Friday, April 01, 2016

Vittorio Messori sobre o islã (4)

Islã/4

“Voltando a nossas ‘hipótese sobre Maomé’, queríamos seguir aprofundando desde os puros e simples dados da história (dos que já assinalamos bastantes) à reflexão da fé sobre estes mesmos dados. ‘Entre as sombras e os enigmas, olhando como num espelho’, como diria são Paulo, que reflexão se pode extrair do escândalo do extraordinário êxito de uma fé que proclama Jesus como um simples profeta já superado?

Em primeiro lugar, há que assinalar que a súbita irrupção desde a profundidade do deserto das hordas de cavalaria detrás dos estandartes de Maomé, ‘o último dos divulgadores’, inicia uma constante que se materializará sempre –e enigmaticamente– ao longo de toda a história da Igreja. Esta constante implica que o fechamento de uma região se acompanhe da abertura simultânea de outras regiões onde se revela a possibilidade de uma nova e abundante colheita missionária.

Assim, no próprio século VII em que o cristianismo perde a área meridional do Mediterrâneo, a Igreja realiza uma espetacular expansão rumo ao norte e o leste da Europa. Os territórios conquistados pelos muçulmanos na Ásia Menor e no norte da África se veem amplamente compensados pelos territórios evangelizados no oriente europeu por parte dos missionários saídos de Constantinopla, e no norte pelos enviados de Roma (quando a cristandade ainda permanecia unida).

Na Europa, a Igreja só cobria a península grega e a Trácia, assim como essa faixa, apenas por um corredor, que vai da Itália à Inglaterra passando pelos países francos.

Por causa dos primeiros êxitos muçulmanos, nunca na história se havia visto a cristandade reduzida a um território tão exíguo. E, entretanto, enquanto a cortina caía no sul, levantava-se no norte e no oeste, de modo que a cristianização do resto da Europa é tão rápida como o são as conquistas asiáticas e africanas do islã. O juvenil ardor dos cavaleiros de Alá lançados à guerra santa na Ásia e África corre em paralelo ao igualmente impetuoso esforço de evangelização –coroado por êxitos imensos, historicamente quase inexplicáveis – dos missionários de Jesus Cristo na Europa. Desde a Síria até a Mauritânia, caem submetidas ao poder muçulmano antigas Igrejas laceradas pelas intrigas heréticas; mas, ao mesmo tempo, veem-se emergir outras Igrejas completamente novas, fiéis, cheias de vida e carregadas de futuro. Para dar um só exemplo: quase no mesmo ano do desembarque islâmico na Espanha, esse monge inglês que tomará o nome latino de Bonifácio começa a evangelização da Alemanha, criando uma sólida Igreja, que foi exemplo de fidelidade a Roma durante quase mil anos.

Pois, como íamos dizendo, a dialética inaugurada nestas datas de ‘fechamento de uma porta e abertura de outra’, converter-se-á em uma constante da Igreja. Isso se comprovará, para citar um dos exemplos mais conhecidos, também no século XVI, quando a Reforma protestante deixará à Igreja uma área de influência tão exígua como a que teve depois das primeiras invasões maometanas. Mas também nesta ocasião, com uma perfeita simultaneidade que reflete o que se perdeu na Europa, ficou amplamente compensado com a abertura do Novo Mundo.

A presença católica se viu novamente reduzida ao mínimo nos inícios do século XIX por causa das tormentas jacobina, primeiro, e napoleônica depois, que devastaram quase tudo o que se havia construído em séculos de esforço. Europa, ademais, começava esse processo de afastamento do cristianismo que conduziria a uma secularização radical.

Entretanto, precisamente a partir deste pobre resíduo, a Igreja –por vez primeira em sua história– converte-se em verdadeiramente ‘católica’, ou seja, universal, com a expansão pelos ainda virgens territórios da África negra e do Extremo Oriente asiático. A cota mais alta de êxito missionário é obtida nas décadas nas que o papa, prisioneiro no Vaticano, medita fugir de Roma e a casta dos incrédulos burgueses europeus que têm o poder em suas mãos contempla com sarcástica compaixão uma Igreja que considera uma relíquia do passado, e em fatal processo de extinção. E, em contrapartida ,precisamente nesses tempos se dá uma expansão inaudita das fronteiras católicas.

Enquanto que no Ocidente europeu os ‘papista’ se veem desprezados quando não perseguidos, nesse Extremo Ocidente que é América do Norte, a Igreja passa de ter uns poucos milhares de fiéis a contar com um quarto total da população. Para dar outro exemplo extraído de nossa época, citaremos que o final, por causa da revolução comunista, da prometedora missão na China irá acompanhado da extraordinária (e imprevista) receptividade ao Evangelho da vizinha Coreia.

Existe, portanto, na história da Igreja uma dialética de ‘perda/conquista’, de ‘fechamento/abertura’ que constitui uma misteriosa constante que se inicia precisamente com a invasão islâmica [Nota do tradutor: na realidade, se dá desde o início: a destruição de Jerusalém é compensada pela conversão do Império Romano].

A conquista muçulmana de todo o litoral que vai de Anatólia ao estreito de Gilbraltar rompe, pela primeira vez, a unidade do Mediterrâneo: o Mare Nostrum, a bacia da livre circulação de homens, ideias e mercadorias. Europa já não tem laços de comunicação com África e Ásia, fechadas pelo muro islâmico. Bloqueada de tal sorte no sul e oriente, a missão cristã se vê obrigada a projetar-se para o norte e o noroeste. Um efeito do islamismo é a criação de uma cristandade compacta na Europa; e esta parte do mundo (como veremos) parece ser o objeto de uma atenção privilegiada e não casual nos misteriosos planos da Providência. Será talvez este ‘primeiro Europa e depois o resto do mundo’, um dos motivos ‘secretos’ que explicam o imprevisto bloqueio que a meia lua impõe à expansão missionária cristã?

Estátua de Carlos Martel
Um motivo de reflexão posterior é oferecido pelo fato de que enquanto as Igrejas da África e da Ásia caíram com a facilidade que vimos, a Igreja da Europa se salvou graças a dois autênticos milagres. David Knowels afirma: ‘Justo no momento em que a tenaz aferrolhava do oeste até o leste, a frota e o exército muçulmanos foram derrotados diante de Constantinopla (ano 717) e Carlos Martel dispersava aos sarracenos em Poitiers (ano 732). Europa esteve a salvo. Ao oeste, os Pirineus assinalavam o limite dos territórios muçulmanos. Ao leste, o Império bizantino pôde sobreviver ainda sete séculos, o que, por outro lado, permitiu a cristianização da Europa oriental, Rússia incluída. Se Constantinopla houvesse caído então, nunca teria sido possível divulgar a fé entre o Danúbio e os Urais’.

Mas esta é só uma prova do enigma colocado pelo islã. Haverá que voltar sobre o tema”.

[MESSORI, Vittorio. Los desafíos del católico: Descubrir la huella de Dios en el mundo que nos rodea. 2a ed. Barcelona: Editorial Planeta, 2002, pp. 59-63; os grifos são meus, exceto o do nome latino]

* * *

Até agora, deixei Messori falar só; acrescento, pois, algumas notas ao presente texto:


1) A constante observada pelo arguto autor é mais uma das provas de que a Igreja católica é a Igreja de Cristo e a verdadeira Religião.

2) No mundo globalizado, as últimas “portas abertas” não mais se fecharão à Igreja de Cristo (cf. Ap 3,8).

3) Subjaz, nessa constante, a verdade de que aquelas regiões cristãs que sucumbem às heresias e se afastam do catolicismo, perdem a proteção de Deus.

4) Se os coptas (monofisitas) egípcios resistem e não temem nem mesmo o martírio, certamente não estão tão longe assim da Fé verdadeira, e terão sua recompensa.

5) O Império bizantino caiu, depois do cisma, mas a Igreja ortodoxa na Rússia resistiu até mesmo ao comunismo (os ortodoxos são Igreja em sentido próprio: têm verdadeiros sacerdotes e Eucaristia, ainda que não estejam em comunhão com o papa). Cumprir-se-á a profecia de Fátima?

6) A Europa ocidental secularizada, se não se converte (cf. Ap 3,20), talvez deva esperar o pior...

2 comments:

Anonymous said...

Creio que onde se lê lacerdas deveria se ler laceradas, e onde fies, fiéis.
Bom texto.

Joathas said...

Corrigido! Obrigado!