Wednesday, March 09, 2016

Oscar 2016 (2): Spotlight (direção de Tom McCarthy; Oscar de melhor filme e roteiro original)

“Mas quem escandalizar um destes pequeninos, que creem em mim, melhor seria para ele que lhe pendurassem uma pedra de moinho ao pescoço e o jogassem no fundo do mar” (Mt 18,6).

O filme, que é uma história muito bem narrada, e que conta com uma atuação excelente do elenco, retrata de maneira até certo ponto honesta a tragédia da pedofilia e de seu encobrimento sistemático por parte da hierarquia no interior da diocese norte-americana de Boston, da Igreja Católica, um caso particular de uma chaga ainda maior. Digo “até certo ponto” porque, embora, sem sombra de dúvida, os fatos narrados na obra sejam todos verídicos e escandalosos, há uma interpretação dos mesmos que ultrapassa o que seria logicamente deduzível.

No filme, um dos “sobreviventes” dos abusos sexuais, Phil Saviano, expressa com clareza, aos membros da equipe Spotlight (pessoal do jornal Boston Globe responsável por reportagens investigativas), o procedimento dos padres pedófilos: não se trata simplesmente de “ser gay”, pois também meninas estão entre as crianças abusadas, as quais, geralmente carentes (emocional e/ou financeiramente), confiam-se aos sacerdotes, tidos como representantes de Deus; elas se sentem, assim, “especiais”, pela acolhida dos padres, e, posteriormente, ficam “presas” na relação doentia que se estabelece; trata-se de um abuso espiritual, e não somente físico, o qual “rouba a fé” destas crianças, nas palavras acertadas do personagem.

O ex-padre e psiquiatra Richard Sipe complementa a análise, dizendo ao jornalista Michael Rezendes (Mark Rufflo), da Spotlight, que o abuso de crianças frágeis se trata de “fenômeno psiquiátrico” -de um ponto de vista teológico, julgo que isso é expressão de uma índole satânica (culpável)-, indicando, de acordo com sua atividade, que 6% de todos os sacerdotes de Boston estavam envolvidos em abusos. Sipe, contudo, atribui o problema ao celibato, o que não pode ser verdade: tanto porque se trata de um problema do presente (que, de acordo com o filme, começa por volta de 1960, coincidentemente uma época em que a própria fé católica começa a entrar numa crise profunda), quanto porque, mesmo atualmente, trata-se de um percentual bastante pequeno: a grande maioria dos celibatários (sacerdotes e religiosos/as) vive sua consagração de maneira digna, dando glória a Deus e se dedicando às pessoas, quer sejam fiéis católicas ou não, nas diversas atividades apostólicas e caritativas da Igreja. O psiquiatra também faz uma distinção entre a Igreja enquanto “instituição” e sua “fé no Eterno”: não se trata aqui de fazer um tratado de eclesiologia, mas, para quem é católico, a instituição eclesial tem uma dimensão divina que sempre fica resguardada dos pecados de seus membros; é por esta dimensão que seus (bons) membros se santificam e que a Igreja persevera no tempo difundindo sobre a Terra um raio de caridade e de verdade sobre a dignidade humana, apesar de toda a incoerência e hipocrisia de uma parte considerável da sua hierarquia (e também dos fiéis leigos) ao longo da história.

O novo editor do Boston Globe, o judeu Martin Baron (Liev Schreiber), entende que se trata não de um problema pontual, mas “sistemático”. Penso que ele tem certa razão, uma vez que a prática dos abusos e dos encobrimentos não se restringe à tragédia de Boston. No entanto, a impressão que o filme deixa no espectador é de que o “sistema” é a própria Igreja, e não, como seria mais sensato dizer, uma organização parasitária que não é católica, no sentido de que não age segundo os princípios da instituição e que, talvez, trate-se efetivamente de uma infiltração com o único propósito de denegrir a Esposa de Cristo. Bom, esse é um tema para uma outra investigação, muito mais difícil de ser realizada, mas, como já dizia S. João: “Eles saíram dentre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, ficariam certamente conosco. Mas isto se dá para que se conheça que nem todos são dos nossos” (IJo 2,19). Um pecado/crime como a pedofilia não merece ser tratado com condescendência alguma, pois manifesta um nível de malignidade que julgo merecer a pena canônica da excomunhão, sem prejuízo da pena criminal.

O clímax do filme –após uma interrupção na investigação para que os jornalistas se dedicassem ao 11 de setembro– se dá na época do Natal, e há uma interessante cena de um coro infantil cantando, numa igreja, o “Noite Feliz”. Uma interpretação pessimista ou anticatólica veria, na cena, apenas a “hipocrisia da Igreja” que, para fora, cuida das crianças, mas, internamente, abusa delas. Penso, contudo, que se pode ir além disso, dirigindo-nos ao fato de que o Menino Deus se colocou nas frágeis mãos de Maria e de José, a Igreja originária, que cuidou dignamente de Jesus criança, estabelecendo a regra pela qual a Igreja de todos os tempos deve viver: acolhendo os mais frágeis, cuidando deles, de modo algum os escandalizando. Nesta cena, o personagem de Mark Ruffalo está à porta da Igreja, e não entra; anteriormente ele havia dito à colega Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) que “adorava ir à Igreja”e que “achava que ia voltar”, mas que, com a investigação, “algo se partiu” e ele agora tem um “sentimento horrível”. Não há como não lembrar a passagem bíblica em que Jesus se refere aos fariseus (os abusadores são novos fariseus): “Vós mesmos não entrais e nem deixais que entrem os que querem entrar” (Mt 23,13). Assim como Michael Rezendes, quantos católicos não se afastaram da Igreja por causa destes escândalos inaceitáveis?!

A revelação dos segredos relativos aos abusos se dá, significativamente, na Solenidade da Epifania (tempo do Natal), que comemora a manifestação de Cristo, a Verdade, ao mundo. A verdade dos casos de abusos é dura, é escandalosa, mas é muito mais escandaloso o seu encobrimento e, assim, a atividade dos jornalistas que é narrada no filme é meritória, e deve ser encarada de maneira positiva pela Igreja, pois permitiu o início de um processo de purificação já no pontificado de S. João Paulo II, que prosseguiu com Bento XVI (ambos são injustamente caluniados por alguns, como se fizessem parte do “sistema”) e agora com Francisco. Como diz Baron, “tateamos no escuro”, mas em dado momento “acende-se a luz”; ele o diz para desculpar o sentimento de negligência do personagem Walter Robinson (Michael Keaton), que não havia dado importância a uma primeira lista de padres abusadores, enviada há anos. É razoável aplicar um critério análogo aos papas: numa instituição imensa como a Igreja Católica, os pontífices necessitam confiar nos bispos; os encobrimentos por uma parte considerável dos prelados produziu uma situação de obscuridade, que só aos poucos vem sendo iluminada, sem dúvida com a ajuda da imprensa, que precisa atuar independentemente, como Baron diz ao nefasto cardeal Law, numa entrevista ao início do filme.


Enfim, trata-se de um filme que merece ser visto, que narra uma tragédia real, dolorosa, que a Igreja deve reconhecer para se purificar; mas há que se fazer alguns reparos interpretativos na obra, como eu procurei mostrar neste texto, cuja leitura espero que tenha sido útil.

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