Friday, August 10, 2018

A sabedoria do sensus fidei


Reflexões facebookianas do amigo Carlos Alencar Maia, do Movimento Pró-Vida de Manaus, que, com profunda simplicidade, alerta para verdades óbvias tantas vezes esquecidas e traz à tona verdades árduas que são evitadas. 

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Não há necessidade de redescobrir a roda. A Igreja já fez o trabalho para nós. Os filósofos antigos, idem. Mas existe uma sede de estar em evidência, uma sede de se vender como um gênio, como alguém que por uma capacidade toda especial e pessoal possui a capacidade de nos guiar por mares nunca dantes navegados.

Mas é falsa essa percepção. Os erros modernos são os mesmos do passado. Você lê um Demócrito, um Górgias ou um Epicuro, e dá de cara com um Hawkins, um Sagan ou um Nietzsche. Claro que existem as diferenças de casca, mas os argumentos de fundo são muito parecidos.

Assim, os acertos do presente também não nos serão revelados em primeiríssima mão pelos oportunistas de agora, que muitas vezes são apenas um boneco de massinha, desses montados por crianças de 3 anos, na frente dos grandes vultos que tiveram de passar 30 anos em cavernas, mosteiros, e mais tempo ainda no abismo de suas vidas interiores, para extrair como que o própria seiva da árvore da vida, e entregá-la para a humanidade.

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Coisas que aprendi com gente como o Padre Paulo Ricardo, o Papa Bento XVI, e com outros formadores que se eu citar arranjo problemas: a naturalidade imensa com que sempre eram capazes de apontar para outros pensadores, maiores e melhores do que eles, e ainda mais facilidade de admitir a ignorância. Quando não sabem de alguma coisa, dizem, simplesmente: não sei, sei lá, nunca estudei isso.

É a fidelidade à verdade, e não ao próprio ego, não a uma imagem de sabichão que tem de sobreviver a todo custo. Quem sabe o que é não tem problemas em admitir o que não é. Infelizmente, há muitos círculos "católicos" em que o líder, o coordenador, o professor, o padre, ou sei lá quem, pode tudo, menos admitir que não sabe alguma coisa.

O "não sei" natural e humilde nunca vem, é sempre substituído por hipóteses alternativas ridículas, que o mestre inventa às pressas, acossado como uma ovelha paralítica e gorda banhada em molho madeira ante o bando de lobos que se aproxima. E aí morrem todos, a ovelha que se deixa devorar na mentira, e os lobos que digerem a falsidade da ovelha, assimilando-a como parte do próprio caráter.

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Existe uma direita estranha, que sente a necessidade como que de redescobrir todos os valores que a Igreja já enumera e defende desde o começo.


Uma direita preguiçosa, de índole reacionária, que sempre deixa seu discurso ser dirigido pelas pautas da revolução, incapaz de produzir cultura, porque incapaz de realmente aderir aos valores universais e eternos.

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Sempre o mesmo erro. Sempre esperando a "esquerda" agir primeiro para depois reagir. E enquanto se reage contra um ataque, eles já estão 2 ou 3 assuntos à frente, sempre nos fazendo lutar onde e como eles querem.

Eles escolhem sempre o campo de batalha, o qual já prepararam nos seus termos, e quando o dinossauro da "direita" enfim se mobiliza para ocupar uma posição segura, descobre que o inimigo já tirou o seu de campo e está pilhando e matando alhures.

É somente assumindo o protagonismo da produção cultural que pode haver alguma esperança de resultado. Porém, todos estão muito ocupados querendo enricar, querendo se envolver, mas não se comprometer, dispostos a dar likes, "mitadas" e ajuda financeira (raramente e com moderação), mas não a comprometer a vida.

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Uma das maiores razões para o sucesso revolucionário é que eles sabem que à sua própria impiedade poderão somar sempre a impiedade da reação conservadora.

Quando os defensores do bem começam a compartilhar todos cheios de zelo apostólico que a solução para o pedófilo é enfiar-lhe uma bala na cabeça ou alguma outra coisa na sua intimidade traseira, a revolução pode dormir tranquila, porque sabe que já trouxe a opinião pública ao menos mais um passo para perto de si.

Quase tudo o que o tal movimento conservador chama de verdadeiro amor e virtude é ódio pior do que o dos chamados homens maus, porque vem disfarçado nas roupagens da guerra santa.

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A direita parte da premissa de que a justiça se realiza deixando os indivíduos em paz para que produzam sua própria riqueza.

A esquerda parte da premissa de que a justiça se realiza distribuindo a riqueza dos indivíduos entre aqueles que estão em necessidade.

Santo Tomás de Aquino diz que a justiça é as duas coisas e mais ainda. Então me desculpem, mas não estou afim de perder muito tempo nem com Marx nem com Mises. Prefiro aprender de alguém que não tora a realidade no meio e escolhe apenas um pedaço.

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O que mais me angustia, diante de Deus, é a inconstância do meu ser. Diante dele, toda a consciência da minha falta de caráter vem à tona. Nu diante de Sua presença, nu e vulnerável diante de um universo tão grande que a mente não é capaz de abarcar...

Então sinto como se fosse cair no abismo entre as galáxias, e ali sumir, e morrer na miséria e no pecado, preso nas minhas contradições para sempre. É o drama com que tenho de lidar todos os dias.

Sim, a realidade de Deus e do cosmo é terrível, a pequenez e mortalidade que carrego me esmaga, parece que quer me afogar, me esticar a ponto de dispersar-me no esquecimento.

Mas então vem ao socorro a Revelação. Na escuridão da noite, brota uma esperança que só pode vir de fora, pois não tenho forças para cultivá-la eu mesmo. Como naquela passagem do "Senhor dos Anéis" em que Sam vislumbra uma estrela distante por entre as fumaças tóxicas da terra do Senhor do Escuro, um sorriso confiante insiste em nascer, noite após noite.

"E apesar de tudo", penso, "Ele me amou e se entregou por Mim". Ele fez o que nenhum de nós seria capaz de fazer. O que, por exemplo, eu mesmo não faria por mim se estivesse em Seu lugar, pois Deus sabe quantas vezes não tenho força sequer para me amar.

E penso nos santos. Penso naquelas pessoas miseráveis, alguns com umas vidas passadas medonhas, assassinos, prostitutas, ladrões, que na hora derradeira em que a morte chega a não há nada que possa fazer para evitá-la, morrem com o rosto impassível, ou então emocionado.

Partem do mundo na certeza de que voarão acima dos abismos do nada e da corrupção para os braços fortes do Carpinteiro, levados por aquele par de mãos chagadas que nunca mais os soltará. E penso "o que é isso? Como é possível, de onde veio essa força, o que se passou na vida deles?" Não será Tu, Senhor Jesus, não serão eles o Teu eloquente testemunho na história?

Não os colocaste entre mim e Ti para que eu, apoiando-me neles como em muletas, pudesse chegar, ferido e cansado, todo arrebentado e sujo, às tuas Casas de Cura, onde enfim tratarás de mim, e já não terei de viver nesta amargura, neste medo e nesta vergonha? Meu Senhor, quando te verei? Quando me será dado descansar do peso dos meus dias? Aproximo-me da morte como do maior dos carrascos, no entanto ela é para os cristãos a porta da felicidade!

E concluo sempre do mesmo modo: vale a pena. Ainda que sejam apenas conjecturas, ainda que seja um tiro no escuro, ainda que todo o mundo diga o contrário, vale a pena. Tão grande, tão bela, tão sublime é a promessa, que vale a pena apostar tudo nela. Pego todas as minhas fichas e novamente aposto no nazareno. Uma luz brilha nas trevas. Não morrerei, mas ao contrário, viverei. E na gloriosa companhia dos santos, enfim poderei descansar, e com as lágrimas das noites mal-dormidas Maria fará lindas jóias com as quais meu Senhor poderá, querendo, adornar-se para as suas festividades.


"Sagrada Família com uma pomba" (Matthys Pool)

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