Saturday, June 04, 2016

Ser e (é) Amor

"Eu sou Aquele que É" (Ex 3,14)

"Deus É Amor" (1Jo 4,8.16)

"Deus é Luz" (1Jo 1,5)

"Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto e desce do Pai das luzes, no qual não há mudança nem sombra de variação" (Tg 1,17)


Tomás descobre, numa análise metafísica, a "distinção real" (melhor seria dizer "composição real", para não dar margem a pensar que são "2 coisas") entre "ser" (esse) e "essência". 

O ente "é aquilo cujo ato é ser". Todo ente criado "tem" ser, porém sua "essência", que não deve aqui ser considerada a Ideia Eterna ou o conceito/definição lógica, nem a quididade ou forma inteligível abstraída (a ser conceituada), e tampouco apenas a forma real, mas o ente mesmo em sua integralidade, a realidade extramental enquanto composto de matéria e forma (no caso do ente sensível, material) vista, porém, como "tal ente", dotado de tal forma, esta "essência", digo, é uma forma de realizar o "ser", uma forma que "delimita" o ser ou, como dizem alguns tomistas contemporâneos, delimita a "existência", a qual, por seu turno, não deve ser entendida como a "facticidade" nem com a "temporalidade" (isto está incluso no conceito transcendental "ente" ou ens, "sendo"). "Existir" ou "ser", aqui, é "ter uma essência", a qual é uma "coisa"/"essência" que "está/transcorre no mundo". 

No ente mesmo, há um "momento" (usando a linguagem fenomenológica) que é o da "propriedade" das notas essenciais: um ente é uma essência "própria", e este caráter de propriedade, de possuir a essência, tê-la como "sua", é o "essencial", por assim dizer, o que define o "ato de ser". O ato de ser é o que reifica, o que realiza as notas, as partes essenciais, fazendo do ente um "todo" orgânico ou estrutural, e não um "conjunto de pontos ligados pelo conceito da mente" (por isso, na postagem Tomas, Zubiri e o conhecimento humano do real, eu referi que a abstração da forma inteligível é, necessariamente, apreensão do ato de ser, que é o linque entre a coisa no mundo e sua presença na mente, é aquilo que nos arrasta para a intelecção da coisa). 

Deus é o Ipsum Esse, é o Próprio Ser. Sua Essência é Ser. Ele não "tem" ato de ser, mas "É": Auto-Possessão Absoluta (de Absoluta Concreção Espiritual, o Ser não é uma "abstração"). 

Isso fica melhor esclarecido quando relemos os conceitos fundamentais da ontologia clássica a partir desses desenvolvimentos (conhecer estritamente é sempre entender algo à luz de outra coisa): substantia (latim) na realidade traduz ousía, que, em grego, significava originariamente os "bens, haveres, posses" de alguém. Alguém "se basta" quando tem suficiente ousía. O pano de fundo da noção aristotélica de ser é a ideia de "auto-possessão" ou "autossuficiência". O que é autossuficiente não são os acidentes, pois radicam na ousía, no composto de matéria e forma (no caso dos entes sensíveis). Autossuficência é a razão formal da substância aristotélica. Aí já está, compacta ou confusamente, a noção de "ato de ser"; não está clara porque não há, em Aristóteles, a noção de "criação" e, portanto, a diferença entre a Autossuficiência Absoluta do Motor Imóvel e a autossuficiência relativa das demais substâncias.

O conceito latino res, que traduzimos por "coisa" ou "essência" (no sentido de "coisa determinada"), deu origem à palavra portuguesa "rês", "gado", num sentido que se aproxima ao da ousía, podendo significar "riqueza", "fazenda", isto é, "conjunto de bens" (donde o nosso "ministério da fazenda"). 

Há uma proximidade com os conceitos gregos de arché physis, respectivamente "princípio" e "natureza", nos sentidos de um "originar permanente" (e não cronológico) e de um "princípio operativo imanente"/"brotar ou nascer de si mesmo". O "princípio" é "fonte", "leito" e "foz" da realidade; a "natureza" difere do "artefato" enquanto as propriedades deste não são "próprias" dos seus elementos naturais, surgindo do engenho humano que recombina coisas naturais.

Aristóteles cunhou o conceito de "ato" (energeia), "plenitude"; a realidade é "ativa", é "atuação", mas designou a "forma" como o princípio real mais excelente, aquele que dá conta da realidade da substância, ao atualizar a matéria-prima. A forma, contudo, é o princípio determinante da essência do real, fazendo com que o real seja "isto" ou "aquilo outro". Mas será a forma aquilo que faz o real "ser" simplesmente?

O que Tomás viu, na sua primeira obra, O ente e a essência, é que, se a forma fosse o princípio último da realidade ou da substância, uma forma "pura" (substância separada aristotélica ou anjo bíblico) seria divina. Mas os anjos são criados, então o seu ser, doado por Deus, não pode ser explicado suficientemente através da forma angélica, sendo necessário, portanto, supor que há um princípio ou ato mais supremo que a própria forma: esta última é o princípio da especificação da realidade (enquanto a matéria é princípio da individuação, nos seres sensíveis), mas ela é "potência" em relação a sua existência (não que sejam "2 coisas", como já falei no início); a forma não dá conta absolutamente da realidade (autossuficiência) de algo, mas se subordina ao princípio ou "ato de ser". Só Deus é o Próprio Ser, as demais realidades, a começar pelos anjos, "têm" ser ou "participam do ser": do ser que são, mas que não realizam de golpe, senão processualmente, e da totalidade do ser criado, e não diretamente do Ser Divino (o que seria panteísmo).

Essa distinção (ou composição) é de uma riqueza maravilhosa, mas parece que insuficientemente explorada na filosofia, mesmo pela escola tomista, que na Modernidade não valorizou este tema. Por que digo que é algo grandioso? Porque precisamente a análise desta composição é que nos permite chegar filosófica ou racionalmente ao Deus Criador e Transcendente da Bíblia! Se lermos a "1a via" com esta chave metafísica, entenderemos que ali não se trata só de "atos" para ser "isto" ou "aquilo" (o que, no final das contas, poderia ser explicado só com o recurso às causas ou atos segundos), mas de uma comunicação do ser ou existir mesmo: "atualizar" uma potência é "realizá-la". Assim, o fogo não transmite apenas "calor" ou "quentura" à água fria, mas "realidade"/"ser" caloroso ou quente. "Atualizar" é "fazer mais real", "ativar realidade (ser)". E é porque as realidades intracósmicas não têm o ser por si mesmas, ou seja, elas não recebem apenas o ser "isto" ou "aquilo", mas o "ser" isto ou aquilo, que deve haver um Ato Puro ou Motor Imóvel que é o Ser Subsistente! Não porque não possa haver uma série infinita de coisas finitas, mas porque uma infinitude de coisas finitas, e ponto, é algo sem sentido! A série (quantitativamente) infinita não poderia ter se dado o ser, justamente porque nesta série só há coisas finitas que não possuem o ser por si! Logo, sendo finita ou infinita (o que em tese seria possível, como demonstrou Tomás em Acerca da eternidade do mundo) a série das coisas finitas, elas devem repousar num Ser qualitativamente Infinito, que possui o Ser por Si e transmite o ser (criado) a suas criaturas finitas, transcendendo-as, isto é, distinguindo-Se delas. O Motor Imóvel não está no princípio cronológico das coisas, ele é seu Princípio Supremo hic et nunc.

O leitor impaciente com estas reflexões demasiado especulativas, deve estar se perguntando: "onde entra o amor?". Pois exatamente no fato de que o "ser", a "existência", é "comunicação" (de realidade), é "doação". Ou seja, "ser" é "amor"! Agora, podemos entender melhor a associação semântica dos conceitos metafísicos de "substância" (ousía), "coisa" (res), "natureza": os bens, os haveres, as propriedades, definem o "ser" como "bem". E a perspectiva cristã esclarece que tal "bem" não é uma espécie de "propriedade privada", mas o "bem é difusivo de si e do ser", como já dissera o Pseudo-Areopagita. A riqueza do ser é transbordante, o ser é um bem que se comunica e faz com que outras realidades sejam. Deus, "o Ser", é também, pois, "o Bem", que se difunde como a luz (não por acaso, primeira obra do Gênesis). Deus é Luz, porque o Ser é irradiação de Si, é dom. E Luz é Inteligência, e Verdade porque é o que faz "ver".

Se isto é assim, podemos entender que "ser" é tão somente a definição nominal "do que há", e que "bem" é a mais íntima razão das coisas reais, mas o bem entendido cristãmente, ou seja, o "amor". A esta mesma conclusão chegou Zubiri, ao dizer que "realidade é doação". Seu conceito de realidade como algo de suyo, esclarecido como um "em si que dá de si" (na obra menos conhecida Estructura dinámica de la realidad), talvez seja o mais adequado para dizer "o que é o que há". De suyo, "de si mesmo", onde este "de" desempenha o duplo papel genitivo: "de" como "pertença" e como "procedência". Aquilo que é "de si', "seu", se doa; se doa porque se possui, e isto é ser: o ato de ser é a bondade, é o amor. Quem não ama não sabe o que é existir; amar não é o sentido da vida só porque está na Revelação cristã; amar é o mais próprio de todo e qualquer existente; o existente humano deve amar formalmente, mas isso não é uma obrigação que lhe é imposta, e sim a condição de sua vida. O sentido de todas as demais realidades também é amar e servir, isto é, doar possibilidades para os demais seres.

O ato de ser ou a bondade é que torna real uma determinada essência ou coisa; a "presença no mundo" é um efeito desta bondade ou ser íntimo. Como diz Zubiri, é a primeira 'atualidade" da coisa real (ele chama, a partir de outra categorização, esta atualidade de "ser", mas este ser não é o ato de ser tomasiano, evidentemente, mas o "ser" de Heidegger). Nós estamos "presentes no mundo" e isto significa: somos "presentes", "dons", para os demais. Que o leitor retire, pois, suas conclusões práticas (éticas).


"A Sarça Ardente" (c. 1634), de Francisco Collantes

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