Tuesday, June 06, 2017

Nota sobre a gnose de Frithjof Schuon

No prefácio de sua Unidade transcendente das religiões, F. Schuon propõe uma distinção entre “metafísica” e “filosofia”, afirmando que a segunda é pensamento humano que procede da “razão” e a primeira, do Intelecto enquanto Nous Divino, citando Mestre Eckhart e sua doutrina da “centelha incriada da alma”, e um adágio muçulmano que diz que “o sufi (homem identificado com o Intelecto) é incriado”.

Tal doutrina é condenada pelo Magistério católico (cf. Denzinger n.527) – o perenialista, na sua argumentação circular, dirá que essa condenação é “exotérica”, critério arbitrário com o qual pode justificar tudo e nada... A presença de Deus na alma, que efetivamente não se dá apenas na pessoa em graça, sendo primordialmente consequência de sua criação conservadora (cf. At 17,28), não é presença como “parte da alma”, mas como Causa; acerca desta presença, veja-se Santo Tomás: cf. S.Th. I, q.8.

A crítica que faz à filosofia é injusta porque o próprio Aristóteles diz que o “intelecto agente” é como “algo de divino em nós”. A abstração é ação do nous que é captação da forma real das coisas, a qual é prévia ao logos que diz o que a coisa apreendida é. Apenas a filosofia moderna esquecerá o intelecto agente (que poderia até ser dito a parte mais sublime da alma, ou seu ato de ser, ou ainda o “espírito” da visão tripartite de S. Paulo: cf. 1Ts 5,23), e começará o filosofar da inteligência lógica ou judicativa, enquanto ação poiética e voluntária (o juízo é ato da vontade para Descartes) que não “vê”, mas “produz” o conceito (consequência do nominalismo que transformara o “conceito” em termo aglutinador de coisas sensíveis similares, ou seja, um “conjunto” e não o “verbo mental” que diz a quididade da realidade).

O conhecimento intelectual sobrepassa o conhecimento do indivíduo, como diz Schuon, precisamente porque quando há verdadeira abstração do intelecto, a forma real da coisa é efetivamente captada. Outra questão, não vista muito bem pelos clássicos, é que tal abstração ou captação admirativa do real é muito mais rara do que supunham os filósofos clássicos e medievais que estavam instalados num sistema conceitual comum; se Tomás ou Aristóteles vivessem hoje, certamente não repetiriam tal visão otimista. Na maioria das vezes o homem comum usa conceitos que não abstraiu por si mesmo (que não viu mas recebeu); e toda a filosofia moderna consiste em esquecimento do intelecto e da forma real, iniciando o filosofar na conceituação a partir da imaginação (e não mais da “fantasia” ou “sentido comum”, ignorado pelos modernos), no caso dos empiristas (“sensualistas” é um termo mais exato) ou da construção a modo matemático de “ideias inatas” (que não são reflexos das Ideias platônicas), no caso dos racionalistas (“conceitualistas” é um termo melhor).

Em suma, Schuon repete a tese árabe (Averróis e Avicena) da unidade e universalidade do Intelecto Agente, identificando-a ademais com o próprio Deus. Se o intelecto agente até pode ser considerado “mais” do que a alma (seria o espírito ou seu ato), de modo algum o conhecimento abstrato desta verdade é garantia de que os gnósticos tenham um acesso privilegiado ao mesmo. Se o tivessem, concluiriam pela Transcendência de Deus, como fez Platão (o Bem) e próprio Aristóteles (o Motor Imóvel), ainda que o tenham feito de maneira imperfeita, sem conhecer a criação e afirmando a Deus em face da matéria-prima.

Depois Schuon afirma que “a Revelação” ou conhecimento religioso é superior ao pensamento "filosófico" mas inferior ao “intelectual” (gnóstico). A Revelação é Palavra de Deus dirigida às criaturas enquanto a “intuição intelectual” é participação direta na Divindade, que encontraria uma “verdade nua e supraformal”. Esta última, “esotérica”, seria “traduzida” pelas religiões nos seus dogmas e ritos, “exotéricas”, ao alcance dos simples. Em suma, o autor afirma que os gnósticos têm como que uma ciência infusa inefável e superior à fé e a traduzem em símbolos acessíveis para a maioria.

Agora, esse discurso abstrato teria de ser confirmado por um “esoterismo universal”, que é precisamente o que chamam de “perenialismo”. A questão é que para um cristão isso é claramente uma falsidade: os conhecimentos dogmáticos ou teológicos sobre a Santíssima Trindade não são um “símbolo” acerca de uma “divindade impessoal cósmica”, mas são a expressão linguística da visão beatífica de Cristo: a Trindade é a ÚLTIMA PALAVRA acerca de Deus; efetivamente, não podemos compreendê-la perfeitamente através do dogma, nem mesmo da visão mística nessa vida, e até por toda a eternidade seremos saciados por um Mistério sempre maior que a capacidade de nossas inteligências criadas: mesmo deificados, nós nunca chegaremos a ser Deus no sentido de sermos o Ato Puro, mas seremos Deus por participação de acordo com as potências (distintas) das nossas naturezas intelectuais criadas.

Eu penso que isso é suficiente. Para qualquer católico com formação doutrinal robusta, e com rudimentos de filosofia, a impostura da tese é evidente -aliás, toda visão gnóstica/panenteísta ou panteísta é uma impostura metafísica, na medida em que parte de e se instala em princípios inevidentes e injustificáveis. Ele joga com um discurso abstrato, diz coisas contrárias àquelas ditas pelos místicos católicos, ou àquilo que o Espírito Santo diz através da Igreja. Desnecessário é fazer uma análise exaustiva de um pensamento (adiante ele dirá que “Cristo não pode realizar integralmente a Verdade Divina”, por exemplo) quando já se capta que a “intuição intelectual” originária é falsa ou mistura verdades e falsidades.

"Madonna dei Palafrenieiri" (1606), de Caravaggio

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