Sunday, July 23, 2017

Sobre o "Intelecto" e questões correlatas

Alguns autores das Igrejas “ortodoxas” (cismáticas) entendem que a “centelha divina” eckhartiana deveria ser considerada “ortodoxa” (não herética), pois coincidiria com teses de autores orientais, seja na consideração de padres comuns ao Ocidente e ao Oriente (como Gregório de Nissa ou Evágrio Pôntico) acerca do “Noûs” (intelecto), seja na doutrina das “Energias Incriadas” de Gregório Palamas.

O problema da tese (condenada) de Eckhart -e de certa interpretação oriental-, entre outros, é que ele a apresenta sem distinguir a situação “natural” e a situação “elevada” do ser humano (sobre Eckhart: cf. Mestre Eckhart e a gnose).

O “Intelecto” ou Noûs é interpretado na antropologia católica mais conhecida e aceita, a de Santo Tomás, como a parte superior da alma racional, que, sem estar imiscuída com matéria, abstrai a forma imaterial das coisas (cf. S.Th. I, q.85).

Não é forçoso que a filosofia e a teologia católicas interpretem o ser humano num esquema dual, e me parece adequado, levando em consideração o que afirma também Aristóteles, no De Anima, sobre o “intelecto agente como algo de divino em nós”, dizer que a visão tripartite de São Paulo (cf. 2Ts 5,23) pode ser interpretada em termos de “intelecto (pneuma), alma racional (psique) e corpo (soma)”. O “espírito” é a parte mais elevada da alma ou o núcleo da mesma, pela qual comungamos com Deus (cf. Rm 1,9).

Na minha interpretação (aqui esboçada: Espírito, alma e corpo), o espírito a que se refere São Paulo é o nosso Anjo da Guarda, já divinizado ou em presença de Deus (cf. Mt 18,10), ou a “sétima morada” onde Deus habita (cf. Santa Teresa), e que por “contato” faz com que nossa psique seja uma alma “espiritual” ou “intelectual”. Nossa santidade consiste em viver no Espírito Santo que habita o Anjo ou Intelecto Santificado; o pecado consiste na desconformidade da alma com as luzes do mesmo. Dele nós podemos nos afastar: nossa “alma espiritual” (ou espiritualizada) pode se separar do “espírito” (Anjo Santificado ou Presença de Deus em nós) e se danar pela eternidade, isto é, podemos nos tornar “homens psíquicos” (cuja alma espiritual ficará presa no fogo infernal) e não chegarmos a nos consolidar como “homens pneumáticos” (cf. 1Cor 2,14-15).

É só neste sentido que podemos falar de uma “gnose” cristã: o de vivermos no espírito (intelecto) que vive no Espírito (Santo de Deus) e enquanto vive no Espírito. O réprobo é aquele que deixa de viver no seu Intelecto -e, consequentemente, em Deus-, cuja alma dEle vai se afastando, pelo amor à imaginação e à lógica sem metafísica, em direção ao inferno onde viverá pela eternidade nos demônios (intelectos caídos) que conquistaram seu coração.

Do ponto de vista da Eternidade, poder-se-ia dizer que a alma espiritual, nos eleitos ou predestinados, já (sic) é divino ou está divinizado. Mas, se não podemos, ordinariamente, conhecer a própria predestinação (cf. Concílio de Trento), a afirmação pura e simples de uma “semente/centelha divina” no homem é ambígua, porque esta não integra a “natureza” humana, e, dependendo do contexto, errada e herética, porque poderia expressar uma visão “gnóstica” soberba ou implicar a tese errada da “justificação universal”.

“Morar” no “Nous” (no Intelecto Santificado) é apanágio do místico, que não apenas conhece de modo abstrato a estrutura tripartite, mas a experiencia em si. Em âmbito cristão, e sobretudo na época dos Padres, ele podia até falar com “co-naturalidade” dessa realidade, e sem a formalização conceitual da minha tese presente (ou de outra similar ou melhor), mas isso não implica que não devamos distinguir os aspectos revelados dos aspectos cognoscíveis pela razão que não é iluminada formalmente pela fé (o “intelecto como algo de divino em nós”, na aristotélica expressão imprecisa).

Em termos tomistas, o homem é naturalmente o composto de alma racional/espiritual e corpo, e sobrenaturalmente é adotado e passa a ter a presença formal de Deus pela Graça, enquanto “conhecido e amado” -Deus sempre está presente como “Conservador” pela criação (cf. At 17,28; S.Th. I, q8 ). Nos termos da minha perspectiva, o homem está em comunhão com Deus através da comunhão formal com os Intelectos Santificados. A “fé em si mesmo” ou o pecado de “auto-pistis” deplorável pelos “ortodoxos” é típica, não do catolicismo ocidental, mas da Modernidade, que identifica a inteligência exclusivamente com o logos, com o processo intelectivo que passa diretamente, elidindo a abstração da forma, da imaginação à inteligência lógico-linguística (penso que devemos considerar a denominação “Logos” ou “Verbo” atribuída a Cristo ou ao Filho em função de sua missão de Revelador, mais do que a seu “papel” na intimidade da Trindade, apesar das analogias agostinianas).

Fazendo uma aplicação da metafísica tomasiana à antropologia (que o Aquinate não fez) poder-se-ia dizer: o (ato de) ser da natureza humana é um plus em relação à essência, ele é o “efeito” (sic) da presença do Intelecto (Santificado) na alma (forma), que a espiritualiza (intelectualiza); e, em última instância, o chamado à criatura humana seria o de ser como que “pessoa angélica” (cf. Mt 22,30), que vai unir sua alma espiritual ao Anjo (e essa seria a solução para a aporia tomasiana do “como” do conhecimento pós-morte).

Isto é bastante coerente com o dogma da Encarnação: se o caráter “pessoal” integrasse constitutivamente a natureza humana, e não fosse uma dignidade outorgada por Deus – em princípio a todo homem, por isso é um absurdo a defesa do aborto!–, em Jesus haveria “duas pessoas”, o que é a heresia nestoriana (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 466)! Jesus é um análogo para todo ser humano: nele o Intelecto (o Nous) é o próprio Verbo, que participa sua Sabedoria de modo singularíssimo a Cristo; em nós, o Nous é o Anjo.

“Mas então o homem não tem inteligência?!” ou “Jesus não redimiu o homem todo, que é inteligente?! Isso não é a heresia apolinarista?!” Não, é que quando o Magistério fala que a natureza humana assumida por Jesus tinha uma alma humana espiritual, ela não está determinando a configuração concreta da mesma; há liberdade aos teólogos e filósofos para especularem sobre a antropologia. Não se pode dizer que o homem não é inteligente, mas pode-se distinguir o Nous (Intelecto Santificado/Anjo) da faculdade da inteligência, que é como o efeito da presença do Anjo.

“Mas então a natureza humana não tem um ato próprio?! Isso não é a heresia monergetista?” Não, reitero: a natureza adquire seu ato próprio ou princípio intelectivo próprio, a partir do influxo angélico, que é o modo como a Providência conduz os seres humanos; apenas este será mais ou menos conforme a Verdade e o Bem de acordo com a recepção ou não das luzes espirituais do Intelecto/Anjo. Os conceitos, a linguagem e a razão são mais ou menos inteligentes por “participarem” mais ou menos destas luzes; tornam-se cada vez mais obtusas ao se afastarem do influxo angélico e pensarem “por si mesmos” (sic), e isso é o drama dos modernos.

O "limiar" ou "mais profundo" da alma precisamente é nosso "espírito" (o cume de nossa alma racional) enquanto “tangencia” o mundo divino (o Intelecto Santificado). Se estiver em comunhão formal com o Intelecto (Anjo), isto é a Graça. Se a alma já “mora” no Intelecto, isto é a experiência mística. Ao se afastar definitivamente do Intelecto Santificado (ao pecar contra o Espírito Santo), passa a morar em algum demônio/intelecto caído, no inferno.

Nossa experiência humana é plenamente humana, como a experiência de Jesus era plenamente humana. Do contrário, a “natureza” ou “essência” humana não poderia ser considerada inteligente e responsável. Por participação, ela tem, reitero, "seu" ato. Se não fosse assim, seríamos fantoches do Espírito! E nem poderíamos entender a passagem do Horto das Oliveiras, em que Jesus conforma sua vontade (humana) à Vontade do Pai (que é a mesma do Verbo).

Evidentemente, não estou defendendo a “unicidade do intelecto agente” dos árabes. Quando Tomás refutou tal “unicidade”, tinha em vista seu sabor panteísta, mas, ao mesmo tempo, o fato de que, longe da cultura cristã, os homens tenham conceitos tão diferentes sobre as mesmas realidades metafísicas ou morais é um indício de que não vivem no ou desde seus Intelectos (considerando a minha tese). Aliás, esta minha tese, bem entendida, é condizente com o intelectualismo tomasiano, precisamente por impedir o voluntarismo: a inteligência não começa com um ato voluntário, mas com uma recepção (intelectualmente) atenta das luzes do alto (há, evidentemente, um paralelismo em relação à sindérese e à questão moral, e isto foi visto claramente por Viktor Frankl em seu A presença ignorada de Deus).

Para Tomás era de certo modo “fácil” dizer que a “luz” do intelecto agente integrava, sem mais, a natureza humana, porque no mundo cristão havia conceitos por todos partilháveis. Todos compartilhavam a mesma “Mentalidade” de Cristo (cf. 1Cor 2,16), isto é, havia como que um “intelecto comum” (ou, em termos hegelianos, um “espírito objetivo” cristão). No mundo cristão, foi surgindo, desde o nominalismo, e sorrateiramente, uma mentalidade “anticristã”, que aos poucos foi impregnando o mundo acadêmico, artístico, político, e atualmente assistimos como que uma presença “onipotente” do (anti) espírito do Anticristo na cultura e na sociedade: o Demônio, o Geist hegeliano, que foi derrotado e aprisionado por Cristo em sua primeira vinda, parece estar retomando cada vez mais “consciência de si”, qual “besta que sobe do abismo” (cf. Ap 17,8) com toda sua virulência (quiçá esteja próxima a sua derrota...).

Então nós podemos dizer que muitas pessoas não “prestam mais atenção” à luz do Intelecto (Anjo), e ou fazem abstrações que não alcançam o ser, ou vivem a partir de conceitos emprestados errôneos. Sem esta luz, tornamo-nos incapazes de realizar boas abstrações e emitir juízos de consciência corretos, e corremos o risco de viver como animais racionais despersonalizados: lógicos, empreendedores e tudo mais, mas distantes de nossa autêntica vocação, o que é típico do “homem moderno”.

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Estes Intelectos Santificados que são os Anjos que vivem em Deus poderiam ser interpretados como as “Energias Incriadas” -lembremo-nos que “energia” traduz a aristotélica energeia que os ocidentais traduzimos por “ato”- do sábio oriental Gregório Palamas? Em princípio não, se consideramos que os Anjos são criaturas. Mas o problema pode ser visto desde outro ângulo...

Os Anjos predestinados foram criados em Graça Santificante [sobre os réprobos, defendo, fundamentando, que não, mas que o foram tão somente com a “graça criada” da Lei Natural, e para uma felicidade proporcional, e não para a condenação, o que é uma afirmação blasfema! (cf.  É o diabo mero símbolo do mal?]; dela os Anjos bons não se afastaram e nela foram confirmados; esta Graça Santificante Incriada produz a santificação ou deificação dos Anjos desde o primeiro instante, ainda que a “confirmação” nesta Graça seja um ato “posterior” à criação, sendo, como ensina a teologia, o “único” ato dos Anjos, espíritos criados. A recepção da Graça Incriada, em Si mesma Infinita, nos espíritos criados ou finitos predestinados, configura-os, desde o primeiro instante de suas existências, como uma espécie de “modulação finita” da Pessoa Infinita e Eterna do Espírito Santo. Assim, tais anjos seriam como “expressões” –na falta de melhor expressão– do Paráclito.

Os Anjos (as naturezas ou essências angélicas) finitos são criados, mas teriam uma relação com o Incriado Espírito Santo análoga (não idêntica) à de Jesus com o Verbo. Isto não está explícita ou formalmente revelado, e ninguém é obrigado a concordar (sobre o “Exército dos Céus” ou os “deuses” paira uma grande lacuna...). Mas me parece uma explicação possível, e que concordaria, sob certo aspecto, com a dos orientais: os Anjos seriam o modo como a Luz Infinita do Espírito -Um com o Pai e o Filho- pode se dar a conhecer, tais como os raios do sol que refletem sua única fonte.

A distinção palamasiana entre Essência e Energias Incriadas serve para distinguir a Encarnação da Deificação (Santificação ou Adoção Filial): somente Jesus recebeu, para ser o Salvador e o Único Mediador, a Plenitude da Divindade e do Espírito Santo (cf. Cl 1,19; Lc 4,1), enquanto os Anjos receberam o Espírito do Pai e do Filho na medida de seus espíritos e missões, na medida da luz que devem irradiar no Universo para os homens; isto é, eles recebem uma “porção” (sic) do Espírito de Deus, desde os Serafins até o mais humilde Anjo da guarda, todos “expressões” (sei que o vocábulo é inadequado...) da Pessoa Dom.

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E a Virgem, a “cheia de graça” (cf. Lc 1,38)? Como defendo alhures, ela seria a “Sabedoria criada”, o esse criado (cf. A Imaculada Conceição, Primícias da criação), primeiro reflexo criado do Verbo, o qual é a Sabedoria incriada, imagem e reflexo do Pai (cf. Cl 1,15; Hb 1,3). Acima dos Anjos -é sua “Rainha”, como rezamos os católicos-, mas abaixo do Espírito Santo que a cumula de bênçãos, pois que sua plenitude dEle também provém, ela não a tem por direito. Postulo até que a “prova” dos Anjos seria a aceitação de sua mediania, que seria o mesmo que o reconhecimento da própria criaturalidade e das predileções de Deus no interior da criação.

O “ser” das criaturas é o reflexo da presença de Deus nelas, como ensina Xavier Zubiri desde sua perspectiva do “poder do real” (cf. El hombre y Dios). Há uma hierarquia na participação do Ser: Deus Se comunica eternamente ao Verbo e ao Espírito; comunica ex nihilo o Esse criado à Primeira Criatura, que é a Sabedoria criada ou Luz criada (cf. Gn 1,3), pelo Verbo no Espírito; e aos Anjos, pela Luz/Sabedoria/Graça criada, que pelo Verbo e no Espírito está em Deus. Desde o início a Virgem está santificada e seu ser recebido (Sabedoria ou Esse criado) subsiste no Ser (Ipsum Esse); os Anjos estão santificados e seu ser subsiste no Ser Divino através da Virgem que está na Trindade e que foi salva antecipadamente de toda mácula pelo poder de Cristo, como ensina o dogma católico. E os homens que se santificam chegam a viver em Deus pela Virgem que leva a Cristo, o qual leva, no Espírito, ao Pai.

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Do ponto de vista da eternidade os eleitos sempre (sic) estiveram salvos; daí que sua “semente não morra” como diz São João (cf. 1Jo 3,9), sem que se possa pressupor a predestinação, pois a eleição é verdadeiramente também uma conquista efetiva da liberdade que, como ensina a Igreja católica, coopera com a Graça ou “Energia Incriada” (cf. Cl 1,29), e participa dos méritos de Cristo adquirindo-os, sendo a “prova” a prática da justiça (cf. 1Jo 3,10; Tg 2,14-26; Mt 7,20) e a perseverança até o fim (cf. Mt 10,22).


Imagem: detalhe de “Maria com o sol debaixo dos pés” (c. 1520), 
de Matthias Grünewald

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