Saturday, March 05, 2016

Oscar 2016 (1): Mad Max e a Redenção

"Aonde devemos ir, nós que peregrinamos por este deserto à procura do melhor de nós?"

Com esta frase termina o belo filme "Mad Mad: Estrada da Fúria", de George Miller (6 Oscar técnicos merecidíssimos). Certamente, nele se vê, por um lado, a perspectiva imanentista tipicamente contemporânea, pela qual o ser humano resolve tudo na base de sua própria força física; por outro lado, como toda obra de arte realmente bela, nela está presente a única história que realmente vale a pena contar: a história bíblica da pessoa humana em busca de redenção, à procura do seu lugar natural ("Nasci lá", diz a Furiosa Charlize Theron, cuja excelente atuação ofusca a do protagonista Tom Hardy).

O mundo se tornou um deserto, uma terra desolada. “Quem matou o mundo?”, pergunta uma das personagens. Eu e você, quando não vivemos de acordo com nossa “natureza”, quando fugimos da casa paterna, ou materna, de acordo com o filme. Transformamos o mundo numa terra muito infértil, como nos diz a obra. Vale mesmo a pena atravessar o deserto em busca de redenção, ou a esperança seria um erro, como pensava Mad Max? Ele muda de ideia, percebe, na determinação e na grandeza das figuras femininas da obra, que a vida é um êxodo e um retorno –exitus-reditus, diria um neoplatônico, numa expressão incorporada à teologia cristã–, nos quais é preciso atravessar o deserto, fazer sacrifícios, lutar, e não deixar de “rezar para quem estiver ouvindo”, como faz uma das mulheres.


Ao final da jornada, a água brotará da rocha, não como um instrumento de dominação política (como fazia Immortan Joe), mas como dádiva generosa: “Venham a mim os que têm sede”.

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