Wednesday, March 02, 2016

Reflexões sobre a Música Sacra

Música e Liturgia (artigo que escrevi há 10 anos, mas que se mantém atual): 

Dois trechos: 


"[...] estariam os rumos da Música Sacra seguindo os legítimos impulsos do Espírito Santo? Será que a 'participação' popular preconizada pelo Concílio previa a música barulhenta e os 'shows' que muitas vezes tomam conta de nossas celebrações? Não poderia esta música estar contribuindo para a perda do sentido do mistério celebrado? Afinal, que diferença há, atualmente, entre a música que escutamos fora de nossos templos e a que se executa dentro deles? Deve-se simplesmente pôr de lado toda uma multissecular tradição musical e espiritual (a do canto gregoriano) que se encontra na origem de toda a música moderna? Não seria nosso povo capaz de, com esforço e paciência (também da parte de quem ensina), aprender algumas melodias desse canto ímpar? Devemos deixar de lado a tradição dos corais, substituindo-os por 'bandas', sob o pretexto de que a polifonia dificulta a participação popular? Neste caso, será mesmo verdade que o povo participa e canta quando uma 'banda' executa canções diferentes a cada missa, e em um volume exagerado? A execução de uma peça polifônica não pode ter vez, em algumas circunstâncias, sendo acompanhada pelo silêncio sagrado do povo, que também é um meio de participação? O que se tem feito na Música Sacra não seria fruto, na realidade, da ignorância de seu sentido e mesmo do teor dos documentos supra citados, bem como da falta de direção por parte dos pastores? O que é verdadeiramente o 'canto religioso popular'? Será a música que cantamos hoje em dia na maioria das igrejas?

“No âmbito da música litúrgica, o nível de inculturação deve ser muito mais profundo. A Liturgia é o que há de mais transcendente na Fé cristã, de modo que os aspectos culturais pelos quais irá exprimir-se não podem ser tão efêmeros ou circunstanciais quanto aqueles aspectos presentes na 'música religiosa'. Precisamos nos perguntar, por exemplo: há algo na musicalidade brasileira capaz de elevar-se a um nível de universalidade, de ser escutado por pessoas das várias regiões do Brasil, ou de outra nacionalidade, sem que soe como algo 'exótico' ou meramente folclórico? Haveria ritmos brasileiros com 'capacidade' para ser utilizados na Liturgia (recordando aqueles critérios elencados acima)? É claro que aqui cabem os ensaios, mas creio que na maioria das vezes estes são feitos sem esta pergunta chave (e mais por uma 'ideologia da inculturação', de 'emancipação dos padrões romanos')”.




Apêndice: uma reflexão feicibuqueana:


Uma coisa que me incomoda na música "católica" (feita por católicos) atual, tanto religiosa quanto "litúrgica" (tocada na Liturgia), é que ela, de um modo geral, dirige-se aos mesmos afetos que a música secular, também de um modo geral, atinge, simplesmente colocando uma letra que fala de Jesus. Transmitir a fé não é transmitir somente uns conteúdos, mas também uma "forma", um modo de integrar tais conteúdos numa personalidade cada vez mais conformada a (com a forma de) Cristo. A arte não tem por finalidade precípua a formação da mente (pode até fazê-lo, mas secundariamente), mas a educação dos afetos; se a música cristã não transmite um Espírito distinto, mais elevado, ela não cumpre sua mais profunda finalidade, penso eu. E o curioso é que muitos católicos só escutam esse tipo de música e não escutam música secular...

1 comment:

Ricardo Sá e Benevides JOGLAR said...

Caro amigo,

Vou deixar um breve comentário a ser desenvolvido com mais tempo neste final de semana. O canto gregoriano também já foi considerado (e ainda o é) como algo que "complica a espiritualidade", algo sobrecarregado, anacrônico (para muitos religiosos de hoje) e algo como um "culto ao esteticismo" por muitos medievais. Eu adoro, discordo completamente e sou avesso ao nivelamento por baixo (pra tudo) que se defende sob o disfarce de "mais sinceridade, simplicidade, etc...) para mim, pura preguiça
Sobre os ritmos brasileiros, temos sim, em alguns momentos, o ritmo não precisa ser tão marcado pelas percussões.
Grande abraço