Saturday, February 03, 2018

Royo Marín sobre a santidade cristã (1a parte)

Excertos do livro: ROYO MARÍN, Antonio. Ser ou não ser santo... eis a questão: Compêndio da obra: Teología de la perfección Cristiana. Trad. Ricardo Harada. Campinas: Ecclesiae, 2016.

* * *

PRIMEIRA PARTE: A SANTIDADE EM GERAL

Noção: Em que consiste a santidade? (pp. 21-22)

“A Sagrada Escritura, os Santos Padres, os teólogos e os grandes místicos experimentais propuseram diversas fórmulas, embora todas coincidam substancialmente. As principais são as seguintes:

a) Consiste em nossa plena configuração com Cristo, em nossa plena cristificação. É a fórmula sublime de São Paulo, na qual insiste reiterada e incansavelmente em todas as suas epístolas.

b) Consiste na perfeição da caridade, ou seja, na perfeita união com Deus pelo amor. É a fórmula do Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, no plano estritamente teológico.

c) Consiste em viver de uma maneira cada vez mais plena e experimental o mistério inefável da inabitação trinitária em nossas almas. É o pensamento fundamental de São João da Cruz e de todos os grandes místicos experimentais.

d) Consiste na perfeita identificação e conformidade de nossa vontade humana à vontade de Deus. Assim fala insistentemente Santa Teresa de Jesus.

[...] Todas [as fórmulas] são verdadeiras e expressam a mesma realidade, embora contempladas desde pontos de vista diferentes...”
  
Capítulo I – Chamado universal à santidade (pp. 23-36)

“Existe efetivamente um chamado e uma verdadeira vocação universal à santidade, que afeta e recai sobre cada cristão em particular. [...] se dignou a promulgar essa excelsa vocação o próprio Cristo pessoalmente [...] a todos os discípulos sem exceção:

‘Sede, portanto, perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,48) [...] Essa exigência não é senão uma nova manifestação do primeiro e mais importante mandamento da lei de Deus, que nos obriga a amá-lo ‘com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças’ (Mc 12,30) [...]

O chamado, ou vocação universal à santidade, consta explicitamente no Evangelho [...] A Igreja sempre manteve essa doutrina desde os tempos apostólicos. Porém, nunca a havia proclamado de maneira tão extensa, clara e urgente como em nossos dias, através do Concílio Vaticano II.

O maravilhoso capítulo V da Constituição Lumen gentium – a mais importante do Concílio – está dedicado integralmente à ‘Vocação de todos à santidade na Igreja. [...]

[...] O Concílio insiste nas três principais razões que fundamentam essa vocação [...]:

a) As exigências do batismo, pelo qual se infunde em nós a graça divina como germe ou semente que há de crescer e se desenvolver até sua plena perfeição.
b) O primeiro mandamento da lei de Deus, que nos obriga a ‘amar a Deus com toda a alma e todas nossas forças’, cujo cumprimento perfeito constitui precisamente a santidade ou perfeição cristão.
c) O mandamento explícito de Jesus Cristo de imitar a perfeição ou santidade de seu Pai celestial (Mt 5,48) proposta a todos no sermão da Montanha.

[...]

Trata-se de uma obrigação de tendência, de aspiração, de desejo leal e sincero, e não de conseguir a santidade em um momento determinado de nossa vida”.


Capítulo II – O porquê de tantos fracassos (pp. 39-79).

“O principal obstáculo de ordem natural que é necessário remover para seguir adiante é, sem sombra de dúvida, a falta de energia de caráter.

São legião as almas incapazes de tomar uma resolução enérgica para resolver algum problema difícil que se lhes coloca adiante [...] Onde falta vontade enérgica não há homem perfeito. Para sê-lo, não basta um indolente queria, é preciso chegar a um enérgico quero. [...] Com uma vontade enérgica pode-se chegar à plena possessão de si mesmo, ao domínio e emancipação das paixões, à plena liberação das malsãs influências exteriores. Pouco importa se todos aqueles que lhe rodeiam se afastam do reto caminho; ele seguirá imperturbável sua marcha para o ideal, ainda que fique completamente só. Não há força humana que possa dobrar sua vontade e afastar-lhe do cumprimento do dever: nem castigos, nem ameaças, nem seduções, nem adulações. Morrerá mártir, se preciso, mas não apostatará. [...]

Aqueles que acertem em tomar para si esta muito ‘determinada determinação’, fecundada pela graça de Deus, levarão já em si, em germe e esperança certa, o heroísmo e a santidade”.

A falta de verdadeiro desejo de santidade, segundo obstáculo, quase coincide com o anterior [...]

[...] Tal obstáculo já pertence plenamente à ordem sobrenatural. Ninguém pode possuir um sincero e autêntico desejo de santidade ou perfeição cristã, senão sob a influência imediata da graça.

[...] Para se obter dele toda sua eficácia santificadora, o desejo de perfeição deve possuir as seguintes qualidades:

Deve ser sobrenatural, ou seja, procedente da graça divina e orientado para a maior glória de Deus, fim último e absoluto de nossa próprio existência. O verdadeiro desejo de perfeição já é um grande dom de Deus, o qual devemos pedir-Lhe humilde e perseverantemente, até obtê-lo de Sua divina bondade.

Profundamente humilde, quer dizer, sem jamais apoiá-lo sobre nossas próprias forças [...] Nem devemos aspirar à santidade vendo nela um modo de nos engrandecer, mas unicamente como o meio mais excelente para amar e glorificar a Deus com todas nossas forças.

Sumamente confiado. É o complemento da qualidade anterior. Nada podemos por nós mesmos, mas tudo podemos naquele que nos conforta (Fl 4,13). O Senhor permite que se coloquem diante de nós verdadeiras montanhas de dificuldades precisamente para provar nossa confiança n’Ele. [...]

Predominante, ou seja, mais intenso que qualquer outro. Nada tem razão de bem senão a glória de Deus, e, como meio para ela, nossa própria perfeição. Todos os demais bens devem ser subordinados a esse supremo. É a pérola de grande valor do Evangelho... (Mt 13,46). Ciência, saúde, apostolado, honras..., tudo vale infinitamente menos do que a santidade. ‘Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e Sua justiça e todas as coisas lhes serão dadas por acréscimo’ (Mt 6,33). O desejo de perfeição não pode ser um entre tantos [...] Tem de ser o desejo fundamental e dominante de toda nossa vida. [...] ‘Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus’ (Cl 3,3). Por não se decidirem totalmente a isso e andar aos tropeços entre as coisas de Deus e as do mundo, fracassam tantas almas no caminho de sua santificação.

Constante e progressivo. Há muitas almas que sob a influência de algum acontecimento de sua vida (ao sair de uns exercícios espirituais, ao receber as ordens sagradas ou ao entrar na religião, etc.) têm uma grande arrancada. Mas muito prontamente se cansam ao experimentar as primeiras dificuldades e abandonam o caminho da perfeição ou deixam esfriar ao menos o desejo ardente que possuíam. Às vezes se permitem férias [...] com o pretexto de ‘respirar um pouco’ e recuperar as forças da alma. É um grande equívoco. A alma não só não recupera a força, senão que, pelo contrário, enfraquece e se debilita extraordinariamente. [...] Tudo isto poderia ser evitado se o desejo de perfeição se impusesse sempre de maneira constante e progressiva – sem violência nem extremismos, embora sem desfalecimentos nem fraquezas – impedindo-lhe a alma essas férias espirituais que lhe custarão caro depois.

Prático e eficaz. Não se trata de um quisera, mas de um quero, que há de se traduzir eficazmente na prática, dispondo hic et nunc de todos os meios a nosso alcance para conseguir a perfeição a todo custo. [...]

[...] Os meios mais importantes para avivar em nós o desejo eficaz da perfeição e da mais elevada santidade. São estes:

I. Pedi-lo incessantemente a Deus.

[...] Para que a oração resulte infalivelmente eficaz segundo a promessa evangélica deve reunir as seguintes condições indispensáveis:
i) Há de ser humilde.
ii) Confiante.
iii) Perseverante

II. Renovar com frequência o desejo de santidade.

III. Meditar com frequência nos motivos para querer a santidade. Eis aqui os principais:

i) Temos a obrigação estrita de aspirar à perfeição em virtude da vocação universal à sanidade [...]
ii) É o maior dos bens que podemos alcançar nesta vida. Em comparação a eles, são como ‘esterco e lixo’ todos os bens deste mundo (Fl 3,8).
iii) A perfeita imitação de Jesus Cristo, que nos amou até derramar todo o seu sangue por nós, exige a máxima correspondência e o máximo esforço de nossa parte: amor com amor se paga. A visão de Jesus Cristo crucificado deveria ser o incentivo mais nobre e eficaz par anos impulsionar à mais alta santidade.

Outra das razões que explicam com maior clareza o rotundo fracasso de tantos aspirantes à perfeição ou santidade cristã, diz respeito à direção espiritual, seja porque careceram totalmente dela ou porque a receberam de maneira equivocada ou deficiente. [...]

A direção espiritual consiste ou tem por objeto assinalar às almas o verdadeiro caminho que devem percorrer progressivamente, desde o começo da vida espiritual até os cumes mais elevados da união íntima com Deus. Quem deve percorrer o caminho é a alma – indubitavelmente –, mas cabe ao diretor traçar-lhe a rota a ser seguida em cada momento da vida espiritual. [...]

A direção deve começar imediatamente quando a alma, sob o impulso da graça divina, se decide a empreender o caminho da perfeição cristã. Em todas as etapas desse caminho há uma infinidade de obstáculos e dificuldades que não poderão ser superados sem a vigilância e ajuda de um experiente diretor espiritual, segundo a providência ordinária de Deus.

[...]

Segundo o testemunho da Tradição, a direção espiritual é moralmente necessária para alcançar a perfeição cristã. [...]

‘Segue o conselho dos prudentes e não desprezes nenhum bom conselho’ (Tb 4,18).

[...] Em geral, ninguém é bom juiz de si mesmo, ainda que pressuposta a máxima sinceridade e boa fé. [...]

Não obstante, [...] a necessidade de um diretor espiritual não é absoluta ou indispensável para todos. Ás vezes, as condições nas quais vive uma alma impedem-na de ter uma direção espiritual conveniente [...] Nesses casos, Deus suprirá com suas inspirações internas a falta involuntária de um guia exterior idôneo. Mas a direção se faz indispensável – segundo a providência ordinária de Deus – para todo aquele que possa facilmente obtê-la. Nada mais oposto ao espírito do cristianismo e à natureza mesma da Igreja – na qual o ensinamento e o governo se realizam por meio da autoridade – do que buscar a regra de vida em si mesmo. Tal foi o erro dos protestantes, que abriram a porta aos excessos do livre exame e do mais desenfreado iluminismo.

[...]

Mesmo que não se possa estabelecer uma lei absoluta e universal, ordinariamente deve-se dizer que o diretor espiritual deve ser sacerdote. É conveniente que o seja pelas seguintes razões:

a) Pela economia geral de ordem sobrenatural, que reservou ao sacerdote o papel de mestre.
b) Pela íntima conexão – às vezes fusão – com o ofício de confessor.
c) Pela graça do estado sacerdotal...

[...] O diretor espiritual deve ser sábio, discreto e experimentado [qualidades técnicas].

As principais qualidades morais são as seguintes:

i) Intensa piedade
ii) Zelo ardente pela santificação das almas
iii) Grande bondade e suavidade de caráter
iv) Profunda humildade
v) Profundo desinteresse e desprendimento

[...]

O dirigido tem deveres em relação à própria direção:

i) Plena sinceridade e abertura de coração
ii) Plena docilidade e obediência
iii) Perseverança

O dirigido deve ter qualidades em relação ao diretor:

i) Respeito
ii) Confiança
iii) Amor sobrenatural

[...]

[...] A escolha do diretor deve se fazer de acordo com as seguintes normas:

1ª Pedir a Deus em orações as luzes necessárias [...]

2ª Examinar quem está adornado de maior prudência, bondade e caridade entre todos os sacerdotes que podemos escolher livremente.

3ª É preciso evitar que tomem parte nesta escolha as simpatias naturais ou, ao menos, que sejam elas as que decima como razão única ou principal. Embora tampouco convenha escolher aquele que nos inspira antipatia ou repugnância natural, já que isto tornaria muito difícil a confiança e abertura de coração, absolutamente indispensável para a eficácia da direção.

4ª Não lhe propor imediatamente que seja nosso diretor. Convém provar durante uma temporada por experiência se é ele quem necessitamos para nosso adiantamento espiritual.

5ª Em igualdade de circunstâncias, escolher o mais santo para os casos ordinários, e o mais sábio para os extraordinários, como se infere da doutrina de Santa Teresa de Jesus.


6ª Uma vez feita a escolha, não trocar facilmente de diretor por razões fúteis ou inconsistentes. A troca de diretor se imporá como necessária ou aconselhável se houvesse razões importantes para tal. Por exemplo, se fomenta nossa vaidade, se tolera facilmente nossas faltas e defeitos, se é afeito a misturar com a direção conversas frívolas ou de simples curiosidade, ou totalmente alheias ao assunto tratado, etc., etc. Ou também se nos impusesse cargas superiores a nosso próprio estado; ou quisesse nos atar com votos ou promessas de não consultar com nenhum outro diretor as coisas de nossa alma, o que seria um abuso intolerável contra a liberdade do dirigido que, de nenhum modo deveria ser aceito por ele”.


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