Friday, January 12, 2018

Sobre a intelecção

Em gnosiologia, os filósofos cristãos se debatem entre a "iluminação" agostiniana ou a "abstração" aristotélico-tomasiana.

Algo que é preciso ter em mente é que estas teses supostamente alternativas são "teorias", isto é, não são noções evidentes, mas "metafísicas da intelecção", que pretendem dar conta do que não está presente diretamente na intelecção, mas que é a "condição de possibilidade" desta.

Ninguém "vê" o intelecto agente em ação -nem Tomás nem Aristóteles viram ordinariamente; se este fosse visto, isto seria realizado por uma instância intelectiva mais profunda e mais íntima, a qual, por sua vez, não seria ela mesma vista -mas inferida por reflexão-, ou então, seríamos Deus, cuja Inteligência Absoluta é absolutamente transparente.

Ninguém "ativa" o intelecto agente, porque se isto fosse feito, então a intelecção primordial seria movida pela vontade, e a volição seria o ato humano originário; mas a volição, para ser considerada ato "humano", e não mero desejo sensível, é movida pelo bem inteligível que é visto pela inteligência! O que a volição move é a apreciação lógico-racional do "ser" percebido; move quer especulativamente (pela razão teórica), quer moralmente (pela razão prática).

Da mesma forma, ninguém vê a "Iluminação" Divina -que para Agostinho é uma Ação ordinária do âmbito da Conservação Divina, e não a Luz sobrenatural da mística em sentido estrito -; quem o visse seria Deus ou estaria deificado.

O que se "vê", num ou noutro caso, é que os nossos juízos são (formalmente) precedidos de uma "presença" da verdade inteligível em nossa mente, e que esta é antecedida (formalmente) pela presença de dados sensíveis: "abstração do intelecto agente" e "Iluminação Divina" são duas teorias para explicar porque a verdade inteligível ("universal") está na mente e pode ser afirmada, seja da coisa sensível que é considerada, seja em outros termos, como, por exemplo, na especulação lógica ou matemática.

Xavier Zubiri, filósofo cristão contemporâneo, buscou fazer uma descrição fenomenológica da intelecção, sem pressupor as faculdades que não estão diretamente presentes nos atos intelectivos concretos. Assim, ele apresentou a inteligência nem como abstração do intelecto agente, nem como iluminação, mas como "apreensão senciente da realidade": nós não temos -excluindo a vida mística estrita- a experiência de intelecções "separadas" dos nossos sentires, mas toda intelecção (ordinária) é senciente, da simples apreensão de uma definição nominal ("cachorro"), passando por descrições de circunstâncias que conjugam uma séria de definições e proposições, até as grandes teorias científicas ou filosóficas, que esboçam e testam modelos sobre a realidade que não são evidentes para todos.

Não é que o conteúdo sensível seja o objeto formal da intelecção, mas é que não há (ordinariamente) intelecção que não remeta às imagens sensíveis (como, de resto, ensinava Tomás); o objeto formal da intelecção é, segundo Zubiri, o caráter "real" de tal conteúdo sensível, dele distinto, embora inseparável. Este caráter real é a "formalidade" ou "modo de ficar" na impressão sensível que consiste em estar aí como algo "de si mesmo", e não como produto da inteleção. O que a intelecção "produz" é o "conceito" da coisa real presente, que será tanto mais verdadeiro quanto mais se aproxime da experiência intelectiva da presença daquilo que Zubiri chama "verdade real", ou a mera "atualidade" da realidade na inteligência; a intelecção é, em termos mais completos, a "co-atualidade" da realidade na inteligência e da inteligência na realidade.

Agostinho e Tomás pretendiam explicar a causa (metafísica) da presença da verdade na inteligência, a qual, por sua vez, é causa de nossos juízos e raciocínios; Zubiri pretende descrever o que é essa presença da verdade. Os dois primeiros pressupõem a metafísica das Ideias ou do hilemorfismo, ao passo que o filósofo espanhol não pressupõe uma teoria metafísica, mas tenta encontrar, de acordo com a perspectiva filosófica contemporânea, no interior do ato intelectivo, a raiz de toda e qualquer  afirmação ou teoria: esta é a formalidade do de suyo ou de "realidade". 

Uma "forma abstraída" (Tomás) ou o "reflexo de uma Ideia/Razão Eterna" (Agostinho) seriam, em termos zubirianos, conceitos mais elaborados a respeito da "mera presença" na mente da "realidade em sua propriedade". O que o autor basco pretende, assim, é superar desde dentro a crítica kantiana, mostrando que nossas sensações não são matéria "caótica" ordenada subjetivamente, mas que elas se apresentam e são percebidas -a intelecção é para Zubiri um "dar-se conta do que está presente", nem é mero dar-se conta criativo nem mera passividade receptiva- em seu ser ou realidade próprios. 

No fundo, o que Zubiri quer nos dizer é que os conceitos, juízos e teorias não repousam sobre si mesmos. Não se trata de dizer que há uma primeira intelecção cronológica sem conceito ou juízo (não é este o significado da "apreensão primordial de realidade", embora uma alma contemplativa possa "parar-se" na apreciação de uma paisagem ou obra de arte, por exemplo), mas que estes não se apoiam sobre uma atividade absolutamente criadora da linguagem e da razão: logos e ratio constituem-se sobre a presença fundante do de suyo das coisas sensíveis, ainda que muitas vezes seus conteúdos reais sejam transcurados e transformados em "matéria-prima" para uma atividade demiúrgica do pensamento, a qual, precisamente, representa a perspectiva gnosiológica moderna, que tem como paradigma a atividade científica empírico-matemática.

Mas quem está certo sobre o fundamento metafísico "além da apreensão" (em termos zubirianos) desta presença do de suyo? Agostinho ou Tomás? Iluminação ou abstração?

É possível coadunar as duas metafísicas, a das Ideias Eternas e a das formas imanentes nas coisas sensíveis de modo a que ambos estejam certos. A inteligência senciente apreende um conteúdo sensível que tem em si sua verdade essencial, a qual vem "à luz" e se mostra na inteligência por uma atividade do espírito humano (nous) ilustrada pelo Verbo que "ilumina todo homem" (Jo 1,9).

Se o mundo afastou-se da Verdade Encarnada, suas verdades científicas, políticas ou econômicas estão amputadas da dimensão metafísica que tem toda realidade sensível, e o homem moderno não pode mais se elevar do de suyo relativo à Realidade Absolutamente Absoluta, do reflexo à Luz Incriada, da forma inteligível à Inteligência Divina.

"Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo" (Ap 3,20).


"A Luz do Mundo (1853-54)", de William Holman Hunt

No comments: