Wednesday, July 06, 2016

Julián Marías sobre a cristianização da América

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O projeto original da Espanha ao empreender a descoberta e exploração do Novo Mundo foi a cristianização dos povos desconhecidos. Antes da expedição de Colombo, o bispo de Ávila explicava a Isabel a Católica por este fim a publicação da Gramática castellana de Antonio de Nebrija, primeira de uma língua viva.

Que este projeto era sincero e verdadeiro dá testemunho o fato incontroverso da evangelização: a maior comunidade católica do mundo é a da América hispânica ou ibérica. Nenhum dos países colonizados por europeus, com povoação aborígene, é cristão; há neles comunidades cristãs, mas não o são os países como tais; a única exceção é, na Ásia, as Filipinas, igualmente hispanizadas.

O cristianismo é a religião desta América, como o espanhol é sua língua (o português no Brasil). A ação dos religiosos e sacerdotes espanhóis foi intensa e fecunda, e se estendeu a outra parte do território atual dos Estados Unidos. Além de sua função estritamente religiosa, representavam o elemento intelectual da presença espanhola; estudaram e aprenderam uma multidão de línguas indígenas, traduziram a elas livros para a evangelização, investigaram as condições de vida daqueles povos, seus costumes, a flora e a fauna, foram decisivos na fundação de centros de estudo, inclusive as muito precoces universidades, muito mais antigas que as da América do Norte.

É evidente também a função da Igreja em limitar as violências, os abusos, os intentos de exploração; igualmente a preocupação religiosa, moral e jurídica por precisar os direitos da Espanha no Novo Mundo, seus limites e as obrigações que a incorporação à Coroa impunha.

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Entretanto, a Igreja deve guardar-se de uma manifesta -e injusta- tendência à autocomplacência. Está-se difundindo a propensão a considerar que os religiosos eram os 'bons', frente aos descobridores, exploradores e colonizadores, como os 'maus'. A empresa da América não foi realizada pelos eclesiásticos, mas por grupos de espanhóis seculares, sob o patrocínio dos reis, em uma série de proezas de incrível dificuldade, heroísmo e sacrifício, com risco e perda efetiva de inumeráveis vidas, e com o cristianismo sempre presente, o que supôs a permanente colaboração dos religiosos e sacerdotes, principalmente dos bispos.

A empresa da América foi toda ela cristã, desde o primeiro momento e por parte de todos os implicados nela. Pecadores, certamente; culpáveis alguns de violências, crueldades e delitos, não mais que os índios contra os espanhóis e ainda mais entre si, nem tampouco mais que nas lutas de europeus cristãos de todos os países, uns contra outros. Se se compara a violência exercida nas Índias [América] com a que existia no final do século XV e no XVI na Europa -na Itália, França, Alemanha, Inglaterra-, a primeira é incrivelmente reduzida. A diferença principal é que se protestou contra a espanhola -e em grande parte pelos próprios espanhóis-, enquanto se elidiu quase sempre a dos demais países.

Há que se ter em conta, a respeito das denúncias de crueldades e violências feitas por religiosos, em primeiro lugar, que em sua máxima parte se referem aos primeiros decênios e a espaços muito reduzidos; em segundo lugar, não se pode esquecer o fato de que muitas dessas denúncias eram exageradas ou inteiramente irresponsáveis, nascidas de atitudes fanáticas, de hostilidades particulares, de rivalidades de ordens [religiosas], de afã de notoriedade. Basta pensar que em nossa época se encontram exemplos muito parecidos, cujo valor deve se submeter a rigoroso exame antes de aceitá-los automaticamente.

Se se considera o conjunto da América hispânica durante os três séculos da época vicerreinal, o que surpreende é a paz dominante, turvada por mínimas exceções, localizadas e de breve duração, em um imenso território. Não se esqueça que nunca houve exércitos espanhóis na América, senão pequeníssimos grupos de conquistadores, compostos de umas quantas centenas de homens, de iniciativa privada ainda que em nome da Coroa; e que nunca houve guarnições espanholas na América, senão milícias locais e muito reduzidas.

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O característico da hispanização da América foi o ser um enxerto espanhol nas sociedades pré-existentes, e não um transplante de sociedades europeias a território americano para formar nele sociedades igualmente europeias. O resultado mais real e representativo foi a mestiçagem, nascida da consciência cristã de ser todos os homens irmãos, por ser filhos de Deus, e não existir entre eles inferioridades ou superioridades essenciais e originárias, senão resultados da história ou da conduta pessoal. Não houve racismo a respeito dos índios, nem tampouco a respeito dos negros quando foram levados ao Caribe ou ao Brasil; o cristianismo foi vigente em toda a história da América enquanto foi parte da monarquia católica ou hispânica, o qual não quer dizer que estivesse livre de erros, quedas e pecados, como pertence à condição humana.

A Igreja espanhola de hoje tem, não já o direito, mas o dever, de mostrar sua participação nesses processos históricos de grande valor, mas deve evitar o 'narcisismo' dos diferentes grupos, o elogio exagerado de tais ou quais ordens, a aceitação da obra de seus membros, ainda que seja muito discutível e objetável. O exemplo mais notório é o do padre [Bartolomeu de] Las Casas, com o qual não parece prudente nem acertado solidarizar-se, menos ainda apresentá-lo como um modelo. Na história das ordens religiosas, como na do episcopado ou qualquer comunidade humana, há capítulos admiráveis e até gloriosos, e outros lamentáveis -a Inquisição, por exemplo, tão difícil de justificar cristianamente-, e parece imprudente aceitar tudo sem distinção.

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Desde muito cedo, já plenamente no século XVI, a América estava organizada em verdadeiros países, nunca 'colônias' -termo utilizado depois da independência, por imitação da colonização francesa e inglesa na Ásia e África-, províncias ou reinos, unidos pela pertença à mesma Coroa. Felipe IV, cerca de 1630, falava de 'estes reinos e esses reinos', e dizia que a Espanha era 'parte moderada' da monarquia. Os vice-reis regiam, em nome do rei comum, os diversos reinos da América. A organização eclesiástica deles deveria ser recordada com precisão, e a participação da Igreja no desenvolvimento da educação e sobretudo dos estudos superiores, desde Santo Domingo e, sobretudo, as universidades (México e São Marcos de Lima em 1551, frente a Harvard, 1636, e Yale, 1701).

Durante os anos da conquista se destroem alguns monumentos, como sempre ocorre nas lutas, mas a característica da América hispânica é seu caráter construtor, somente comparável a Roma. Recorde-se o esplendor de muitas cidades, desde Santo Domingo, que teve tempo de ser gótica, até México, Puebla, Cholula, Oaxaca, Mérida, Havana, Cartagena, Quito, Lima, Cuzco, Arequipa, Santiago, Buenos Aires e centenas mais, cheias de templos, catedrais, palácios, incomparáveis com as modestas cidades do norte, de muito escasso desenvolvimento urbanístico e artístico.

Em tudo isso, a parte preponderante é a religiosa: igrejas, mosteiros, catedrais, cheios de obras de arte, não só nem principalmente importada da Espanha, mas realizada por artistas índios ou mestiços, desde a arquitetura até a pintura da escola cuzquenha, que produziu uns seiscentos mil quadros nos três séculos do vice-reinado do Peru.

As línguas indígenas foram conhecidas e estudas principalmente por religiosos; mas ao mesmo tempo foram eles em muito grande proporção os que ensinaram espanhol aos índios, até conseguir que fosse sua língua própria, com a qual puderam transcender os estreitos limites de sua língua particular e comunicar-se, não já com os espanhóis, senão com os demais índios, e ter acesso à cultura universal.

O fato de que ainda haja restos -bastante reduzidos- de povoações que não sabem espanhol deve ser explicado antes como uma regressão dos cento e setenta anos de independência, que teve como sua consequência mais grave a fragmentação do mundo hispânico em países que nem sequer conservaram, de modo geral, as grandes unidades dos antigos vice-reinados. E não se esqueça que no século XIX e no XX houve grandes fases de hostilidade à Igreja, ao cristianismo, e finalmente deslocamentos dentro dos eclesiásticos para atitudes mais politicas que religiosas, o qual resultou numa diminuição da influência benéfica da Igreja católica.

Há que ter presente, na época atual, o descenso do catolicismo em grande parte da América de língua espanhola e portuguesa, em favor do protestantismo, em uns casos, de seitas confusas em outros e de uma descristianização politizada em terceiro lugar. Parece indubitável que este inquietante processo se deve muito principalmente à frequente insistência por parte de muitos eclesiásticos em questões meramente temporais, políticas, econômicas e sociais -acaso sem adequada competência e autoridade-, com descuido do próprio e estritamente religioso, que é necessidade das pessoas, que se tenta satisfazer em outros lugares ou, no pior dos casos, é malbaratada.

Não se esqueça que estas atitudes quase sempre envolvem em sua hostilidade a tradição da Igreja, a continuidade da evangelização no Novo Mundo, que se qualifica de 'humilhante' ou de 'desastre', às vezes por parte de alguns que têm condição religiosa.

A verdade há de ser aceita, seja a que for, e ainda que seja em algumas ocasiões dolorosa. Mas o inaceitável é dar curso à falsidade ou introduzir essa maneira de falsificação que consiste em ocultar o positivo e avultar o negativo, acaso invertendo totalmente a proporção entre ambas as coisas.

Nas manifestações e publicações da Igreja se deveria extremar o rigor, prescindir das apologias particulares de uma tendência particular, às vezes com detalhes minuciosos que a ninguém interessam, e apresentar um quadro veraz do que foi o processo de cristianização mais amplo, rápido e fecundo de toda a história".


[MARÍAS, Julián. Sobre el Cristianismo. Barcelona: Editorial Planeta, 2000, pp. 184-190; os grifos são do autor]



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