Tuesday, January 16, 2018

Realidade, Religação, Criação

Nele vivemos, nos movemos e existimos (At 17,28).

De seu seio jorrarão rios de água viva (Jo 7,38).


No meu artigo acadêmico A religação do homem a Deus em Xavier Zubiri e Tomás de Aquino eu defendi a tese de que a "relação criatural" de Tomás e dos escolásticos e a "religação" zubiriana constituem a mesma realidade, o vínculo metafísico inseparável entre Deus e as criaturas ou entes finitos, e que esta realidade seria, nos termos da filosofia clássica da "relação", e de acordo com Tomás (seguindo alguns intérpretes e realizando minha própria argumentação), uma "relação categorial", ainda que inseparável da criatura, e não uma "relação transcendental".

Basicamente, a razão é que a relação criatural se estabelece entre a criatura já "feita", com sua essência própria, cuja razão de ser é "ser tal coisa", e não ser "criatura", e Deus; a relação entre a criatura enquanto já existe como tal essência e o Criador é algo inseparável do ente criado, mas se apoia, por assim dizer, na essência criada, não é tal essência. Uma "relação transcendental", para esclarecimento, é aquela que há, de modo geral, entre dois co-princípios inseparáveis dentro de uma mesma realidade, como a relação da potência ao ato, ou da matéria à forma, por exemplo. 

Nas minhas releituras sobre o tema, deparei-me com a seguinte passagem, do livro Creación, signo y verdad: Metafísica de la relación en Tomás de Aquino, do Professor Juan Cruz Cruz (livro que me serviu precisamente para estabelecer minha interpretação acima!), que cita o grande filósofo tomista João de Santo Tomás:

3. Tem, pois, sentido afirmar que a relação criatural se fundamenta na própria criatura enquanto já existente e enquanto derivada, em seu ser, de Deus; e assim tal relação é acidental a respeito da essência; entretanto, o próprio ser feito e a própria existência se chamam relativos não-puros ou transcendentais [nota: 'não-puro' por não se tratar de uma 'relação' em sentido estrito, categorial], porque são criados e participados de Deus, e assim fundamentam aquela relação acidental. "E por este motivo, a criatura mostra uma ordem intrínseca a Deus, como todo efeito a sua causa: porque ao se referir a esta [Causa Divina] sob a razão de estrita 'causa' e não sob a razão de puro 'termo', orienta-se não como uma relação categorial, a qual é pura, senão como uma relação não-pura ou transcendental" (JOANNES A SANCTO THOMA, "De creatione rerum", em Cursus Theologicus, disp. 38 a2). 

Na continuidade, há uma afirmação sobre a "existência" (como "predicado da essência") que geraria novos problemas, nos quais não quero me meter. Basta o que foi citado, para concluir que a "relação criatural", ou a "religação", portanto, "se diz de dois modos". Vejamo-los.

A primeira inclinação talvez seja a de pensar, a partir da leitura do texto mencionado acima (de Juan Cruz Cruz com a citação de João de Santo Tomás), que, em termos zubirianos, tratar-se-ia de considerar a religação/relação criatural, por um lado, quanto à "transcendentalidade", e, por outro, quanto à "talidade" (de tal realidade), ou ainda, quanto à "respectividade mundanal" (das "realidades enquanto realidades") e à "respectividade cósmica" (das "realidades enquanto tais realidades"). Porém, a distinção entre o "transcendental" e o "talitativo", em Zubiri, é uma distinção dentro da constituição da coisa real concreta, que é simultaneamente real tal realidade; em termos tomasianos, isto corresponderia a um tratamento do ente existente concreto que  participa do ser simultaneamente através da existência pela qual ele é e da essência que ele é. Para explicar a distinção entre a religação transcendental e a religação categorial inseparável, não devemos pensar, em termos tomasianos, na distinção real que há, dentro da essência existente concreta, entre o "ato de ser" e a "essência" (que não são "duas coisas" e cuja distinção não é a que há entre a essência considerada logicamente e a essência existindo realmente); o que realmente é decisivo, na citação acima, para a conceituação que busco, é a consideração da criatura como "já existente"; em termos zubirianos, tratar-se-ia da distinção entre a realidade e a realidade sendo ou entre realidade e "ser" como "primeira atualidade da realidade" (o qual não é o esse tomasiano, mas a "presença no mundo" daquilo que é de suyo). Esta distinção não está trabalhada explicitamente na filosofia aristotélico-tomista, mas me parece que é a ela que alude a distinção entre religação transcendental e religação categorial inseparável; ela não é uma distinção entre a "existência" criada considerada uma "coisa" separada das essências concretas (como uma primeira criatura "cronológica") e tais essências que delimitam o "ser", mas uma distinção entre a "essência existente" enquanto ela é permanentemente "mantida no ser" (enquanto o "ser" é a prima rerum creaturarum do Liber de causis como explicado por Tomás, isto é, como "o primeiro criado no ente") e enquanto ela, já sendo, desenvolve ou desdobra o ser essencial que é, rumo a sua entelequia, em direção à sua causa final. 

Uma, pois, é a consideração que deve ser feita em relação à coisa "já" existente ou já "real" (Zubiri), enquanto ela "se realiza" na realidade e, em última instância, em Deus, que é a perspectiva de Zubiri quando fala da "fundamentalidade da realidade" ou de "como o homem se realiza em suas ações" (cf. El hombre y Dios, cap. 2); tal é uma relação categorial inseparável, como eu havia conceituado no meu artigo acima. Em termos zubirianos, trata-se da religação no que diz respeito à realização da realidade que já se é, mas que ainda deve ser concluída, por assim dizer, ou seja, trata-se da realidade sendo ou do "ser"  (zubiriano). Esta é uma religação ao poder do real e a seu Fundamento, Deus, para o "incremento" das coisas reais ou, mais especificamente, da pessoa humana.

Outra é a consideração que deve ser feita em relação à coisa existente ou real enquanto ela é simplesmente real ou existente: desde esta perspectiva, que é a que se revela quando Zubiri explica o Fundamento do poder do real religante como Deus doador e fonte de realidade, podemos dizer que temos uma "relação transcendental" entre o Fundamento Criador e o poder do real que reifica as criaturas e nelas está presente como reflexo da presença fontanal divina. Deste modo, a relação transcendental não precisa ser compreendida apenas como a que há entre dois co-princípios de uma mesma realidade: Deus e o mundo são certamente distintos, e esta relação, que não apenas é inseparável, mas que constitui o mundo real qual mundo real, deve ser dita "transcendental" sem que isto implique que o mundo é "divino" ou "parte" da Realidade Divina (sem qualquer panteísmo ou panenteísmo). A questão é que toda a realidade do criado só é em Deus; não é preciso que o sujeito da relação transcendental, neste caso, o mundo enquanto efetuado/causado em seu ser (em termos clássicos) ou fundamentado no poder do real (Zubiri), seja "uma" (numeral) realidade com sua Causa Transcendente; ele não é uma Relação Subsistente a Deus como são as Pessoas Divinas do Filho e do Espírito Santo, originadas eternamente do Pai, mas é uma realidade que só subsiste porque recebeu todo o seu ser criado de Deus, ainda que como outra realidade. 

Então haveríamos que distinguir a "conservação no ser" como "criação continuada" ou enquanto "religação transcendental" da criatura ao Criador, e o "crescimento no ser", enquanto "religação categorial inseparável". Deste modo, a "religação" ao poder do real e a Deus ou a "relação criatural" seria, no âmbito "operativo" ou da "realização", por assim dizer, uma "relação categorial inseparável" da coisa real, uma "respectividade remetente" fundada em sua essência ou "respectividade constituinte" (como expliquei no meu artigo). No âmbito "entitativo" ou da "realidade enquanto tal", a essência da religação/relação criatural, que é a a "participação do ser" ou a "fontanalidade divina"/"tensão teologal", pela qual Deus faz as coisas reais serem de suyo (cf. El hombre y Dios, p. 177), seria efetivamente uma "relação transcendental".

São distinções sutis, mas me parecem que fazem justiça ao problema. Eu teria que reescrever algumas partes do artigo acima, e também modificar alguns trechos de outros escritos que tangeciam o tema, mas, por ora, e se isto não me for possível depois, sirva este breve escrito como uma retratação. Ela vai ao encontro também do que diz o próprio Zubiri no artigo "Respectividad de lo real" (os grifos são meus):

Citemos para terminar, la relación de las criaturas con el creador. Una es la entidad de la criatura, otra la entidad de Dios. La creación es una relación de dependencia de la criatura a Dios. Esta dependencia es, pues, relación. Pero es transcendental porque no presupone la entidad de las criaturas, sino que la constituye. Ser criatura es ciertamente ser, pero ser no siendo Dios (que es el Ser mismo) y por consiguiente ser sólo dependiendo {22} constitutivamente y entitativamente de Dios. Ser criatura es ser ad Deum. La entidad de la creación no es sino la entidad misma de lo creado.

Outros testemunhos a respeito da relação criatura-Criador ou da religação como "relação transcendental":

[...] Tomás de Aquino empreende uma "terceira navegação" no alto mar da Metafísica, avançando além da inteligibilidade da essência e fundamentando a consistência ontológica do ser finito na inteligibilidade fontal do esse ou do ato de existir. Nessa perspectiva, o esse finito é posto como termo primeiro da relação de causalidade pela qual o ser finito depende do Ser infinito, o esse do Esse. A inteligibilidade do esse finito situa-se inteiramente no âmbito dessa relação que pode ser dita, num sentido original e único, relação transcendental (LIMA VAZ, Henrique C. de. Raízes da modernidade. São Paulo: Loyola, 2002, p. 153; grifos do original).

[...] Todo el universo de participación en el ser se revela, en efecto, como radicalmente fundado en el “Esse imparticipatum” -Causa primera y trascendente- que sostiene, arrancando de la nada, en su ser y obrar duraderos, a todo cuanto participa en el “esse”. El orden de participación en el ser se identifica, pues, con la relación de absoluta dependencia a Dios creador que lo constituye (aunque la advertencia de esta respectividad religante al Ser imparticipado sea noéticamente consecutiva al descubrimiento intelectual del orden respectivo e intramundano de participación finita en el ser).
[...]
La conexión operativa propia de la causalidad extrínseca, se funda en última instancia, en la constitutiva respectividad del orden de participación en el esse, sostenido por una absoluta relación trascendental de dependencia al Ser imparticipado (FERRER ARELLANO, Joaquín. Evolucion de la teoria de la respectividad en el pensamiento personalista de Zubiri).

A doutrina cristã chama esta singular relação entre Deus e o mundo de condição criada do mundo, sua criaturidade, o permanente estar-dado-a-si-mesmo do mundo mediante o livre estabelecimento da parte do Deus pessoal. Este estabelecer da parte de Deus não pressupõe, pois, um material pré-dado e, neste sentido, é "do nada". Criação "do nada" no fundo quer dizer: criação totalmente a partir de Deus [nota: a partir do seu Poder ou Potência Ativa, e não como uma "emanação"], mas de tal sorte que nessa criação o mundo seja radicalmente dependente de Deus, e Deus não se torne dependente do mundo, mas pelo contrário, permaneça livre com referência ao mundo e fundado em si mesmo. Onde quer venhamos a encontrar a relação causal de natureza categorial e intramundana, o efeito é por definição dependente de sua causa, mas esta causa é por sua vez de maneira singular dependente do seu efeito, pois não pode ser tal causa sem causar tal efeito. Ora, isso não ocorre no caso da relação entre Deus e a criatura, pois de outra forma Deus seria um elemento no âmbito de nossa experiência categorial e não o Aonde infinitamente distante da transcendência, em cujo interior compreedemos a realidade finita singular.
O próprio Deus é quem estabelece a criatura e a distinção dela com referência a si. Mas, pelo fato mesmo de Deus estabelecer a criatura e sua distinção com referência a si, a criatura é realidade genuína e distinta de Deus e não mera aparência por detrás da qual se esconde Deus e sua realidade. [...]
[...] quando refletimos sobre a peculiar relação trasncendental entre Deus e a criatura [nota: a relação transcendental real é a que há na direção criatura-Deus; o autor se expressa de modo impreciso], fica claro para nós que aí genuína realidade e radical dependência cosntituem simplesmente aspectos de uma só e mesma realidade [...] Nós e as realidades existentes do nosso mundo existimos real e verdadeiramente e somos distintos de Deus não apesar, mas por causa de sermos estabelecidos no ser por Deus e não por outra realidade qualquer (RAHNER, Karl. Curso Fundamental da Fé. São Paulo: Paulus, 1989, pp. 99-100; grifo meu).

O "inseparável" da religação categorial inseparável pende precisamente de seu fundamento (do fundamento desta religação categorial), que é a religação transcendental! Agora, estas distinções metafísicas sutis têm algum significado existencial ou religioso? Pois tem! Vejamo-lo.

A religação categorial, no âmbito operativo, é a condição, em todos os casos, da realização do ser da realidade humana [e de toda coisa real], em qualquer direção (que pode levar a uma cada vez maior personalização ou não...); mas o tomar consciência desta condição, ou o reconhecer a dependência ontológica de Deus, o reconhecer a fontanalidade divina, é precisamente viver a religação como "religião", que sabe explicitamente da dependência no âmbito do "ser" (do de suyo), e se entrega, na Fé, ao Fundamento, aceitando formalmente esta dependência, vivendo "dentro", por assim dizer, do âmbito da religação transcendental, no âmbito da aceitação da doação divina do ser/da gratidão e devolução do ser a Deus, no recinto da particação do ser/participação no Ser (cf. 2Pe 1,4): "Quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna" (Jo 4,14).



"A criação do mundo" (c. 1378) de Giusto de' Menabuoi

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