Thursday, July 14, 2016

Ortega y Gasset sobre a filosofia moderna

"Toda a filosofia moderna brota, como de uma semente, deste horror ao erro, a ser enganado, a être dupé. De tal modo chegou a ser a base mesma de nossa alma, que não nos surpreende, antes nos custa muita esforço, perceber quanto nessa propensão há de vitalmente estranho e paradoxal. Pois que -perguntará alguém-, não é natural o empenho de evitar a ilusão, o engano, o erro? Certamente, mas não é menos natural o empenho de saber, de descobrir o segredo das coisas. Homero morreu de uma aflição por não ter conseguido decifrar o enigma que uns moços pescadores lhe propuseram. Afã de saber e afã de não errar são dois ímpetos essenciais ao homem, mas a preponderância de um sobre outro define dois tipos diferentes de homens. Predomina no espírito um ou o outro? Prefere-se não errar, ou não saber? Começa-se pelo intento audaz de raptar a verdade, ou pela precaução de excluir previamente o erro? As épocas, as raças exercitam um mesmo repertório de ímpetos elementares, mas basta que estes se deem em diferente hierarquia e colocação para que épocas e raças sejam profundamente distintas.

A filosofia moderna adquire em Kant sua franca fisionomia ao converter-se em mera ciência do conhecimento. Para poder conhecer algo é preciso antes estar seguro de se se pode e como se pode conhecer. Este pensamento encontrou sempre injustificável ressonância na sensibilidade moderna. Desde Descartes parece-nos o único plausível e natural começar a filosofia com uma teoria do método. Pressentimos que a melhor maneira de nadar consiste em guardar a roupa.

E, entretanto, outros tempos sentiram de maneira bastante diferente. A filosofia grega e medieval foi uma ciência do ser e não do conhecer. O homem antigo parte, desde sempre, sem desconfiança alguma, à caça do real. O problema do conhecimento não era uma questão prévia, senão, pelo contrário, um tema subalterno. Esta inquietude inicial e primária da alma moderna, que lhe leva a perguntar-se uma e outra vez se será possível a verdade, teria sido incompreensível para um meditador antigo. O próprio Platão, que é, com César e Santo Agostinho, o homem antigo mais próximo à modernidade, não sentia curiosidade alguma pela questão de se é possível a verdade. De tal sorte lhe parecia inquestionável a atitude da mente para a verdade, que seu problema era o inverso e se pergunta uma vez e outra: como é possível o erro?

[...] Kant é um clássico deste subjetivismo nativo próprio da alma alemã. Chamo subjetivismo ao destino misterioso em virtude do qual um sujeito encontra como primeiro e mais evidente no mundo a si mesmo. Todo ulterior ensaio de sair afora, de alcançar o ser transubjetivo, as coisas, os outros homens, será uma luta trágica. O contato com a realidade exterior não será nunca, rigorosamente, imediata evidência, senão um artifício, uma construção mental precária e sem firme equilíbrio. O caráter subjetivo da experiência primária se dilatará até o confim do universo, e onde quer que o afã intelectual chegue, não verá senão coisas tingidas de Eu. [...] 

Convém, pois, advertir que o termo 'idealismo', em seu uso moderno, tão pouco semelhante ao antigo, tem um destes dois sentidos estritos:

Primeiro. Idealismo é toda teoria metafísica onde se começa por afirmar que à consciência só lhe são dados seus estado subjetivos ou 'ideias'. Em tal caso, os objetos só têm realidade enquanto são ideados pelo sujeito -individual ou abstrato. A realidade é ideal. Este modo de pensar é incompatível com a situação presente da ciência filosófica, que encontra em tal afirmação um erro de fato. O idealismo de 'ideias' não é senão subjetivismo teórico.

Segundo. Idealismo é também toda moral onde se afirma que valem mais os 'ideais' que as realidades. Os 'ideais' são esquemas abstratos onde se define como devem ser as coisas. Mas havendo feito previamente das coisas estados subjetivos, os 'ideais' serão extratos da subjetividade. O idealismo dos 'ideais' é subjetivismo prático. 

[...] Eis aqui o que eu chamo de uma filosofia de viking. Quando ao que é se opõe pateticamente o que deve ser, suspeitamos sempre que atrás deste se oculta um humano, demasiado humano eu 'quero'.


[ORTEGA Y GASSET, José. Kant. Hegel. Scheler. Madrid: Revista de Occidente en Alianza Editorial, 1983, pp. 17-41]




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