Tuesday, March 29, 2016

Vittorio Messori sobre o Islã (1)

O desafio dos parentes próximos: o Islã da Meia Lua 

Islã/1 

"Observou o cardeal Martini, arcebispo de Milão, uma diocese onde os imigrados da África e Ásia são já centenas de milhares: o enfrentamento que nas décadas anteriores os católicos mantiveram com os marxistas será transferido para os muçulmanos. Assim, desmentindo todas as previsões dos que pensavam que o problema do terceiro milênio seria –para os crentes que ficam– o desafio do ateísmo e a secularização, aqui vemos que será o desafio de outra religião. E a menos “secular” de todas elas.

Não se tem enfatizado suficientemente que enquanto o marxismo era um judeu-cristianismo laicizado, o islamismo é um judeu-cristianismo simplificado. De ambos se pode dizer que, sem a mensagem dos profetas de Israel –desde Abraão até Jesus inclusive–, não teriam tido lugar ou teriam sido muito diferentes. Assim, o desafio para o cristão é novamente um “assunto de família”, o qual não é um consolo, dado que precisamente estes são os enfrentamentos mais insidiosos e violentos.

Começando por estas linhas, quiséramos apontar algumas das reflexões que recolhemos ao longo de muitos anos sobre a fé proclamada por Mohamed, “o digno de elogio”, ao que nossa língua chama de forma aproximada “Maomé”. Parece-nos que a histórica migração, da que agora só vemos o princípio, e que está levando a uma nova invasão muçulmana da Europa, justifica o espaço que pretendemos conceder ao tema. Mas, deixando à parte a atualidade cotidiana, interrogar-se acerca do islã é desde sempre um dos deveres principais do cristão consciente de sua fé.

O Alcorão, com efeito, é sobretudo um escândalo: o escândalo de um “Novíssimo Testamento” que declara superado o Novo Testamento cristão. Enquanto os crentes em Jesus estavam seguros de que com ele terminava a revelação divina começada com Abraão e Moisés, vemos aparecer uma religião que não só despoja a Jesus de seu caráter divino senão que, ainda desfazendo-se em respeitosos elogios para com ele, o relega à condição de penúltimo profeta, de anunciador de uma parte, mas não de toda a vontade divina, só completada com as palavras que nos chegam através do último e definitivo dos reveladores, Mohamed. Com este, os cristãos ficam relegados ao passado, gente da qual há que se compadecer porque, ainda que tenham avançado do Antigo ao Novo Testamento, ficaram aí, sem passar ao Alcorão, que se apresenta como a terceira parte das Escrituras, que começam na Torá judaica.

Ali onde nos primeiros séculos de expansão chegavam as hordas muçulmanas, só aos politeístas, aos pagãos, se lhes apresentava o dilema de converter-se e abandonar os ídolos ou ser exterminados. Não acontecia o mesmo com os judeus e cristãos, “o povo do Livro”, que eram submetidos a tributo e encerrados em seus anacrônicos guetos à espera de que se decidissem a aceitar a realidade e reconhecer que a história da salvação havia dado um passo adiante, que Abraão e Jesus não deviam ser abandonados senão superados.

Este é, pois, o escândalo –e o mistério– do Alcorão e da poderosa fé que conseguiu suscitar. Acostumados a olhar os judeus que seguiram sendo como gente com a visão encoberta, incapazes de vislumbrar os novos tempos, os cristãos viram-se, por sua vez, considerados como se estivessem parados na penúltima etapa, sem saber alcançar a última.

Por esta razão o islamismo poderia aparecer como mais crível que o cristianismo aos ocidentais que agora convivem com aquele.  Tempo atrás era a religião dos desprezados povos coloniais, e converter-se teria parecido uma extravagância indigna de um civilizado europeu. Agora, em contrapartida, começaram as conversões e em alguns países, como França, adveio quase um fenômeno de massas.

E isto acontece também porque, sob nossa perspectiva “progressista”, o último que chega nos parece sempre melhor que o que havia antes. Desde a estrela de Davi à cruz e à meia lua não existe quiçá um progresso contínuo? Precisamente por chegar depois de Moisés e Jesus Cristo, não será Mohamed o melhor?

No fundo, são os próprios cristãos os que apontaram esta ideia de progresso, de superação do judaísmo, para abrir-se à nova anunciada por Jesus. Nesta passagem da Torá aos Evangelhos tem origem a visão, que o Ocidente fez sua terminando por laicizá-la nas ideologias “progressistas”, de uma história como subida que leva sempre a novas conquistas.

O Alcorão pode assim impressionar a convicção –que hoje em dia está inscrita na mentalidade do homem moderno– de que o novo sempre é melhor que o velho. Se o proselitismo muçulmano sabe utilizar esta categoria do espírito ocidental, a perspectiva de uma Europa se não islamizada, ao menos profundamente influenciada por este credo chegado do deserto árabe, poderia parecer menos incrível. Ao menos, entende-se, para a escala humana.

Por outra parte, esta passagem teve lugar em várias ocasiões. Doze ou treze séculos atrás, muitos dos antepassados desses muçulmanos norte-africanos que vemos pulular hoje por nossas ruas eram cristãos. No Egito, no Magreb, na Síria, na Anatólia, nos Bálcãs, na própria Palestina, povos inteiros deram o passo –e para sempre, a menos que o queiram de outra forma futuros desígnios divinos– do Novo ao Novíssimo Testamento, de Jesus a Maomé. O islã também conheceu ilhas de resistência cristãs que duraram até nossos dias entre os armênios, os coptas monofisitas do Egito e Oriente Médio, os moçárabes ibéricos. E teve que se retirar de algumas regiões onde a vida cristã voltou a tomar o poder, sem que a islamização se arraigasse, como Espanha, Grécia, Sicília, Mata e boa parte dos Bálcãs.

Mas em outros lugares a meia lua foi mais forte que a cruz; e não só no campo de batalha (que, dentro de uma perspectiva cristã, significa pouco ou nada) senão naquilo que significa mais, nos corações. Uma vez conquistados para a nova fé, esses povos permaneceram, até o presente, fielmente inamovíveis. Ocorreu também nas Igrejas fundadas pelo próprio são Paulo na costa da Síria e na atual Turquia, na Anatólia. E se a espanhola mesquita de Córdoba há séculos se transformou em igreja católica, durante séculos a igreja de Santa Sofia de Constantinopla, rebatizada como Istambul, encontrava-se entre as mesquitas muçulmanas mais veneradas antes de ser transformada em museu.

O próprio Anuário Pontifício leva ainda as marcas do drama: junto aos bispos “residentes”, ou seja, os que estão à frente de uma diocese efetivamente existente, os bispos “titulares”, aparece uma lista dos présulos, ou seja, aqueles aos que se lhes atribuiu o “título” de uma diocese que há mais de mil anos ficou reduzida a um nome, já sem fiéis, que passaram todos às palavras do Alcorão.

Parece ser que só no norte da África –ilustre por ser terra de santos, de padres da Igreja e papas– contavam-se quase uns seiscentos bispados e ao menos havia igual número de regiões situadas a oriente do Egito. Fora algum ou outro núcleo de resistência (que, precisamente hoje, pela crise do Oriente Médio estão em vias de desaparição), quase não ficou nada da abundante semeadura do Evangelho. Todos os esforços para voltar a semear suas palavras resultaram estéreis. Em pouco mais de vinte anos, do 632 ao 656, sob os primeiros quatro califas que sucederam a Maomé, os homens do Alcorão se propagaram desde a Tripolitania ao oeste, até o Indo ao leste e ao norte até o mar Negro, regiões que eram em grande parte cristãs e onde a fé em Jesus acabaria por se extinguir.


Como isto pôde acontecer? Que enigmático significado pode vislumbrar o crente? Isto é o que gostaríamos de ver".


[MESSORI, Vittorio. Los desafíos del católico: Descubrir la huella de Dios en el mundo que nos rodea. 2a ed. Barcelona: Editorial Planeta, 2002, pp. 45-50, grifos do original]

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