Monday, April 17, 2017

Moisés Maimônides sobre o conhecimento metafísico

Excerto de MAIMÔNIDES, Guia dos Perplexos (Coletânea). Trad. Paulo Rogério Rosenbaum. São Paulo: Sêfer, 2003, pp. 95-99.


Capítulo 34: Das águas do conhecimento 

"Cinco são as razões pelas quais não devemos começar nossos estudos judaicos com investigações metafísicas, nem concentrar nossa atenção nestes assuntos, nem tampouco divulgá-las entre as massas despreparadas.

Em primeiro lugar, está a complexidade do tema, sua sutileza e profundidade, como indicam as Escrituras: 'Quem saberá alcançar o que está muito distante ou é muito profundo?' (Eclesiastes 7,24) e 'De onde vem o saber?" (Jó 28,20). É incorreto iniciar um processo de instrução tentando aprender o mais difícil, profundo e difícil de entender. Um dos melhores exemplos disto em nossa religião são as comparações que nossos sábios fazem entre o conhecimento e as águas. Entre elas, todas fabulosas, há uma qu diz que se você quiser mergulhar até o fundo do mar para colher suas pérolas, primeiro aprenda a nadar na superfície; só arrisque-se a ir ao fundo quando estiver suficientemente treinado.

Em segundo lugar, a mente do iniciante nos estudos intelectuais é insuficiente por natureza. O homem não foi dotado da capacidade imediata de entendimento, mas pode e deve procurar aperfeiçoar este potencial gradualmente: 'O homem nasce como um selvagem inexperiente' (Jó 11,12). Apesar de ter sido privilegiado com o dom da inteligência, ela necessariamente não se manifestará em sua totalidade logo de início. O desenvolvimento mental pode ser interrompido por causas (Jó 32,9). Nossos sábios dizem: 'Vejo que os homens virtuosos minguam' (Tratado Sucá 45b). Na verdade, diversas causas impedem os homens de atingir o máximo de seu aperfeiçoamento intelectual e muitos são os fatores que os distraem durante o processo. Quando ele terá tempo e possibilidades suficientes para desenvolver e aprimorar esta capacidade?

Como terceira razão entendemos que o estudo da metafísica deve ser precedido de um longo período de estudos preparatórios. O homem por natureza anseia entender a conclusão final das coisas, não tem paciência para estudos básicos, e por isto os evita. Se não fosse necessários os estudos preparatórios para podermos compreender as matérias mais complexas, eles seriam inúteis por princípio. Se você quisesse incitar o mais inerte dos homens, como se o tivesse despertado de sua soneca habitual e lhe perguntasse: Você gostaria de saber em quantos firmamentos distintos se divide o céu, qual é sua forma e conteúdo, quantos anjos vivem em cada um, como o mundo foi criado e qual a inter-relação entre todas as suas partes, o que é a alma, como ela entra no corpo, como e se ela deixa o corpo algum dia e, neste caso, para onde vai etc? A resposta deste homem seria: Certamente que sim! Ele passaria então a escutar com atenção uma rápida e conclusiva exposição que, de acordo com suas expectativas, deveria se resumir em uma ou duas palavras. Mas se você sugerisse que ele se afastasse de seus negócios por uma semana para poder entender a fundo as explicações, ele declinaria, contentando-se com as ideias que tem, e provavelmente ficaria chocado se você lhe explicasse que são necessários inúmeros estudos introdutórios, além de uma ampla investigação para abordar os assuntos mencionados. Você compreende que são temas interligados, pois nada existe senão o Altíssimo e Sua obra, que Sua obra constitui-se de tudo o que está separado Dele, e que não há meio de compreender Sua essência a não ser estudando Sua obra. São os atos Divinos que indicam Sua existência e a natureza das crenas que devemos nutrir em tudo o que concerne a Deus, que afirma ou nega Sua existência.

Portanto, devemos examinar a natureza de tudo o que existe a fim de podermos apreender os dados essenciais que nos ajudarão em nossas especulações metafísicas. Quantos dados não foram derivados de cálculos numéricos e geométricos com a finalidade de negar a Deus mas, no final, acabaram apenas por engendrar novos cálculos e demandar novas explicações? Creio que você sabe da importância dos cálculos astronômicos e das ciências naturais como forma de reconhecer que o universo existe apenas porque Deus o governa - isto é, se você se interessa pela Verdade e não por fantasias. Existem outras teorias científicas das quais não podemos derivar dados metafísicos, mas que servem para aguçar a mente e refinar a capacidade de dedução, ajudando a dissolver a confusão que povoa o intelecto da maior parte dos pensadores que se apoiam em teoremas acidentais e em seus consequentes equívocos. Contudo, devemos ser gratos às ciências naturais por nos ensinarem a procurar ver as coisas como elas realmente são. Com efeito, apesar destas disciplinas não serem indispensáveis ao estudo da metafísica ainda assim podem ser úteis quando usadas em matérias relativas a esta ciência.

Quem busca o aperfeiçoamento intelectual deve primeiro exercitar-se na ciência da lógica, logo depois nas disciplinas preparatórias [disciplinas judaicas que compõem a lei oral] e, então, nas ciências naturais - para finalmente poder abordar a metafisica. Muitos obviamente param em algum destes estágios. E mesmo que vejam a si mesmos como mentalmente preparados, a morte pode encontrá-los antes mesmo do estágio propedêutico. Agora, vamos imaginar por um momento que não aceitamos qualquer evidência ou opinião recebidas através da nossa tradição, e que não nos submetemos a qualquer orientação ligada a alegorias, e ainda que nos atenhamos apenas à discrição essencial e provas demonstrativas daquilo em que acreditamos, algo que não poderá ser realizado a menos que passemos por todos os estágios mencionados acima; Certamente, todos os homens morreriam sem ao menos poderem saber se existe um Deus ou não, para não falarmos da conclusão satisfatória das provas ou negações de Sua Onipotência no universo. Ninguém escaparia de tão terrível morte, salvo 'um por cidade ou dois por família' (Jeremias 3,14).

A quarta razão é a diversidade da disposição natural das coisas. É claro e evidente que as virtudes morais são um pré-requisito para as virtudes intelectuais. A obtenção dos verdadeiros valores intelectuais é impossível a menos que o homem tenha galgado a escala dos valores morais, que seja digno e equilibrado. Existem pessoas cuja própria natureza de caráter as impede de atingir o aperfeiçoamento intelectual. A pessoa de temperamento volátil se expressa pela força física e é facilmente irritável, não importa quanto treine seu caráter. Um indivíduo que possua órgãos genitais quentes e úmidos e cujas glândulas produzam sêmen em excesso encontrará dificuldade em tornar-se casto ainda que se eduque bastante para isto. Outros são frívolos e mudam de comportamento repentinamente. Isto indica alguma falha em suas respectivas constituições. Tentar educar os jovens nesta disciplina [metafísica] é não mais que uma tolice, pois sabemos que isto não é como educar alguém em medicina ou em geometria, e que nem todos se ajustam ao estudo da Divindade, pelos motivos acima mencionados.

O preparo moral é essencial para que o homem mantenha a retidão de caráter e se aperfeiçoe: 'A rebeldia é abominação para o Eterno; mas Seus segredos reserva para o justo' (Provérbios 3,32). Isto é razão suficiente para não se ensinar a matéria aos jovens. Eles não podem adquirir este nível de conhecimento, pois se preocupam apenas como o que lhes pode brincar a chama ardente da adolescência. Somente quando a perturbação em seus corações se acalmar, e adquirirem uma atitude gentil, estarão aptos a elevar suas almas ao nível da compreensão de Deus, isto é, a metafísica ou a 'Descrição da Carruagem Mística', como dizem as Escrituras: ''O Eterno apoia os alquebrados de coração e salva os de espírito contrito' (Salmo 34,19) e 'Habito nas alturas e no coração do homem contrito e de espírito humilde' (Isaías 57,15).

A quinta razão é a preocupação do homem com suas necessidades físicas, que constituem um primeiro degrau no seu aperfeiçoamento, especialmente se for responsável pelo cuidado com sua esposa e filhos, e mais ainda se estiver absorto nos deleites deste mundo, um quadro que tende a piorar de acordo com seu estilo de vida, vícios e ambiente. Ele pode estar bem próximo da perfeição e ter superado as condições acima, mas basta que sua energia esteja direcionada para as necessidades essenciais - para não mencionar as não essenciais - e que estas aumentem, para que seu interesse pelos estudos teóricos diminua na mesma proporção. Seu estudo acabará por se tornar arrastado e vago, sem dedicação real, e ele não conseguirá aprender o que precisa, ou então aprenderá de maneira confusa e desordenada, entendendo as coisas pela metade.

Por todas estas razões, os estudos são adequados apenas a indivíduos privilegiados e não ao povo em geral. Isto explica porque este objeto deve ser mantido à distância dos iniciantes nos estudos, que devem ser impedidos de entrar em contato com ele, assim como impedimos uma criança de comer alimentos fortes ou de levantar objetos pesados".

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