Wednesday, October 12, 2016

Chesterton e o distributismo

Excertos do capítulo I ("Algumas ideias gerais") do livro Um esboço da sanidade: Pequeno manual do distributismo:


"Solicitaram-me o republicar destas notas -que apareceram num jornal semanal- como um esboço grosseiro sobre certos aspectos da instituição da propriedade privada, agora quase inteiramente olvidada em meio a júbilos jornalísticos ao redor da iniciativa privada. O fato mesmo de que os publicistas falem tanto desta e tão pouco daquela é, em si, uma medida do tom moral dos nossos tempos. Um batedor de carteiras é obviamente um campeão da iniciativa privada. Mas seria, talvez, um exagero dizer que um batedor de carteiras é um campeão da propriedade privada. O problema com o capitalismo e o comercialismo, propagados como têm sido recentemente, é que eles são realmente defendidos como uma extensão do comércio em vez de uma preservação dos pertences; e têm tentado, na melhor das hipóteses, disfarçar o batedor de carteiras com algumas das virtudes do pirata. O problema com o comunismo é que ele apenas reforma o batedor ao impedir a existência dos bolsos" (G. K. Chesterton, Um esboço da sanidade: Pequeno manual do distributismo. Trad. Raul Martins. Campinas: Ecclesiae, 2016, p. 7).



"Se o capitalismo significar a propriedade privada, então sou um capitalista. Se o capitalismo significar capital, somos todos capitalistas. Mas se o capitalismo significar esta condição particular do capital, apenas repassado à massa sob a forma de salários, então de fato significa algo, ainda que devesse significar outra coisa.

A verdade é que aquilo a que chamamos capitalismo deveria chamar-se proletarianismo. O ponto disso não é que algumas pessoas possuem capital, mas sim que a maioria das pessoas tem salários simplesmente por não possuírem capital" (Ibid., p. 10).



"Um governo socialista é um cuja natureza mesma não tolera qualquer oposição real e verdadeira. Pois lá o governo fornece todas as coisas; e seria absurdo pedir a um governo que ele fornecesse uma oposição" (Ibid., p. 12).



"A propriedade é uma questão de honra. O antônimo verdadeiro da palavra 'propriedade' é 'prostituição'. E não é de modo algum verdade que um ser humano há de sempre vender o que é sagrado àquele senso de autopropriedade, quer seu corpo, quer suas fronteiras" (Ibid., p. 22).



"Ora, o sistema capitalista, bom ou mal, correta ou erroneamente, repousa sobre duas ideias: a de que o rico será sempre suficientemente rico para contratar o pobre; e de que o pobre será sempre suficientemente pobre para desejar ser contratado" (Ibid., p. 27).



"O capitalismo é contraditório assim que está completo; pois lida com a massa de homens de duas maneiras opostas ao mesmo tempo. Quando a maioria dos homens é assalariada, torna-se mais e mais difícil que a maioria dos homens tornem-se clientes. Pois o capitalista está sempre tentando cortar o que seu funcionário lhe exige e, ao fazê-lo, está a cortar o que seu cliente pode gastar. Assim que vê seu negócio em dificuldades, como é o caso atual do ramo de carvão, ele tenta reduzir seus gastos nos salários, e ao fazê-lo acaba por reduzir o que outros têm para gastar em carvão. Essa contradição no capitalismo não se mostra nos primeiros estágios, pois ainda há populações não reduzidas à condição do proletário comum. Mas assim que os ricos como um todo estão empregando os assalariados como um todo, a contradição fita-os com o irônico semblante da perdição e do juízo" (Ibid., p. 30). 



"Não oferecemos a perfeição; o que oferecemos é a proporção. Desejamos corrigir as proporções do estado moderno; mas a proporção se dá sempre entre coisas variadas; e dificilmente  a reduziríamos a um padrão. É como se estivéssemos desenhando a figura de um homem vivo, e julgassem-nos a desenhar um diagrama de engrenagens e linhas para a construção de um robô. Não propomos que se devam manter todas as terras de maneira igual em uma sociedade saudável; ou que se devam manter todas as propriedades sob as mesmas condições; ou que todos os cidadãos devam ter a mesma relação para com a cidade. É todo o nosso argumento que o poder central precisa ter menos poderes para balancear e checar, e que esses devem ser os mais diversos: alguns individuais, alguns comunais, alguns oficiais, e assim por diante. É bem provável que alguns abusem de seus privilégios; mas preferimos esse risco àquele do Estado ou do truste, que abusam da sua onipotência" (p. 53).



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