O que é arte? O que ela tem a ver com o
conhecimento, a ação e a técnica? A arte tem necessariamente a ver com a
beleza? O que é a beleza? Como a beleza se relaciona com a verdade e o bem? Qual
a relação entre beleza, arte e matéria? Da arte moderna, pode-se falar que visa
(sempre) à beleza? Estas são algumas das questões que surgem quando nos
deparamos com os problemas filosóficos da arte e do belo. O presente texto
pretende tão somente oferecer algumas pistas sobre o tema.
Quando aqui me refiro à arte, estou
pensando nas “belas artes”, isto é, naquelas artes que, tradicionalmente, foram
referidas à produção de obras belas, como a música, a poesia, o teatro, a
dança, a escultura ou a pintura. Mas, se falamos de “belas artes”, é porque há
outras “artes”, e é possível que a compreensão do gênero nos ajude a entender
melhor a espécie. Pois bem, a arte é um dos atos que resumem as realizações
humanas, ao lado do conhecimento e da ação. Por “ato” entendo aqui a atuação
das potências humanas mais gerais: a potência para saber (teoria), a potência para agir moralmente, no âmbito privado, da
ética, e social, da política (práxis),
e a potência de produzir ou construir artefatos (poiesis). Tais artefatos podem ter uma finalidade utilitária, e
então estamos diante da “técnica” (techné,
em latim ars, daí nossa palavra
“arte”, sinônima, portanto, de técnica), ou podem ter uma finalidade estética,
e então temos as “belas artes”, às quais foi reservada, mais tarde, de maneira
praticamente exclusiva, a palavra arte. Assim, arte é “produção”, não é um tipo
de conhecimento, como se costuma dizer; os temas ou conteúdos artísticos não
são o que propriamente caracteriza ou define a arte, ainda que não exista “arte
sem conteúdo” (por mais abstrato que possa ser nos dias atuais).
Para a filosofia clássica, a beleza é definida como “imagem da verdade” (Platão) e “visibilidade do bem” (Tomás), e é apreendida sensivelmente como “o que agrada à vista e ao ouvido” (Tomás). A beleza se relaciona, portanto, com os "transcendentais" verdade e bem, que são, respectivamente, a presença do ser à
inteligência e sua presença à vontade. Se a verdade tem razão de “forma” que se dá a conhecer, e o bem de
“fim” que atrai a si, penso que se poderia dizer que a beleza, relacionada
tanto a uma quanto ao outro, é a “ponte” que os unifica; ela é, no ser, uma
potência que se dá a conhecer atraindo a
si: diante da beleza, não cabe nem a fria especulação teórica, nem a tensão
de quem tem algo a resolver, mas a comoção de quem tem diante de si, por um
lado, não uma essência lógica universal, mas o próprio ser individual em sua
singularidade, e por outro lado, não um ideal distante a ser perseguido, mas como que o vislumbre da plenitude do ser que está aí.
Na estética moderna, a beleza é apanágio
do sentimento. Se aqui se falou de “comoção”, então penso que se pode entrar num acordo com a filosofia moderna: o sentimento estético, de ordem espiritual, é o
“órgão” ou faculdade da beleza que é experimentada através dos sentidos da visão e da audição. E se também falamos de individualidade, é
porque temos a matéria como princípio
de atualização (Zubiri) ou presentificação da beleza (das criaturas). Classicamente, à
beleza foram atribuídas três notas essenciais: a integridade, a harmonia e a
claridade. Belo (formoso) é o que manifesta sua essência (forma) em sua
inteireza e boa disposição. E modernamente, Kant definiu o sentimento estético
como um agrado desinteressado. Unindo as duas coisas: diante de um objeto
íntegro, harmonioso e que, assim, ostenta material ou sensivelmente o próprio ser,
experimentamos um gozo espiritual (e não um deleite físico), que é subjetivo (porque se dá no sujeito) sem ser "subjetivista" (porque deve se dar em todo sujeito). Voltemos à arte.
O papel essencial da arte, a meu ver,
reside não em imitar a beleza da natureza, mas em transfigurá-la; não no
sentido de torná-la o que ela não é, mas sim no de apontar o que ela “será”. A arte trabalha a matéria, princípio de “atualidade” da
realidade ou o que torna presente uma realidade às demais, no sentido de criar “novas
atualidades”, que sejam “sempre atuais”. Em outras palavras, o artista
buscaria, tradicionalmente, representar algo (pode ser uma coisa
existente ou meramente possível) sub
especie aeternitatis. Evidentemente, nenhum artista poderia esgotar essa
visão eterna das coisas, e as obras de arte se aproximam mais ou menos do
ideal. Essa tentativa seria vã se a matéria consistisse simplesmente em
efemeridade. O impulso artístico, universal, revela a crença humana na bondade
do mundo material e na sua vocação a perpetuar-se. As obras de arte pertencem
ao mundo do espírito, porque a própria materialidade pertence ao mundo do
espírito. Para um cristão, a matéria que se perpetuará por toda a eternidade
são os corpos gloriosos e o cosmos transfigurado; essas realidades dão um
“conteúdo” mais concreto à abstrata atualidade perene das coisas materiais, e
este configura a “arte sacra” como a arte por antonomásia.
O belo é o que revela a face gloriosa
vindoura das criaturas materiais (eu julgava que este era um insight meu, mas li na Introdução às artes do belo do Étienne
Gilson que assim pensavam os teólogos medievais). Assim como o conceito hebreu
de verdade relaciona-se à promessa que se cumprirá, o conceito de beleza artística
refere-se ao futuro, à plenitude da forma que se revelará. O que eu venho dizendo não diz respeito somente às artes
plásticas, mas também a música é uma antecipação da sinfonia eterna, a
literatura é uma tentativa de mergulhar nos mistérios da Palavra Eterna (evidentemente captando apenas alguns de seus aspectos), etc. O artista e sua arte procuram penetrar naquelas melodias, estórias, imagens, etc., que merecerão ser ouvidas e vistas por todo o sempre.
O Verbo Encarnado é o
“Belo Pastor”, mais especificamente em sua condição de Ressuscitado. A arte por
excelência é, assim, aquela que reproduz o Cristo e seus santos (aqueles que
participam de sua Vida), isto é, como já dito, a arte sacra, a qual já se
refere tematicamente, formalmente, às realidades vindouras que já estão antecipadas nos que vivem no Céu. Se a arte sacra
deixasse de existir nesse mundo, a arte “profana” facilmente perderia sua
constitutiva tensão para a eternidade, e seria reduzida a uma mera técnica
artística, desenraizada do seu ser próprio, que é patentear a beleza pela qual
o coração humano suspira, e pela qual toda a criação aguarda, gemendo e
chorando. Deste modo, ela, aos poucos, definharia, pois sem vislumbrar o
duradouro no corruptível, logo identificaria, na própria corrupção e no caos a
que voltam as coisas perecíveis, o “sentido” do fazer artístico. Isto talvez
explique certa direção da arte contemporânea, que não é mais tensão para o
Reino dos Céus, mas antecipação de formas caóticas ou decaídas. Não se trata
aqui de uma crítica a toda arte chamada “abstrata”, que não tem um sentido
apreensível para o vulgo: mesmo o caos (ou a feiura) pode(m) ser representado(s)
artisticamente sem dissimular seu caráter próprio, e isto não se enquadraria no
que acabo de criticar (colocar a inteira arte contemporânea “num mesmo saco” é
certamente algo injusto).
A arte é o “caminho mais curto” para a
instrução e a formação moral, como sabiam os poetas gregos (e Aristóteles
indicou em sua Poética) e os artistas
cristãos que faziam da arte sacra a “Escritura dos iletrados”. Recuperar o
sentido da beleza é imprescindível para recuperar o sentido da verdade e do bem
e vice-versa. Primeiro a grande música e os grandes espetáculos e depois a arte
pop (que certamente tem elementos resgatáveis) tornaram-se como que a
“liturgia” dos tempos modernos. É mister que a Igreja recupere a beleza no seu
culto, para atrair as pessoas à Verdade e ao Bem. O cristianismo é a fonte mais
frequente da beleza artística ocidental, e ele é uma fonte inexaurível. É
preciso mergulhar nestas águas benditas para trazer a este mundo que sofre pela
mentira e pela maldade um pouco de frescor, recuperando o sentido da realidade
e saciando a sede de beleza que habita nos corações.
"O Pai Tempo vencido pelo Amor, pela Esperança e pela Beleza" (1627), de Simon Vouet

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