto íntegro, harmonioso e que, assim, ostenta material ou sensivelmente o próprio ser, experimentamos um gozo espiritual (e não um deleite físico), que é subjetivo (porque se dá no sujeito) sem ser "subjetivista" (porque deve se dar em todo sujeito). Voltemos à arte.

O papel essencial da arte, a meu ver, reside não em imitar a beleza da natureza, mas em transfigurá-la; não no sentido de torná-la o que ela não é, mas sim no de apontar o que ela “será”. A arte trabalha a matéria, princípio de “atualidade” da realidade ou o que torna presente uma realidade às demais, no sentido de criar “novas atualidades”, que sejam “sempre atuais”. Em outras palavras, o artista buscaria, tradicionalmente, representar algo (pode ser uma coisa existente ou meramente possível) sub especie aeternitatis. Evidentemente, nenhum artista poderia esgotar essa visão eterna das coisas, e as obras de arte se aproximam mais ou menos do ideal. Essa tentativa seria vã se a matéria consistisse simplesmente em efemeridade. O impulso artístico, universal, revela a crença humana na bondade do mundo material e na sua vocação a perpetuar-se. As obras de arte pertencem ao mundo do espírito, porque a própria materialidade pertence ao mundo do espírito. Para um cristão, a matéria que se perpetuará por toda a eternidade são os corpos gloriosos e o cosmos transfigurado; essas realidades dão um “conteúdo” mais concreto à abstrata atualidade perene das coisas materiais, e este configura a “arte sacra” como a arte por antonomásia.

O belo é o que revela a face gloriosa vindoura das criaturas materiais (eu julgava que este era um insight meu, mas li na Introdução às artes do belo do Étienne Gilson que assim pensavam os teólogos medievais). Assim como o conceito hebreu de verdade relaciona-se à promessa que se cumprirá, o conceito de beleza artística refere-se ao futuro, à plenitude da forma que se revelará. O que eu venho dizendo não diz respeito somente às artes plásticas, mas também a música é uma antecipação da sinfonia eterna, a literatura é uma tentativa de mergulhar nos mistérios da Palavra Eterna (evidentemente captando apenas alguns de seus aspectos), etc. O artista e sua arte procuram penetrar naquelas melodias, estórias, imagens, etc., que merecerão ser ouvidas e vistas por todo o sempre. 

O Verbo Encarnado é o “Belo Pastor”, mais especificamente em sua condição de Ressuscitado. A arte por excelência é, assim, aquela que reproduz o Cristo e seus santos (aqueles que participam de sua Vida), isto é, como já dito, a arte sacra, a qual já se refere tematicamente, formalmente, às realidades vindouras que já estão antecipadas nos que vivem no Céu. Se a arte sacra deixasse de existir nesse mundo, a arte “profana” facilmente perderia sua constitutiva tensão para a eternidade, e seria reduzida a uma mera técnica artística, desenraizada do seu ser próprio, que é patentear a beleza pela qual o coração humano suspira, e pela qual toda a criação aguarda, gemendo e chorando. Deste modo, ela, aos poucos, definharia, pois sem vislumbrar o duradouro no corruptível, logo identificaria, na própria corrupção e no caos a que voltam as coisas perecíveis, o “sentido” do fazer artístico. Isto talvez explique certa direção da arte contemporânea, que não é mais tensão para o Reino dos Céus, mas antecipação de formas caóticas ou decaídas. Não se trata aqui de uma crítica a toda arte chamada “abstrata”, que não tem um sentido apreensível para o vulgo: mesmo o caos (ou a feiura) pode(m) ser representado(s) artisticamente sem dissimular seu caráter próprio, e isto não se enquadraria no que acabo de criticar (colocar a inteira arte contemporânea “num mesmo saco” é certamente algo injusto).

A arte é o “caminho mais curto” para a instrução e a formação moral, como sabiam os poetas gregos (e Aristóteles indicou em sua Poética) e os artistas cristãos que faziam da arte sacra a “Escritura dos iletrados”. Recuperar o sentido da beleza é imprescindível para recuperar o sentido da verdade e do bem e vice-versa. Primeiro a grande música e os grandes espetáculos e depois a arte pop (que certamente tem elementos resgatáveis) tornaram-se como que a “liturgia” dos tempos modernos. É mister que a Igreja recupere a beleza no seu culto, para atrair as pessoas à Verdade e ao Bem. O cristianismo é a fonte mais frequente da beleza artística ocidental, e ele é uma fonte inexaurível. É preciso mergulhar nestas águas benditas para trazer a este mundo que sofre pela mentira e pela maldade um pouco de frescor, recuperando o sentido da realidade e saciando a sede de beleza que habita nos corações.


"O Pai Tempo vencido pelo Amor, pela Esperança e pela Beleza" (1627), de Simon Vouet 

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