Saturday, March 26, 2016

Leitura orante: Vigília Pascal

Primeira leitura e salmo:

“E Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança [...]’.
E Deus vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa” (Gn 1,26.31).

“Quão numerosas são vossas obras, Senhor, / e todas fizestes com sabedoria” (Sl 103,24).

As reflexões iniciais são bastante metafísicas, mas delas será extraído um sentido espiritual prático.

A obra de Deus é sábia (Salmo) e boa (Gênesis): Deus é Inteligência e Amor infinitos, é a Verdade e o Bem absolutos, porque Ele é o Ser absoluto, “Aquele que é”, sem mais (cf. Ex 3,14). Ser Perfeitíssimo, está plenamente presente a Si pela sua Verdade, que é o Verbo, e é absolutamente amável, é o Bem perfeito, o Espírito Santo.

Um Deus assim só poderia ter criado um mundo bom e que reflete a Sua Verdade. A pessoa humana, “imagem” de Deus por sua inteligência espiritual e sua vontade livre, está chamada a reconhecer, pela razão, a Deus como sua origem, para que reconheça sua natureza (de onde “nasceu”) e verdade, e a dirigir-se ao Criador como sua meta, para que O encontre como seu fim, isto é, seu Bem, Aquele que pode plenificar suas potências e trazer-lhe a felicidade. Para isto está no mundo, “bom”, reflexo da sabedoria e bondade divinas, que nos conduz ao reconhecimento agradecido do nosso Pai.


Imagem: “Criação dos animais e criação de Adão” (1432-36), de Paolo Uccello



Segunda leitura e salmo:

“Pela tua descendência se dirão benditas todas as nações da terra, em prêmio por me haveres obedecido” (Gn 22,18).

“Senhor, minha parte na herança e minha taça” (Sl 15,5).

A fé obediente de Abraão, como antes a de Noé, começa a reconstruir a amizade que havia sido perdida por Adão. Na Encarnação e na Cruz de Cristo esta obediência alcançou sua plenitude, e a bênção dos descendentes de Abraão se revela como a graça, como o próprio Deus, cuja presença e companhia serão herdadas pelos fiéis.


Imagem: “Anjo impedindo Abraão de sacrificar Isaac” (1636), de Rembrandt








Terceira leitura e salmo:

“Israel viu com que poder a mão do Senhor agira contra os egípcios, e o povo temeu o Senhor, e eles creram no Senhor e em Moisés, seu servo” (Ex 14,31).


“Vós conduzireis este povo e o plantareis sobre a montanha que vos pertence” (Ex 15,17).

O Senhor libertou o Povo Judeu do Egito como prefiguração da Páscoa de Cristo, que nos liberta das garras do pecado e da morte. Manifestou seu poder e conduziu o Povo à terra da liberdade, que consiste na adoração a Deus, como fala Bento XVI (“Introdução ao Espírito da Liturgia”). Mas necessitou de Moisés: Deus só age através de seus servos; se em Cristo nos fez seus filhos, temos a responsabilidade de manifestar, com nossas vidas, o poder salvador de Deus, com uma vida santa, que seja um convite para que as demais pessoas venham a crer, para que elas vejam que o sentido da vida é adorar o Redentor do homem.

Imagem:  “Passagem do Mar Vermelho” (1481-82), de Cosimo Rosselli


Quarta leitura e salmo:

“[...] no meu eterno amor me compadeci de ti, diz o Senhor, teu Redentor.
[...] Ainda que os montes se abalem e os outeiros vacilem, a minha clemência não se afastará de ti, e a minha aliança de paz não vacilará, diz o Senhor, que te quer bem” (Is 54,8.10).

“Sua ira dura um momento, seu favor a vida inteira” (Sl 29,6).


O Senhor Deus ama sua Igreja com amor esponsal. Apesar dos pecados e das traições, Ele morreu de amor na Cruz, e sua misericórdia, ainda que por vezes não encontre eco em nossos corações, não tarda em remediar nossas infidelidades. A situação da Igreja é muito difícil, parece que os homens não mais escutam a Palavra de Deus, muitos pastores cometem traições terríveis, os fiéis vivem de acordo com a mentalidade do mundo... Crucificamos o Senhor com nossa idolatria, nosso adultério, mas sua Aliança é eterna, Ele virá nos salvar!







Quinta leitura e salmo:

“Vós todos, que estais com sede, vinde às águas. Mesmo sem dinheiro, vinde comprar e comer. [...] Por que gastar dinheiro com aquilo que não alimenta, e labutar por aquilo que não sacia?” (Is 55,1-2).

“Bebereis com alegria a água nas fontes da salvação” (Is 12,3).

Buscamos saciar a sede de felicidade de nosso coração na água lamacenta do pecado, da mundanidade. Não reconhecemos, como aquele centurião, ao ver a água e o sangue jorrarem do lado de Cristo, que Ele é o Filho de Deus Salvador! Ou como a samaritana, que Cristo é quem revela a verdade sobre nós! Ao lado de Cristo, morrer é lucro, como diz S. Paulo! Longe dEle, vivemos em débito, malgastamos o bem de nossa vida, como o filho pródigo. Seu amor é uma fonte que não seca, e é gratuito!, é a graça de Deus! Entreguemos nossas vidas nas mãos do Administrador Fiel, purifiquemo-nos na água viva de sua misericórdia!

Imagem: “Cristo e a mulher samaritana” (1308-11), de Duccio Buoninsegna



Sexta leitura e salmo:

“Por que, Israel, te encontras em terra inimiga, por que definhas em país estrangeiro [...]? É que abandonaste a fonte da sabedoria!
[...] endireita o teu caminho ao esplendor de sua luz” (Br 3,10.12-4,2b)

“A lei do Senhor é perfeita, faz a vida voltar; [...]
As decisões do Senhor são verdadeiras...” (Sl 18,8.10).

Como outrora chamava Israel, como outrora salvou o resto fiel, hoje o Senhor dirige estas palavras à sua Igreja, com a qual selou uma Aliança Eterna. Não pensemos que a promessa de que as portas do inferno não prevalecerão significa que a Igreja conquistará, novamente, algum tipo de triunfo histórico. Isso não é necessário. As palavras do Senhor já se cumprem se existe um homem em estado de graça na Terra. Hoje, o mundo é um lugar inóspito para o cristão, perseguido de várias formas (inclusive fisicamente). Voltemos à luz, à sabedoria, à retidão, e o Senhor, que não abandona seus filhos, fará triunfar a verdade e a vida!

Imagem: “Judeus cativos na Babilônia” (1861), de Edward Harrison May



Sétima leitura e salmo:

“De todas as vossas impurezas e de todos os vossos ídolos, eu vos purificarei. Eu vos darei um coração novo, e porei em vós um novo espírito. Eu tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” (Ez 36, 25b-26).

“Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Sl 41,3).

Sem a graça de Deus, não podemos amar. Sem ela, não podemos viver nem mesmo de acordo com nossa natureza humana. Só no coração de Jesus habitou a plenitude da justiça, da santidade, e Ele, por Seu Espírito, redime-nos, purifica-nos do pecado; santifica-nos, comunica-nos Sua Vida divina; transforma nosso coração petrificado pela indiferença, num coração vivo e pulsante, que experimenta a dinâmica cruciforme da existência, doando-se aos demais, para que participem da vida no Espírito.

Imagem: “Sagrado Coração de Jesus” (1904), de Tarsila do Amaral







Epístola e salmo aleluiático:

“[...] pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova” (Rm 6,4).

“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (Sl 117,22).

Na Igreja primitiva, os catecúmenos eram batizados na Vigília Pascal, como hoje costuma-se fazer com os adultos. A Liturgia Pascal nos recorda que, para viver, é preciso dar morte ao pecado, descer com Cristo à água da pia batismal, que é uma pedra côncava, para recordar-nos que no batismo somos sepultados com o Senhor, e que esta pedra/pia é o fundamento da vida cristã para a qual emergimos. 


Imagem: “O Batismo” (1755), de Pietro Longhi

No comments: