Sunday, August 06, 2017

Visões sobre a Trindade

A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós! (2Cor 13,13)

Emítte Spíritum tuum et creabúntur. Et renovábis fáciem terrae.

Qui ex Patre Filioque procedit.



Visão teológica de uma visão mística. 

Para a glória de Deus e o bem das almas. 

Ao juízo da Igreja católica, “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15).


A visão primordial e a cegueira que se seguiu

Eu conheci uma pessoa que, há 10 anos, na Solenidade da Santíssima Trindade, foi arrebatada pelo Espírito, e viu o Céu se abrir, e, no Céu, Três Tronos de Glória representando a Trindade: eram Três Sóis, um Maior e outros Dois, um Menor e um Médio, em volta do Maior; e ela percebeu inefavelmente [não pelo ouvido ou sonoramente, mas direta e imediatamente em seu espírito], entre tantas outras, as seguintes palavras: "o Pai, o Filho e o Neto".

O excesso de luz para uma inteligência criada deixou a pessoa perturbada por algum tempo, e ela adormeceu na obscuridade (desconsolada, ela chegou a duvidar do que vira e ouvira), até finalmente recobrar sua saúde, com novas luzes e cruzes.

* * *

Por muito tempo, eu me perguntei se era lícito difundir tais palavras, e entendi que só poderia fazê-lo quando as tivesse compreendido à luz das Escrituras e da Tradição. Eu testifico que são verídicas, e não as divulgaria se não me houvessem sido comunicadas fidedignamente.

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A visão do visto na Palavra de Deus e na Tradição (sistema de referência e esboço da Doutrina teológica)

Até que a graça de Deus me ajudou a visualizar as razões daquelas palavras na Palavra, e vi que elas seriam muito proveitosas para a vida da fé: se o Filho é imagem do Pai (Cl 1,15), como não seria pai também? Como conheceríamos o amor paternal de Deus (cf. Jo 1,18) se Jesus não o tivesse exercido? Jesus não apenas fala do Pai, Ele o patenteia (Jo 14,9), Ele nos ama paternalmente (cf. Mt 23,37). Além disso, se Jesus é o "Esposo" (cf. Jo 3,29), como não seria pai? Não é o sacerdote, alter Christus,  chamado “padre”, isto é, “pai”? Nem é estranho que Cristo seja assim nomeado na Tradição, como nestes versos de S. José de Anchieta: “Nosso verdadeiro pai, Jesus, / doador de nossa vida” (Cantiga por “El sin ventura”; grifo meu).

Se a missão do Espírito é nos conduzir à adoção filial, se Ele nos faz filhos (cf. Rm 8,14-16), como não seria filho também? Como saberíamos o que é ser filho de Deus, se não fosse pelo Espírito filial que habita no nosso espírito, e se faz um com ele, para nos fazer clamar "Abba!"? "A familiaridade com Deus se mantém por obra do Espírito Santo" (S. Basílio de Cesareia, Tratado sobre o Espírito Santo, n. 49). Assim como o Espírito é Deus por nos deificar, como viram os padres gregos, é filho porque o modo como nos santifica é fazendo-nos "filhos" (no Filho). Santa Elisabete da Trindade ensina que o Espírito "opera como que uma encarnação do Verbo" (cf. Elisabete da Trindade, Elevação à Santíssima Trindade); e Bento XVI diz que “o Espírito é aquela força interior que harmoniza seus [dos crentes] corações com o coração de Cristo” (Deus Caritas est, n. 19).

Como diz o profeta Isaías, "tal ocorre com a Palavra que sai da minha boca: ela não torna a mim sem Fruto" (Is 55,11): o "Fruto" é o Espírito que volta a Deus mediante o Verbo. Também aparece a imagem do "fruto" no santo bispo de Hipona, numa das analogias que traça entre a Trindade e a alma: o Pai corresponde a nossa memória, "que retém as realidades inteligíveis", o Verbo corresponde à inteligência, "informada pela atenção do pensamento no conteúdo da memória", e o Espírito corresponde ao amor, que é "fruto do conhecimento" (cf. Santo Agostinho. A Trindade, Livro XV, cap. 23, n. 43), e que "enlaça memória e forma" (cf. Ibid., L. XIV, c. 6, n. 8b). O Espírito é "fruto" do Verbo, isto é, sua prole.

O Espírito é o Espírito de Cristo/do Filho, e é Espírito do Pai (cf. Rm 8,9; Dominum et Vivificantem, n. 14). Procede do Pai e do Filho, do Pai pelo Filho. O Espírito “se chama Espírito do Filho porque recebe a essência d’Ele" (Fray Luís de León, Lecciones sobre el Libro I de Las Sentencias). O Pai doa seu Ser ao Filho (cf. Jo 3,35.26), o Filho doa o Espírito de seu seio (cf. Jo 7,37-39) e pelo seu sopro (cf. Jo 20,22); é "portador dele para os outros" (Dominum et Vivificantem, n. 16). O Pai envia o Filho (cf. Jo 20,21), o Filho envia o Espírito (cf. Jo 15,26; Jo 16,7). O Espírito “recebe o ser deste [do Filho] e recebe deste o que nos anuncia” (S. Basílio, Contra Eunomium III, apud Fray Luís de León, op. cit.). O Espírito “surgiu desde o Filho” (S. Cirilo, Epístola a Nestório aprovada pelo Papa Leão Magno, apud Fray Luís de León, op. cit.).


A visão das razões teológicas da visão (“prova”)

Depois, a oração, o estudo e a reflexão iluminada pela fé, ou o estudo orante, conduziram-me a ver mais compreensivamente aquelas palavras implícitas nas Escrituras, na Tradição e no Magistério, como se segue.

O Espírito é Deus como o Pai e o Filho, tem a mesma Essência Divina. Sabemos que Deus é a Vida (cf. Sl 36,10), e uma essência ou natureza viva se transmite por geração; como o Filho é "o Único" do Pai (cf. Jo 1,18) e "o Gerado" pelo Pai (cf. 1Jo 5,18), o Espírito só pode ser o Neto gerado pelo Filho, que d’Ele recebe a Vida que procede do Pai, Vida esta que é a própria Divindade. O Paráclito procede eternamente do Pai, que é sua causa ou princípio formal "remoto", e eternamente do Filho, que é sua causa ou princípio formal "próximo" (cf. Concílio Ecumênico de Florença, de 1438-1445, Decreto para os gregos). O "remoto" e o "próximo" são conceituações inadequadíssimas (já que não há "distância" espacial ou temporal), não presentes no texto do Concílio aludido, apenas para ensejar uma imagem, também inadequadíssima, que ajude a entender precariamente as processões divinas à luz da visão. A "primeira" (em sentido lógico) e a "segunda" gerações são coeternas, e as Três Pessoas são igualmente Incriadas: "Nunca o Pai foi sem o Filho, nunca o Filho sem o Pai, nunca o Pai e o Filho foram sem o Espírito Santo" (S. Leão Magno, Segundo Sermão de Pentecostes). E a coincidência eterna de ambas gerações é a "espiração"; é "como se" o Pai, no mesmo eterno ato em que gera o Filho, recebesse o Espírito "de volta": "o Espírito Santo procede eternamente do Pai e do Filho, e do Pai juntamente e do Filho tem sua essência e seu ser subsistente, e de um e de outro procede eternamente como de um só princípio, e por única espiração" (Concílio de Florença, Decreto para os gregos). A Gratuidade eterna do Pai gerando eternamente o Filho é a fonte da Gratidão eterna do Filho devolvendo (gerando) eternamente o Espírito; o Espírito é a “coincidência” eterna da Gratuidade e da Gratidão; por isso comumente se associa a graça de Deus ao Santificador. O Pai é fons et origo totius Trinitatis; Ele é, por assim dizer, a fonte “primordial” do Espírito, mas o Filho também é fonte, porque tudo no interior da Trindade é eterno.

O Espírito Santo é o "amor do Pai e do Filho" (cf. S.Th. I, q.37, a.2; e a oração do Cardeal Verdier), Ele é a "Pessoa-Dom" (cf. S.Th. I, q. 38, a.1; São João Paulo II, Dominum et Vivificantem, n. 10). O Espírito, como diz um sábio oriental, é “como um certo amor do Pai para o Verbo misteriosamente gerado; e é o próprio amor que o amadíssimo Verbo e Filho do Pai tem Àquele que O gerou” (Gregório Palamas, Capita Physica, 36; apud São João Paulo II, Catequese de 14/11/1990). Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) ensina: “Quando o Filho e o Pai amam um ao outro, então seu presentear-se é igualmente um ato da Pessoa do Amor. Podemos dizer, portanto, que no envio do Espírito, o próprio Espírito já coatua. Assim como não é possível nenhum ato da deidade que não seja igualmente ato das Três Pessoas” (Geistliche Texte II). Que maior dom um filho pode entregar ao pai que um neto?! Que maior alegria um pai pode ter do que ver o filho de seu filho?! O neto é o fruto mais precioso para o Patriarca da família, porque é a prova da fecundidade de sua geração! – disto decorrem os "dons" (cf. Is 11,2) e os "frutos" (cf. Gl 5,22-23) do Espírito. A ideia teológica mais próxima disto foi estabelecida por Ricardo de São Vítor, para o qual, nas palavras do teólogo Lucas F. Mateo-Seco, “o Espírito Santo é apresentado então não como o nexo que une o Pai e o Filho, senão como o amigo condilectus. Não é o amor existente entre os dois, senão o amigo comum” (Mateo-Seco. Dios Uno y Trino. 3ª ed. Pamplona: EUNSA, 2008, p. 571; cf. Ricardo de São Vítor, De Trinitate, 3, 19-20). O Espírito, Neto, carrega o nome do Pai, "Santo", e o leva adiante fazendo-nos santos. De modo inspirado, afirma o Pe. Cantalamessa:  “Na Trindade, só o Espírito Santo é que, de fato, tem um nome comum a todas as três pessoas divinas (em Deus tudo é Espírito e tudo é Santo!), ao passo que nem tudo se pode chamar Pai, da mesma maneira que nem tudo é Filho!” (Raniero Cantalamessa, Vem, Espírito Criador! Meditações sobre o Veni Creator).

Se surgir alguma dificuldade, ela residirá em confundir as relações de filiação/paternidade próprias do Filho e do Pai, com umas supostas "essências" das duas primeiras Pessoas; a essência do Verbo e de Deus Pai é a Divindade, que é a mesma essência do Espírito. As relações de espiração “passiva”/espiração “ativa” (os termos são os da teologia) próprias do Paráclito em referência ao Pai e ao Verbo não excluem uma consideração formal distinta: o Pai espira o Consolador ao doar ao Filho o Ser Divino que será doado ao Espírito, e o Filho espira o Consolador devolvendo este Ser ao Pai, isto é, "gerando-o" como o Pai o havia gerado. O Espírito não é, nas processões ou relações intra-trinitárias, "o" Filho (do Pai), mas é filho (do Filho) -quando o Concílio (regional) Toledano I diz que “Se alguém disser que o Espírito Santo é filho, seja anátema” (apud Fray Luis de León, Lecciones sobre el Libro I de Las Sentencias), esta condenação, obviamente, recai apenas sobre a primeira possibilidade, isto é, o que é herético é dizer que “o Espírito é filho do Pai” (do mesmo modo que seria não só herético mas absurdo, a partir da fé trinitária, dizer que o Filho [o “pai” do Espírito] é o [Deus] Pai; creio que isso põe a limpo a questão e a distinção feita acima). Por que se chama "Espírito"? Porque Espírito, pneuma, "sopro", é "Vida", e a Vida é o que há de comum entre Pai e Filho, é o que o Pai dá ao Filho e o que o Filho devolve ao Pai. Vida ou "Espírito" Divino, isto é, Espírito "Santo".


Visões complementares (e um corolário teológico)

Tudo o que é do Pai é de Cristo, tudo o que é de Cristo é do Espírito (cf. Jo 16,14s). Tudo o que é do Pai e do Filho é do Espírito, e "o Espírito Santo é dos dois" (cf. S.Th. I, q.38, a.1). Três que são Um, Um que vive em Três, "que o ser que os três possuem, cada qual o possuía" (S. João da Cruz, “Romance 1º” dos Romances Trinitários e Cristológicos). "O Pai, portanto, não possui algo de diverso do Filho, ou o Pai e o Filho do Espírito Santo. Mas, tudo o que tem o Pai, tem-no igualmente o Filho, tem-no o Espírito Santo" (S. Leão Magno, Primeiro Sermão de Pentecostes). "Aquilo que o Pai possui tem-no igualmente o Filho, e o que tem o Pai e o Filho, também o possui o Espírito Santo" (S. Leão Magno, Terceiro Sermão de Pentecostes). Esta "circulação" da Vida, do Ser ou da Essência de Deus entre as Três Pessoas é o que a teologia grega chama "pericorese", pela qual cada Pessoa está na Outra.

Se o Pai Invisível entrega o Filho (cf. Jo 3,16), o Filho se ausenta para entregar o Espírito (Jo 16,7). O Pai se gloria no Filho (cf. Mt 17,5; Jo 8,54), o Filho se gloria no Pai (cf. Jo 8,50), e o Espírito se gloria no Filho (Jo 16,14). A Igreja glorifica o Espírito Santo "com o Pai e o Filho" (Símbolo Niceno-Constantinopolitano). Ninguém na Trindade busca a própria glória. Oh! Gloriosa Trindade!

Se o Espírito é "outro" paráclito (Jo 14,16), é porque Cristo é o primeiro; se o Espírito é nosso intercessor (cf. Rm 8,26-27), Cristo também o é (cf. Jo 14,14; Jo 16, 23-24). Consolar é próprio de um pai; interceder, é próprio de um irmão ou filho mais velho.

O Espírito, como não poderia deixar de ser, participa da paternidade do Pai (e do Filho), porque é Sua presença na Igreja que atualiza a de Cristo e faz com que "não fiquemos órfãos", e guardemos os Mandamentos e a Palavra de Jesus (cf. Jo 14,14ss); o Paráclito, invocado na epiclese da oração eucarística, torna o Senhor presente na Eucaristia, que "extingue nossa orfandade" (cf. Sequência de Corpus Christi). Ele também é o "Pai dos pobres" (cf. Sequência de Pentecostes).


Conclusão: breve visão compreensiva sobre o proveito espiritual desta Doutrina

Ao final, eu perguntei na oração: "Senhor, o que esta Doutrina pode significar para a vida espiritual?". E Ele: "Este esclarecimento sobre o Espírito Santo como 'Neto' ajuda a ver que o Paráclito, mais que o Menino Jesus, é o 'Deus-Criança'. É por isso que vos faz dizer, com Jesus e os primeiros cristãos, 'Paizinho!', ou como as crianças brasileiras, 'Papai do Céu!'. O Espírito, que alguns têm como 'o grande desconhecido', adquire um 'rosto' mais visível, e quem não quererá guardar com mais cuidado um Deus Infante? Quem não quererá consolá-lO com o arrependimento -que Ele mesmo dá!-, quando o Pequenino e Columbino Deus, o 'hóspede da alma' chorar por causa dos pecados cometidos pelo anfitrião? ‘Não entristeçais o Espírito Santo de Deus, pelo qual fostes selados’ (Ef 4,30). Quem não quererá recrear-se com Ele, que tem a ‘alegria’ como um de seus frutos? Aquele que não se torna como as crianças não entrará no Reino! (cf. Mt 18,3)"

O "tempo é imagem móvel da eternidade", dizia Platão (Timeu). O homem, também em suas idades, é imagem de Deus (cf. Gn 1,26), que é Ancião, Adulto e Criança.


Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto, sicut erat in principio, et nunc, et semper et in saecula saeculorum. Amen.


"Santíssima Trindade" (1620), de Hendrick van Balen

1 comment:

Guzzo said...

Muito interessante a visão do Espírito Santo como uma criança, um Neto.
Nunca tinha lido ou ouvido algo parecido.
Me parece uma boa e justa aproximação, que pode ajudar num necessário entendimento e aproximação da Trindade.