Saturday, April 01, 2017

O Pe. Sertillanges sobre Jesus e o Cristianismo

Excertos de SERTILANGES, A.D. Espiritualidade. Trad. Monjas Beneditinas da Abadia de Nossa Senhora das Graças. Belo Horizonte: Itatiaia, 1959, pp. 3-28:


"O cristianismo não é um composto de artigos de fé e preceitos, mas a expressão da relação total de Deus com a criação inteira, e o laço dessa relação é o Cristo.

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Se Jesus Cristo não é tudo para nós, não é nada, visto que sua própria natureza, como Deus, é de ser tudo e, como homem, de ser o caminho de tudo.

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A doutrina do Cristo não é uma doutrina livresca; escreve-se no coração. Jesus Cristo, ele, escreveu com o dedo na poeira; foi toda a honra que concedeu à escrita.

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Quando dizemos que Jesus Cristo, se voltasse ao mundo, seria de novo desprezado e morto, referimo-nos aos ímpios e incrédulos Teríamos vergonha de pensar, como é verdade, que seria tratado assim por uma multidão de crentes. Quando alguém professa como tantas pessoas um falso cristianismo, tem tudo que é preciso para perseguir o fundador e o modelo do verdadeiro cristianismo.

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Muitos cristãos não guardam do Cristo, como os incrédulos, senão o que lhes agrada ou o que teriam podido encontrar por si mesmos. É uma maneira certíssima de aniquilar o Cristo.

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Muitos cristãos têm um ídolo como Deus, e como Cristo um testa de ferro para sua vida inteiramente pagã ou um tema de vitral.

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Jesus Cristo sempre ocupou o lugar todo, por sua presença ou por sua ausência, por sua virtude autêntica ou pelas adulterações.

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Jesus governa com um caniço. Que símbolo! Sua onipotência está em sua fraqueza voluntária, na aceitação da humildade de sua obra, em sua humilhação e em sua dor.

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Quem deve dirigir homens poderá jamais ser verídico no pleno sentido do termo? Não precisa sempre usar mais ou menos de rodeios ou pelo menos esperar? Se Jesus, a Verdade em pessoa, tivesse seguido sem reservas sua própria lei de verdade, ninguém teria crido nele e não teria encontrado um só apóstolo. Vemo-lo constantemente reticente, por misericórdia. Algumas vezes, explica-se: 'Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não podeis suportá-las agora' (Jo XVI, 12). E morre, isto é, passa para o Espírito os desenvolvimentos e as aplicações de sua doutrina. Mas o Espírito por sua vez submete-se à mesma lei. Renova, quão lentamente! a face da terra. Pode-se dizer que a ação do fermento evangélico, em nossa massa resistente ou inerte, está apenas começada.


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Não são seus resultados que dão valor à Encarnação, é a Encarnação que dá valor a seus resultados.

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Como o cristianismo e sua história têm em si, profundamente, um aspecto de esplendor moral e um aspecto de escândalo, basta expô-los imparcialmente nesse duplo aspecto para operar imediatamente uma divisão entre os auditores. Vê-se então claramente o que tem cada um no coração e o quanto vale.

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Não poderíamos duvidar: a sorte que se deu ao Cristo histórico e a que se dá ao Cristo eterno medem exatamente a grandeza moral do mundo, o equilíbrio do bem e do mal na criação.

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Dizem que o edito de Milão, graças a Constantino, fez Jesus Cristo triunfar na sociedade. Pode-se compreender isto. Mas na verdade esta espécie de triunfo não foi a que procurou o Cristo. Triunfar na sociedade é necessariamente adaptar-se a ela, acompanhar seus passos, e procura-se a sociedade que alguma vez acompanhou os passos dos Cristo. Pode-lo-ia? Podemos perguntar; com efeito, não deveria ela então declarar como Jesus: 'Meu reino não é deste mundo'?

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O triunfo constantiniano e todos os que a história apresenta são, em muitas coisas, derrotas e no total, vigílias ou pelo menos ameaças de derrota. O Cristo está militando e não triunfando na terra. Ele o está sempre, em seus fiéis como em sua Igreja. O triunfo é somente no céu.

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Houve príncipes, homens públicos, apologistas, organizadores que pretenderam mais ou menos salvar a Igreja. Equivalia a dizer que queriam salvar o Cristo, seu Salvador, que queriam salvar o próprio Deus, seu Criador. A Igreja não tem necessidade de ser salva por nós, mas  nós pela Igreja. O Cristo triunfará sem nós no triunfo que é o seu, puramente espiritual, não tendo como condição verdadeiramente necessária senão a confissão secreta das almas de boa vontade.

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Renan admirou enormemente Jesus Cristo. Mas Jesus Cristo não quer ser admirado assim, à maneira de um ilustre pensador; quer ser reconhecido pelo que é, e assim amado e assim imitado. A admiração que se dispensa deliberadamente de imitação e de amor é, em relação ao Cristo, uma blasfêmia.

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Aprecio aquele que, em lugar de evitar cortesmente o Cristo, se aproxima dele com franqueza, dizendo: Tu me aborreces; temo-te. encontrar-nos-emos talvez mais tarde; no momento, retiro-me; mas tem piedade de mim apesar de tudo. - Oh! como simpatizo com este!

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Jesus pode chamar os que estão aflitos e sobrecarregados; sua própria condição não fará contraste; assumiu todos os seus males antes de tornar-lhes fácil suportá-los

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'Vós que estais aflitos e sobrecarregados'. Qual é a carga? Ele não especifica. Especificar é reduzir, é limitar. Não hesiteis, ó homens; seja qual for vosso mal, foi previsto; há socorro para ele; se quiserdes, está de antemão curado.

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'E eu vos aliviarei'. Jesus não diz: ensinar-vos-ei onde está o alívio, em que lugar encontrareis o bálsamo. Mas diz: Eu vos aliviarei; porque o alívio é ele próprio".


"A Adoração ao Nome de Jesus" (1578-80), de El Greco

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