Monday, June 06, 2016

Mestre Eckhart e a gnose

"Algo hay en el alma que es increado e increable; si toda el alma fuera tal, sería increada e increable, y esto es el entendimiento" (Denzinger 527).

Esta talvez seja a tese de Mestre Eckhart, OP (que é uma dentre as condenadas pelo Magistério), mais importante para o desenvolvimento posterior da História da Filosofia. Se em Escoto o "ser unívoco" que abarca tanto o "ser infinito" quanto o "ser finito", prenuncia, de algum modo, a corrente racionalista panteísta da Modernidade (p.ex.: Spinoza), e se o nominalismo fideísta de Ockham prepara o advento das concepções empiristas dos deístas, a identificação realizada pelo mestre renano entre o cume da alma e o "entendimento divino (incriado)" antecipa o romantismo gnóstico.

Seguem outras três teses condenadas, para análise:

"Interrogado alguna vez por qué Dios no hizo el mundo antes, respondió que Dios no pudo hacer antes el mundo, porque nada puede obrar antes de ser; de ahí que tan pronto como fue Dios, al punto creó el mundo" (Denzinger 501).   

"Asimismo, puede concederse que el mundo fue ab aeterno" (Denzinger 502).  

"Asimismo, juntamente y de una vez, cuando Dios fue, cuando engendró a su Hijo Dios, coeterno y coigual consigo en todo, creó también el mundo" (Denzinger 503).   

Para o dominicano, o primário em Deus é a "Unidade" (enquanto indistinção), superior ao "ser divino". Segundo Eckhart, a revelação do "Nome Divino" é uma "não revelação": "Eu sou o que sou" (Ex 3,14) corresponderia a "não quero dizer o que sou" ou "sou inominável". A "Unidade" seria a essência divina ou a "Divindade" da qual brota a Trindade de Pessoas e as criaturas. Deus passa a "ser" ou "é" quando "conhece", e isto significa: quando a Divindade essencial "faz-se" Deus, isto é, "conhece-Se" como Pai, que "gera" o Filho, o Verbo onde habitam todas as Razões, e "cria" o mundo. Não se trata de uma processualidade temporal, mas eterna: a Unidade está sempre, desde toda eternidade, emanando a Trindade de Pessoas divinas e a pluralidade de criaturas (como interpreto a Ideia hegeliana: ela, na sua indeterminação, na sua dialética entre "ser" e "não ser" algo definido, está sempre "devindo" na realidade).

Como Dionísio, portanto, Eckhart coloca a Unidade ou a Essência divina acima da Trindade de Pessoas, afastando-se da Revelação Divina em direção às Enéadas de Plotino, e afirmando uma sorte de divindade inicialmente -reitero que do ponto de vista formal, não cronológico- impessoal, o que é típico do pensamento gnóstico: esta divindade impessoal necessita "fazer-se", "conhecer-se" e "expandir-se", na emanação tanto das Pessoas (aqui temos uma versão cristã da gnose), quanto das criaturas, nas quais a Unidade divina (no caso da alma humana, o Entendimento divino) é o núcleo central incriado.



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