Saturday, December 17, 2016

Conhecer e(é) amar


"Eu te desposarei a mim na fidelidade
e conhecerás a Iahweh" (Os 2,22)

"Pensar e ser é o mesmo" (Parmênides)

"A alma é de algum modo todas as coisas" (Aristóteles)

"Inteligência e realidade são congêneres" (Zubiri)




Nos termos bíblicos, "conhecer" se refere, às vezes, ao ato conjugal. Em termos filosóficos, pode-se dizer que o "conhecimento" é uma comunhão entre o inteligente e o real, e que a isto apontam as frases supracitadas. Em termos teológicos, o conhecimento de Deus só é possível a partir do amor (cf. 1Jo 47).

O que significa isto de que o conhecimento é "comunhão entre inteligência e realidade"?

O ato conjugal, a comunhão amorosa entre os esposos, serve-nos como metáfora para o ato de conhecimento: os cônjuges se doam mutuamente, havendo um perfeito encaixe entre os órgãos sexuais, no qual o masculino pode significar tanto o intelecto que penetra a realidade, quanto o ser que fecunda a alma humana; e o feminino pode significar tanto a inteligência que recebe o real, quanto a forma substancial que se abre à perscrutação do pensamento.

Sobre esta comunhão entre o ser e o pensar, Zubiri dirá que a realidade e inteligência são "congêneres", isto é, não há, de certo modo, prioridade do real sobre a inteligência nem da inteligência sobre o real, porque a inteligência consiste em apreensão do real, e o real é o objeto formal da inteligência. Digo "de certo modo" porque a realidade, dentro da congeneridade, tem uma precedência sobre a inteligência, assim se apresentando no ato mesmo da intelecção: a realidade inteligida é apreendida como algo de suyo, isto é, que está presente na intelecção desde si mesma (em outras palavras ou de modo mais simples, na própria intelecção nós percebemos que haveria realidade mesmo que não houvesse homem para vê-la e dizê-la).

Como diz o autor espanhol, "sujeito" e "objeto" não existem fora desta comunhão originária (o homem não existe "à parte das coisas"), mas são realmente distintos nela, da mesma forma que marido e mulher conformam uma unidade indissolúvel, ainda que cada um conserve sua personalidade individual ("antes" ou "fora" dos atos inteligentes, a pessoa não vive como tal, o que não significa dizer que não seja pessoa, contrariamente ao que dizem os ridículos argumentos pró-aborto). A "mesmidade" não é uma dissolução do ser no pensamento, como o matrimônio não anula as pessoas dos cônjuges, ou a beatitude, o desposório místico em que a alma recebe definitivamente a Deus e é por Ele recebida, não dissolve o ser humano no Ser Divino.

Como o "amador se transforma na cousa amada" (Camões), a alma humana faz-se uma com todas as formas reais que abstrai. Ela é imagem de Deus, o qual tem em si todas as Ideias, e no encontro com as coisas sensíveis (a alma) atualiza em si as formas das coisas, que participam do Logos Divino (a "Ideia" de nossa alma é o próprio Verbo, por assim dizer). As formas se doam à alma, e esta doa sua inteligência a elas, "concebendo" o verbo mental pelo qual diz o ser das coisas. Esta mútua doação consiste, portanto, numa intelecção amorosa pela qual a alma se conforma ao real e o real se conforma à alma.

Se o conhecimento começa com a "admiração", como diz Aristóteles, então ele não é essencialmente uma manipulação da realidade, como faz a ciência empírica moderna (ainda que não seja forçoso que o cientista proceda com esta intenção), mas uma contemplação que busca desvelar com desvelos. É o real que desperta a atenção da inteligência, a qual vê, naquele, o seu "bem", não no sentido de "propriedade", mas no de "amor" (complemente-se a perspectiva gnosiológica desta breve meditação com a perspectiva metafísica do texto Ser e(é) amor).

O "desejo de Verdade" é inspirado pela própria realidade, que se apresenta a nós ao mesmo tempo resguardando-se, como uma donzela que se entrega apenas a quem a corteja e trata com reverência e pureza de intenções, comprometendo-se com ela definitivamente. A vida intelectual é uma "dedicação", uma consagração à realidade, e quando ela é autêntica funciona como um "sacramental", que leva o devoto a se aproximar cada vez mais amorosamente da Fonte Verdadeira, e que atrai os demais a fazerem o mesmo (cf. Jo 17,17), desde suas próprias possibilidades.

Esta devoção torna a pessoa humana "cooperadora da Verdade" (cf. 3Jo 8), tal como o papa emérito Bento XVI, que assumiu este lema na sua eleição pontifícia, e que certamente foi um dos maiores amantes da Realidade Verdadeira dos últimos tempos. Que neste momento tenebroso da história, em que a realidade criada não é mais respeitada e que a Verdade é conspurcada, sua vida nos inspire a amá-las e anunciá-las com o exemplo e as palavras.


"Alegoria da Castidade" (c. 1320), de Giotto

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