Sunday, March 25, 2018

As 7 palavras na cruz

“Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34)

Senhor, cada pecado cometido
é feito ignorando seu alcance;
se deles, percebesse as nuances,
nem mesmo poderia ser remido.

Conheces minha condição humana,
mas eu não vejo o Deus a quem ofendo!
Rejeito teu amor –horror tremendo!–,
mas morres de uma morte que me sana.

Sou eu também um pobre deicida,
com cada vil pecado suicida.
Que eu venha, por tua graça, arrepender-me,

ó livra-me da minha insipiência,
infunde teu amor, tua ciência,
que, junto a ti, não possa mais perder-me.


“Eu te asseguro: ainda hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43)

Senhor, que belo roubo é levar
teu coração sagrado, que se doa
a quem se arrepende, e perdoa,
ó rica compaixão a nos guardar!

Ó Cristo, que eu possa possuir
a Graça conquistada a alto preço;
meu Deus, eu sei que eu não a mereço,
mas sei que Tu a queres compartir.

Se eu, Senhor, de ti me afastar,
se, torpe, preferir, à luz, pecar,
que não demore muito a confissão!

Senhor, lembra de mim, não sejas justo!
Não sou digno do teu amor augusto,
mas quero ser também um bom ladrão!


“Mulher, aí está o teu filho... Aí está a tua Mãe” (Jo 19,26)

Ó Virgem, morres junto com teu Filho,
fiel, permaneceste ao pé da cruz.
Recebes o encargo de Jesus:
“sê Mãe dos meus irmãos, sê seu auxílio”.

Que eu possa acolher-te com João,
conduz-me, ó Senhora, pela senda
da cruz. Que teu fervor em mim se acenda,
ajuda-me a ter puro o coração.

Que eu leve o teu Jesus a cada irmão
que ainda não abriu seu coração,
ó Virgem que acompanha os meus passos!

Se no caminho, Mãe, eu me perder,
eu sei que tu virás me socorrer,
e irás me acalentar no teu regaço.


“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46)

Tomaste, ó Senhor, sobre teus ombros,
o peso imensurável dos pecados,
contigo eles são crucificados,
mas tens em tua alma grande assombro:

conheces, sem pecar, a consequência
do mal: ter um espírito vazio,
das coisas de teu Pai, tão arredio...
De Deus, sentiste mesmo a ausência.

Mas eis que o salmo que Tu balbucias
termina anunciando a alegria:
o Pai te salvará da aflição!

Que eu sempre em meus momentos de tormento,
consiga ver além do sofrimento,
e espere, confiante, a salvação! 


“Tenho sede” (Jo 19,28)

Sedento, estás Senhor, por nos salvar
das garras do pecado, da mentira;
amar-nos é o ar que Tu respiras,
remir-nos é o que irá te saciar!

Eu lembro a mulher samaritana,
atenta a teu desejo e disposta
a encontrar em ti toda resposta,
bebendo a água que de ti emana!

Senhor, que eu não te dê os meus pecados
amargos, mas o amor purificado
na água viva do teu coração.

Ó Cristo, fonte pura, cristalina,
sacia a tua sede tão divina
e lava-nos, trazendo a redenção!


“Tudo está consumado” (Jo 19,30)

Na Cruz o universo chega ao fim:
o Deus à criação incorporado,
um mundo hostil, tornou reconciliado,
a cada um restou dizer seu “sim”.

Que possa se cumprir em mim também,
o teu amor, Jesus, meu Redentor,
que, a obra que teu Pai te confiou,
realizou, fazendo tudo bem.

Não seja negligente o meu obrar,
à meta, que eu possa caminhar,
com olhos postos no meu Bom Jesus.

Amando e doando-me aos demais,
sem nada reservar, deixando atrás
o velho proceder, amando a cruz. 


“Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lc 23,46)

A entrega que na cruz tu realizas,
por qual voltas ao Pai, do qual saíste,
por hora, ó Senhor, me deixa triste,
mas nela o teu amor se pereniza!

Do Pai nunca, de fato, te apartaste,
a Ele toda a vida consagrando,
da sua intimidade comungando,
no Espírito –ó Santíssima Trindade!

Criado com a vossa imagem n’alma,
guardado com carinho em vossa palma,
a Vós fui, no batismo, consagrado;

que eu possa entregar meu coração,
na fé, no apostolado e na oração,
e ao fim ver o teu Rosto revelado!


"Crucificação" (c. 1375), de Barnaba da Modena

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