Tuesday, April 04, 2017

Julián Marías sobre a inteligência como abertura à realidade e sobre a evidência

Excerto de MARÍAS, Julián. Tratado sobre a Convivência: Concórdia sem acordo. São Paulo: Martins Fontes, 2003:


"Cada vez me parece mais confirmada minha velha ideia das 'raízes morais da inteligência'. Minha convicção de que sem uma considerável dose de bondade se pode ser 'esperto', mas não verdadeiramente inteligente. E, mais que a uma preocupação moral, isso corresponde a uma evidência intelectual: a de que inteligência consiste sobretudo em abrir-se à realidade, deixar que ela penetre na mente e seja aceita, reconhecida, possuída. É frequente que a acuidade, a 'esperteza', coincidam com a maldade, sendo ela às vezes associadas; porém, se se observa bem, vê-se que não se trata de inteligência, isto é, de compreensão da realidade, mas de sua utilização ou manipulação.

Por isso, é preciso estar atento ao grau de abertura ou fechamento das pessoas, sobretudo daquelas que pretendem manipular o real, interpretá-lo ou explicá-lo. É característico do homem inteligente 'esperar'', não precipitar-se, deixar que o que aparece diante dos olhos ou procura penetrar pelo ouvido se manifeste por inteiro, exiba seus títulos de justificação, seja examinado por vários lados, de diferentes pontos de vista. Essa é a razão pela qual as mulheres, quando de fato o são - ou seja, quando são fiéis à sua condição própria -, se revelam sumamente inteligentes, proporcionalmente mais que os homens, tantas vezes apressados.

Quando leio um escritor, a primeira coisa que sinto é a possível impressão de abertura. Em suas páginas, talvez desde as primeiras linhas, percebe-se que algo novo está surgindo, que está se agregando ao que já se sabia, ou se está enfatizando um aspecto neglicenciado. Daí a impressão de enriquecimento, que suscita gratidão.

São os escritores que merecem ser lidos, porque fazem uma generosa doação de sua realidade, nos oferecem descobertas que fizeram na solidão, ou levaram a viver aspectos mal conhecidos da vida humana, ou fizeram vibrar, como uma expressão afortunada ou uma metáfora, facetas da realidade que começam a irradiar beleza.

Outras vezes, a impressão é bem diferente. O autor se mostra encastelado em algumas ideias, raras vezes suas, quase sempre recebidas, que precisamente se interpõem entre ele e o que as coisas são - para não dizer entre ele e as pessoas -, com o que nos priva de todo possível enriquecimento, de toda ampliação de nossa própria mente.

O bom degustador, quero dizer, o bom leitor que leu, ano após ano, muitas páginas e sabe distinguir, não tarda a perceber essa decisiva diferença. Vê que não pode esperar nada, que não receberá nenhuma inovação. Nesta época em que a produção de estritos é imensa, em todas as suas formas, em que é inabarcável não já o conteúdo do que se publica sobre qualquer questão, mas os simples títulos, a capacidade de distinguir é salvadora, talvez a única forma de sobreviver à inundação que nos acossa por todos os lados.

Há autores que nos dão a impressão de que 'não percebem nada', de que, aconteça o que acontecer, diga-se o que se disser, se obstinam, repetem o que ouviram ou leram há muito tempo, o que manifestou seu erro ou sua falsidade. Lembrem-se da história do general tão valente que não se rendia nem à evidência.

Ás vezes, o fechamento se deve à escassez de inteligência, à incapacidade de refletir sobre o que se leu ou ouviu, inclusive o que se pensou em algum momento e foi desmentido pelos fatos ou por ua visão mais ampla. A preguiça, quase sempre esquecida, explica muitas coisas.

Mas há uma forma de fechamento mais profundo e que merece ser examinado. Não se trata de simples fechamento, obturação da mente diante do que procura penetrar nela. Tem um caráter defensivo, é uma resistência ao real, como se fosse uma agressão ou uma ameaça. Por isso, essa forma de fechamento é hostil, quase sempre polêmica, beligerante.

Aquele que fala ou escreve sente-se em perigo, inquieto, agredido, não por uma tese distinta ou oposta, mas pela própria realidade. Isto é, defende o que no fundo sabe o que não é verdade, identifica-se com isso, como se fosse ele mesmo, rejeita o diferente.

Não se entende bem essa atitude. Como pode a realidade ser 'inimiga'? Não é ela aquilo que nos cerca, como o que temos de construir nossa vida? A estrutura efetiva do mundo, a história que de fato aconteceu, a consistência do humano, as condições da personalidade, como pode ser isso 'adverso', devendo ser combatido e rechaçado? Se se observa bem, é a expressão máxima da insegurança, o temor de ver dissipar-se aquilo que se considerou, sem motivo, como fundamento da própria vida.

Essa impressão de que há muitos que 'não percebem nada', que continuam imperturbáveis em noções que não resistem sequer um minuto à reflexão e à análise, ao confronto com os fatos, é desalentadora. É sobremaneira frequente quanto intervém a paixão política quase sempre associada à mentira - ao contrário da política nobre, que busca, como dizia Fichte, 'declarar o que é'. Há formas extremas que estão rigorosamente estabelecidas sobre a falsificação, para as quais o real é um veneno mortal.

Mas, ao lado desse fechamento, há sintomas encorajadores de abertura - muito especialmente entre pessoas que não têm grandes pretensões, que não procuram definir, que não creem que sabem tudo. São aquelas que buscam precisamente 'perceber' - isto é, integrar-se -, que sentem alegria e gratidão quando lhes é mostrado algo que não tinham visto ou com o que não tinham contado.

E essa magnitude é máxima se descobrem que se achavam em erro, se se vêem obrigadas a corrigir, isto é, a instalar-se na verdade que lhes escapara. Sentem que são melhores, mais reais, que aconteceu um fortalecimento de sua própria pessoa" (pp. 13-16).


* * * 

"Aquele que tem vocação de buscar a verdade, se não se contenta com aproximações ou meros vislumbres, se põe à prova o que pensou, pode chegar a uma experiência deslumbrante, fascinante, o maior prêmio do esforço intelectual: a evidência.

Ele chega a ver que algo é 'assim'. Compreende-o e, ao mesmo tempo, descobre sua justificação: vê por que é tal como o está vendo; em alguns casos, essa visão é acompanhada pela de sua necessidade: 'tem de ser assim'. Esse é o ápice de um processo intelectual digno desse nome.

Não é frequente, mas algo especialmente difícil; requer um grande esforço do que mais se regula: pensar. Não ler, observar, fazer experimentos ou estatísticas, mas olhar, ensaiar diversas perspectivas, examinar a questão de diversos pontos de vista, estabelecer conexões - nisso consiste a razão, distinta da mera inteligência -, tentar invalidar o que se entreviu, até assegurar-se de que o esforço é vão, de que isso que se viu é 'assim'. O extraordinário filósofo Gratry [nota: o Pe. Auguste Joseph Alphonse Gratry foi um teólogo e filósofo francês do século XIX que se opôs ao dogma da infalibilidade papal e depois se desculpou; filosoficamente, estabeleceu o conceito de um "sentido divino", pelo qual  a alma humana percebe sua religação constitutiva a Deus], tão esquecido, dizia 'Tout ce qu'un homme a vu est vrai' (Tudo o que um homem viu é verdade). A palavra decisiva é 'viu'; se se omite parte do que se viu, se se acrescenta algo que não se vê, o resultado pode não ser verdade" (pp. 100-101).


1 comment:

Thaylan Granzotto said...

As virtudes são condições indispensáveis à inteligência, da mesma forma a moralidade.

A verdade, como bem disse, “é a apreensão da realidade”. Para que se apreenda a realidade é preciso estar aberto a ela. Quando um sujeito rouba da realidade algum aspecto que não lhe é conveniente, pelo fato de ser a realidade a refutação de suas teses ideológicas, ele rouba a sua própria liberdade e passa a ser escravo da mentira. Escravo de um mundo falso, que não existe e que ele mesmo criou. Ele passa a viver uma vida sub-humana, com medo, por ser ela (a vida) a realidade mesma.

No âmbito das virtudes, a soberba é antagônica do conhecimento, por exemplo. Pois para que se possa saber algo é necessário saber se ignorante/desconhecedor deste algo.

Portanto, diferente do consenso que há hoje, de que os religiosos são pessoas ignorantes: a verdade é que a inteligência, que também está ligada à espiritualidade porque a nossa alma além de ser intelectual é espiritual, pressupõe a moralidade e as virtudes que provém da religiosidade. Se o sujeito for honesto e humilde, com certeza será mais inteligente que um desonesto e vaidoso/orgulhoso.