Friday, May 26, 2017

Alegorias, meditações e histórias de Fé

A Vida Eterna é como um incêndio.

O batismo é a chispa; a oração e os demais sacramentos são o oxigênio; as obras são a lenha; a queima é a conversão; a fumaça é o testemunho; a comunhão e o serviço fraternos são o calor; o fogo é a Caridade Divina.

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A Vida do cristão é como um farol ou um campanário.

Deve estar firme sobre a terra e apontando para o céu; esclarecendo os que navegam nas águas do mundo e na obscuridade e convidando-os ao porto seguro e à luz da fé; ressoando para os que vivem sufocados pelas preocupações do dia-a-dia o convite à contemplação, para que possam adentrar o recinto do próprio templo e aí escutar a voz de Deus que os chama.

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A Vida de Fé é como o incenso.

A naveta é a Igreja, pequena nau que porta o incenso da Pureza Divina; o carvão em brasa é nossa alma amante, e o turíbulo é nosso corpo, templo do Espírito Santo, que é movido pelo Divino Turiferário; a fumaça é a alma enquanto se eleva ao Céu, e o odor agradável é a santidade fruto do encontro de nossa dileção a Deus e da Caridade do Santo, que sobrenaturaliza a primeira.

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A santidade é como uma árvore viçosa:

A terra é nossa natureza, a semente é o Espírito Santo infundido no Batismo, as raízes são a Fé dos antepassados, a água que a rega são as bençãos que descem do céu, os nutrientes são as virtudes que cooperam com a a graça, o tronco é Jesus que nos sustenta, os ramos verdejantes são o nosso louvor a Cristo, a poda é a conversão que desbasta os ramos viciosos, as flores são a beleza do testemunho, e os frutos são o crescimento da Igreja.

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A Igreja é como uma árvore plantada pelo Divino Semeador.

Sua pequena semente brotou, cresceu, tornou-se frondosa, floresceu, frutificou, abrigou os mais diversos pássaros, protegeu com sua sombra da inclemência do Sol, mas que aos poucos foi perdendo o viço: os jardineiros resolveram ora descansar demasiado, ora deixar de regar, ora comer os frutos com avidez, ora não exterminar os cupins, ora não podar os galhos podres...

Mesmo, porém, que fique apenas um pequeno toco, ele reflorescerá, e a árvore recuperará sua pujança, regada pelas divinas lágrimas do Semeador, saciada pela seiva vivificante do seu amor!

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O Reino dos Céus é como o comerciante que vislumbra um "negócio da China".

Ele investe todas as suas economias e aceita os riscos e os prejuízos iniciais, porque o lucro é certo e extraordinário.

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O Reino dos Céus é semelhante ao intelectual que tem um insight original.

Ele não descansa e passa noites em claro para encontrar suas razões, a fim de poder comunicá-lo, porque a alegria pela verdade é incomensurável.

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O Reino dos Céus é como o homem que encontrou uma mulher bela e virtuosa.

Ele cultiva sua alma e a virtude da castidade para agradá-la e ser digno de desposá-la.

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O Reino de Deus é como um rio.

Ele nasce da fonte que é a água do lado de Cristo, e torna-se caudaloso com o aumento dos fiéis e o incremento da Fé; que em certas passagens torna-se turvo pelas incoerências dos cristãos, as heresias, e o esgoto do mundo que às vezes lhe penetra; mas que sempre é despoluído e renovado pela caridade dos santos, e que chegará ao mar do Eterno.

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A Fé é como uma lâmpada acesa.

Ela é o foco de luz que dissipa a escuridão da mente, criando o âmbito luminoso no qual enxergamos todas as coisas desde Deus, e orientando nossos passos para que não andemos errantes.

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A Fé é como uma criança que confia no seu pai e se atira em seus braços.

Ela salta obstáculos não porque seja "um salto no escuro", mas precisamente porque sabe que o Pai nos tem em seus braços, mesmo que por lapsos possamos superficialmente duvidar (Pedro quando vem a onda, o momento de hesitação em que a criança ainda não se jogou); a segurança (do que momentaneamente não se vê) é uma sua condição fundamental.


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A Esperança é como a nascente de um rio que deságua no mar.
  
Fonte permanente do curso da existência cristã que se dirige a Deus; manancial inesgotável da Vida do Espírito, que a alimenta qual lençol freático que se esconde sob a terra. Que ela nunca seque por causa dos pecados!

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A Caridade é como um trabalhador cansado ao final da jornada, que, chegando à casa, beija a mulher e os filhos, ajuda-a nas tarefas domésticas, conta estórias e brinca com os filhos, esquecendo-se de si e considerando o descanso e a alegria dos seus como mais importantes que seu próprio (e merecido) repouso.

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A Caridade é como um ninho de passarinho.

O Amor divino é o abrigo onde o cristão é gerado no calor e sob os cuidados de Deus, que por nós "move todas as palhas"; o refúgio onde encontramos proteção e somos alimentados e crescemos para realizar voos espirituais.

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A misericórdia é como a mãe que já sabe que o filho tirou nota vermelha e que ele tem vergonha de dizê-lo; ela chega e diz: "Vamos estudar juntos para tirar nota azul na recuperação", e o filho, encorajado, pede desculpas pelo desleixo e passa a estudar com afinco.

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A Parusia será como aquele título conquistado aos 45 min do 2o tempo, contra um adversário desleal e um juiz ladrão, quando a torcida contrária já comemorava gritando olé e parte da própria abandonava o estádio; então os que confiaram até o fim gozarão, e os que saíam abatidos regressarão e chorarão, não mais de tristeza, mas de alegria!

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A Palavra de Deus é como a chuva.

Quando estamos tranquilos, ela cai como o sereno; cansados, ela nos revigora como chuveiro; na situação de pecado, faz cair lágrimas torrenciais do espírito, lavando a alma pelo arrependimento que leva à confissão.

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A Palavra de Deus é como uma postagem edificante no Facebook.

Alguns passam batidos.

Outros curtem pela impressão momentânea e logo esquecem.

Outros curtem e até comentam e vêem as notificações por um tempo, mas as postagens polêmicas, e o afã de atenção com postagens feitas sob medida para ficarem em evidência ocupam seu coração.

Outros curtem, comentam, compartilham, e a postagem frutifica em sua vida.

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Os Sacramentos são participação na Vida de Cristo e de Sua Graça que jorra da Cruz.

Há um só Batismo, que é a morte e ressurreição de Jesus. Os nossos o são por participação (e assim por diante no que diz respeito aos demais Sacramentos da Fé).

Há uma só Confirmação, que é a descida do Espírito Santo sobre Jesus e por Ele aos batizados e crismados, desde a Encarnação, passando pela manifestação visível no batismo do Jordão e chegando à expiração na Cruz e no Cenáculo.

Há uma só Eucaristia, que é o Corpo de Cristo gerado no ventre da Virgem, que é o Pão Vivo descido do Céu que por nós se entregou no madeiro.

Há uma só Penitência que é a Paixão de Cristo que assumiu nossos pecados para resgatar-nos.

Há uma só Ordem que é a recebida pelo Filho do Pai e por Ele transmitida aos Apóstolos e seus sucessores e colaboradores.

Há uma só Unção dos Enfermos que é a assunção da nossa carne mortal pelo Salvador e sua participação nos nossos sofrimentos que os cura e enche de sentido.


Há um só Matrimônio que é o mistério do amor indissolúvel de Cristo por Sua Igreja.

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A História da Igreja é como uma semana de altos e baixos

O Domingo de Sol que enche de energia (Éfeso ou a Igreja dos Apóstolos).

A Segunda-Feira em que a alegria dominical cede à labuta que traz um pouco de pena (Esmirna ou a Igreja dos Mártires).

A Terça-Feira em que a superação do dia anterior traz estabilidade (Pérgamo ou a Igreja dos Padres).

A Quarta-Feira em que a estabilidade ganha se transforma em dinamismo e alegre dedicação (Tiatira ou a Igreja Medieval).

A Quinta-Feira em que o cansaço aparece porque o entusiasmo do dia anterior tende a esfriar (Sardes ou a Igreja Renascentista).

A Sexta-Feira em que a expectativa do fim de semana traz um novo gás, apesar da pouca força, para terminar o trabalho semanal (Filadélfia ou a Igreja Pós-Tridentina até...).

O Sábado em que o descanso não foi bem programado e em que ainda por cima não foi lembrada aquela festa de casamento marcada com muita antecedência e para a qual não foram comprados a roupa e o presente adequados (Laodiceia: ?).

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"Se tua mão... se teu pé... se teu olho te conduzem ao pecado, arranca-os".

Desfaz-te de teus apegos, de teus caminhos, de tuas ideias que não são conformes ao Bem, ao Caminho e à Verdade.

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Deveis rezar: "Pai Nosso..."

A oração do Senhor é a mais perfeita. Suas 7 petições nos orientam a:

- reconhecer nossa criaturalidade (o nome "Santo" de Deus indica sua transcendência);

- reconhecer nossa vocação sobrenatural ("venha o reino");

- reconhecer o caminho para o Céu (a amorosa "vontade" de Deus);

- reconhecer a bondade da criação (o "pão");

- reconhecer a necessidade da misericórdia (do "perdão das dívidas");

- reconhecer a necessidade da luta apoiada na graça (para "não cair em tentação");

- reconhecer a liberdade no Bem (x o "mal" que é o pecado).

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"O que deixamos de fazer aos demais, deixamos de fazer a Cristo".

Como podemos orar se não dialogamos com o próximo? Como podemos confessar se não somos humildes para pedir desculpa a quem ferimos? Como podemos comungar se não acolhemos os outros? Como podemos louvar a Cristo se não elogiamos os demais? Como podemos render graças a Cristo se não somos agradecidos aos outros?

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"Ou servis a Deus ou ao dinheiro..."

Ou construís a Cidade de Deus ou construís a Cidade dos Homens. Ou viveis ocupados em doar ou preocupados em acumular. Ou viveis descansando no Ato Puro ou inquietos presos à matéria caótica.

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Jesus metafísico:
  
O agir segue o ser: "a boca fala do que o coração está cheio". 

O ser se revela pela atividade: "a árvore se conhece pelos frutos".

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A "alta cultura" sem a luz da fé e o calor da caridade é morta.

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De que adianta ao homem "salvar a civilização ocidental" e não se deixar salvar por Cristo?

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A Cruz é a Escada.

A Subida é a Pureza de Coração.

O Destino é a Visão.

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Se você se distrai na oração, reze:

"Senhor, obrigado por esta distração; ela me mostrou que ainda estou longe da oração dos santos".

Você venceu o demônio da distração, porque fez dela ocasião para elevar o pensamento a Deus, exercer o auto-conhecimento e a humildade.

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Um noviço rezava diariamente, desde seu ingresso no mosteiro: "Senhor, dá-me forças para lutar contra o demônio".

Seguiu rezando assim ininterruptamente, e no fim de seus dias, já velhinho, perguntou a Deus: "Senhor, por que nunca me deste a oportunidade de um grande enfrentamento contra as forças do mal? Não me preparei suficientemente?".

Deus lhe respondeu: "A força de tua oração constante repeliu todos os ataques do inimigo. Tua perseverança foi tua prova. Tua rotina foi teu deserto".

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Quando der esmola a um mendigo sujo, não atire a moeda, mas toque sua mão na dele; a caridade imuniza e contagia.

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Hoje [21/05/17] conversei com um morador de rua, cuja situação é ainda mais dramática porque tem uma enfermidade mental (vi uma receita e os remédios de tarja preta que ele trazia).

Ele me disse que foi abandonado pelos pais ainda bebê e que apanhava muito desde criança; que muito cedo desenvolveu síndrome do pânico, que costuma pensar que todos vão lhe fazer mal; disse ainda que ouve vozes e vê espíritos; que já tentou se matar e não conseguiu.

Depois ele me disse, contudo, que sempre leu a Bíblia, que isso o ajudava a não fazer coisas más e que Deus também lhe fala: disse, por exemplo, que tinha problemas com um parente (que o abandonou) e que pensou em prejudicá-lo mas que Deus lhe dissera "que assim com Ele perdoava os pecados dele, devia perdoar os pecados desse parente".

No final da conversa, ele reiterou que cria no Pai, no Filho e no Espírito Santo, que se sabia amado por Deus que "não veio para os sãos mas para os doentes", e me pediu que levasse um romance para ele na próxima ocasião, porque gosta de ler para manter a mente ocupada com boas estórias.

Os políticos não velam por essas pessoas. Muitos transeuntes passam ao largo. Mas Deus está ali, foi a lição que me ficou. Ele não faz acepção de pessoas, não despreza o louco e o miserável.

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1h30min preso no elevador ontem [21/02/17], durante uma queda de energia.

Os primeiros minutos na mais completa escuridão, sem comunicação e num calor que ia aumentando gradativamente.

Pareceu-me conveniente pensar na morte: na sepultura e na possibilidade do inferno, ou na morte espiritual da alma.

Depois de algumas insistentes batidas na porta e gritos de socorro, um vizinho (um jovem rapaz) me ouviu e veio falar comigo.

Então a experiência ganhou um novo matiz: mesmo na escuridão, a coragem de suplicar ajuda encontrará uma voz consoladora, um refrigério.

Outros dois vizinhos (um casal amigo) se aproximaram, tentaram abrir a porta (por sorte o elevador estava parado à altura de um andar e não entre andares), e, não conseguindo, chamaram o porteiro, que pôde abrir a porta exterior mas só conseguiu abrir uma brecha na porta interior, pela qual entrou um pouco da luz frágil do fim do dia e um pouco de ar fresco.

Eu pensei então em São Pedro, e na Igreja, no poder das chaves; no Espírito começando a iluminar e refrescar a alma.

Um sapato mantendo uma fresta aberta na porta interior aberta e uma comunicação mais fluida iniciou. Era hora dos meus 2 filhos maiores chegarem da escola no transporte escolar (a esposa e o filho menor estavam fora) e o porteiro, que ligou para a manutenção do elevador, foi buscá-los.

Então eu pensei na comunhão e na solidariedade dos santos, que cuidam das pessoas amadas que não podemos ajudar diretamente, e buscam a ajuda necessária para nos livrar das dificuldades.

Em seguida, a senhora me ofereceu água e pão com queijo pela fresta.

Eu pensei na Eucaristia e a tranquilidade e confiança de logo ver a luz se intensificaram.

O técnico da manutenção chegou e liberou a porta pelo andar de cima.

Eu pensei na Salvação que vem do alto e em Jesus, meu libertador.
  
P.S.: Não desejo esta experiência para outrem, mas as situações difíceis nesta vida (existem situações muito mais difíceis, evidentemente) podem nos servir para pensar nas realidades últimas e, assim, encará-las como ocasiões de fortalecimento da fé, da esperança e do amor.

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Da necessidade da oração ou de como João Vitor e Tomás me ensinaram de uma vez por todas o valor da oração

"E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar?" (Lc 18,7).

Durante muito tempo eu fiz oração de súplica sem uma fé ardente, talvez sob algum tipo de sutil influência modernista: pedia praticamente que Deus intensificasse minhas próprias forças, considerando, sem muita consciência disto, que não deveria pedir graças que não dependessem de minha própria ação (uma oração “naturalista”, portanto...).

No segundo semestre de 2008, conheci, num congresso sobre o pensamento de Xavier Zubiri na Universidad de Salamanca (eu morava na Espanha), o teólogo galego Andrés Torres Queiruga, de cujas teses extravagantes (como que "o inferno não existe", ou que "Jesus não ressuscitou corporalmente") já tinha ouvido falar. Ele era um conferencista principal e eu um simples comunicador, mas eu fui conversar pessoalmente com ele, para tentar "convertê-lo". Eu não consegui argumentar de modo a rebater suas ideias no momento, nem tampouco ele me convenceu.

Anos mais tarde, já no Brasil, comprei seu livro Repensar o mal, e li com algum interesse. Ele defende, entre outras coisas não muito ortodoxas, que a oração de súplica é desnecessária e mesmo errada no contexto teológico atual, porque "presume que Deus, que é Amor, já não nos daria o necessário". Esta tese é falsa (como o historicismo subjacente) e já está refutada há séculos (por Tomás e, muito provavelmente, por outros), mas não é meu interesse fazer uma reflexão teórica. Como eu estava vivendo uma experiência espiritual nebulosa, os argumentos me semearam dúvida, e a minha prática oracional alcançou seu pior estágio. É aí que entram meus filhotes.

Desde que o João Vítor saiu da UTI neonatal (maio de 2014), coube a nós fazer o cateterismo vesical (que consiste em enfiar uma sonda no peru até a bexiga, para aliviá-la). Num primeiro momento, só a mãe fazia, depois eu comecei. Muitas vezes, o esfíncter da bexiga começou a fazer uma resistência muito grande, e nós simplesmente não conseguíamos passar a sonda (o que causava prejuízo ao João). Isso se prolongou por algumas semanas, até que eu pensei numa ocasião: devo rezar à Nossa Senhora. Então, rezei uma Ave-Maria com muita confiança na intercessão da Virgem, ao passar a sonda no peruzinho do João, e eis que não houve resistência do esfíncter! Passei a rezar sempre e nunca mais houve resistência! Pela primeira vez eu entendi,existencialmente e em primeira pessoa -e não só teoricamente-, que a oração modifica a realidade para além das próprias forças humanas, que a fé sincera comove o coração da Virgem e de Deus quando se trata de um pedido justo.

Eu passei a rezar com mais afinco!

Certo dia, ano passado [2015], indo à praia com Tomás, meu filho do meio (então com 3 anos), ele cismou que queria ver um tatuí. Ocorre que esse bichinho só aparece em praia limpa, e nós estávamos numa praia da Baía de Guanabara, que eventualmente até fica despoluída, mas que, naquela ocasião, estava terrivelmente suja, como costuma estar.

Nós percorremos um longo trecho da areia, cavando, cavando, e não encontrando nada. Até que num momento eu pensei (acho que mais para fazer ele desistir): -Tomás, vamos rezar. Se Deus quiser, vai aparecer tatuí. Se não aparecer, é porque hoje o Papai do Céu não quer que a gente encontre tatuí e aí nós vamos brincar de outra coisa...

Eu e ele rezamos, um Pai Nosso e uma Ave-Maria, ele com muito mais fé que eu (embora só tenha dito os améns). Então, quando cavei, aconteceu o improvável: apareceram tatuís aos borbotões... Eu, que, de relance, ao início da oração, pensei “que Deus tinha mais o que fazer do que atender um capricho infantil”, imediatamente emendei “ah, vamos ver, eu não vou decidir o que Deus deve fazer”... Então eu entendi que Deus atende a fé ingênua e se recreia na alegria inocente de seus filhos pequeninos! E entendi definitivamente o poder da fé e da oração de súplica.

Esta foi a nossa pesca milagrosa.

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A Providência, seus encontros e desencontros ou “Deus escreve certo por linhas tortas”

"Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus" (Rm 8,28)

[Na novena de São Judas Tadeu de 2016]

A nossa vida é conduzida por Deus. Aqueles que se decidiram por Ele, estão na palma de sua Destra, por mais que não pareça assim. Descrevo aqui alguns acontecimentos em que Deus agiu para me proporcionar alguns bens que Ele desde sempre havia pensado para mim.

Em 1991, eu, que havia me tornado um “católico não praticante” depois da primeira comunhão (1986), fui à missa de Páscoa (a de Páscoa e a de Natal são sempre imperdíveis!), e fui convidado pelo padre para participar da crisma. Foi o início de um compromisso nunca mais quebrado com o Senhor. Um simples convite. Alguém olhou para mim e me chamou, como Cristo fazia na Palestina. Um encontro, uma proposta, uma decisão. Uma conversão, a mão no arado, e nunca mais olhar para trás.

Em 1997, depois de um ano cursando Ciências Sociais (1994) e outros dois discernindo minha vocação, ingressei no curso de Filosofia na UERJ. Terrível curso noturno (eu precisava trabalhar; os melhores professores lecionavam pela manhã). Mas, na disciplina HESP II (História Econômica, Social e Política II), aulas com o prof. Ricardo da Costa, medievalista, então professor substituto na casa. Lições com Régine Pernoud, entre outras. Aprendi, de uma vez por todas, que a história da Cristandade havia sido grandiosa, que a Idade Média não foi uma época de trevas. Ouvi falar de Raimundo Lúlio.

No mesmo ano, um querido colega de turma presenteou-me com o livro Naturaleza, Historia, Dios, de Xavier Zubiri [que o colega tinha conhecido através do Olavo de Carvalho, de quem havia sido aluno]. A leitura desse livro impactou minha vida de tal forma [excluindo a Sagrada Escritura, apenas o livro Nossa transformação em Cristo, de Dietrich von Hildebrand, presenteado pelo amigo Juliano, teve impacto maior], que eu, que até então cogitava desistir da filosofia, descobri de uma vez por todas a minha vocação intelectual, nas trilhas daquele humilde pensador basco. O colega da UERJ também me presenteou com o Ciência da Cruz, de Edith Stein, mas eu não o li por então...

Em 1998, nas disciplinas História da Filosofia Medieval I e II, mais um professor substituto que veio muito a calhar: o então Pe. Edson de Castro Homem (hoje bispo), clérigo muito culto, que me proporcionou excelentes aulas sobre os padres e os doutores, especialmente Agostinho e Tomás. Ainda me lembro de suas palavras no primeiro dia de aula: “Dizem que a Idade Média foi uma ‘era de trevas’. Onde estão as luzes agora?!”.

Em 2003, graduado e mestrando, fui a um curso de extensão sobre Raimundo Lull, (que passei a ler por causa do prof. Ricardo da Costa) na Unilasalle (Niterói). Conheci o prof. Paulo Faitanin, tomista gabaritadíssimo, doutor pela Universidad de Navarra (Espanha). Conversei com ele, e fui incentivado a tentar estudar em Navarra, onde conheciam Zubiri e eu poderia fazer uma investigação mais profunda. Lancei-me à empreitada. Fui aceito.

Aos 19 dias do mês de setembro de 2000, começo o namoro com a mulher da minha vida. Comemorando, um mês depois, eu brinco: “19/09 é dia de São Januário, padroeiro do Vasco; como flamenguista, penso que devemos terminar em algum momento, e reatar no dia 28 de outubro, São Judas Tadeu”.

Em junho de 2003 noivamos, e ficamos mais ou menos combinados de nos casarmos em outubro de 2004. Nossa relação se desgastou ao longo de 2004, sobretudo quando eu me decidi a ir ao encontro da ANPOF (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia), no mês de outubro, em Salvador, adiando a data do casamento.

Na ANPOF, eu fui designado para fazer minha comunicação numa sala que não tinha a ver com o meu tema. Eu insisti que deveria fazê-la na sala de filosofia da religião. Permitiram, mas disseram-me que eu teria apenas 10 min (metade do previsto). Eu aceitei. Comuniquei. O professor Agnaldo Cuoco, da UnB, dirigente do grupo de filosofia da religião da ANPOF, elogiou muito minha curta comunicação, o tema e o autor (Zubiri), que ele não conhecia e considerou “muito relevante”.

Em dezembro, o noivado terminou...

Em abril de 2005, fui a Brasília, na última etapa (entrevista no Ministério da Educação) do processo seletivo da CAPES para bolsa de estudo no exterior (sem a qual não poderia estudar em Navarra). Quando entro na sala, o presidente da banca... é o professor Agnaldo Cuoco. “Tô dentro!”.

Mais ou menos em junho, Fernanda volta a se comunicar comigo.

Numa manhã de outubro, recebo, no meu trabalho, um telefonema dela. Queria falar comigo no dia seguinte.

À noite, voltando para casa no ônibus, dou-me conta de que é 28/10! Choro de emoção. “Deus gosta de mim”, penso com meus botões. Nesta noite, chove cântaros no Rio. Para mim, era uma chuva de graças.

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O matrimônio

Eu me apaixonei pela primeira vez aos 6 anos, por uma linda menininha do meu prédio, loirinha e de olhos azuis.

Os momentos em que brincávamos juntos com outras crianças eram para mim fonte de uma alegria profunda. Não era, evidentemente, um amor sensual, mas tampouco um amor "platônico", irrealizável. Estar simplesmente ali, ao lado dela, já era uma realização.

Quando eu me comprometi na vida eclesial, com o sacramento da confirmação, eu quis discernir se o Senhor me chamava ao sacerdócio, e fiz compromissos numa comunidade religiosa. Mas eu sempre soube que precisava de um rosto feminino para contemplar o amor e a beleza de Deus, e não pude constatar algo diferente.

A beleza e a candura femininas são algo arrebatador! Quando eu vi os olhos puros e míopes da Fernanda [bastava eu não me aproximar muito para que ela não percebesse minha feiura], o amor preencheu o meu coração. Era um amor sem dúvida humano, participante do "eros", mas também teologal, participante do "ágape", porque é um amor que me desinstala, me leva a querer amar de modo cristão a todas as pessoas, a querer rezar ardorosamente, para oferecer a ela, e a todos quantos estejam próximos, o melhor de mim, o qual só pode ser forjado na chama da Caridade divina.



 "Fé" (c. 1754), de Giuseppe Angeli

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