Monday, March 14, 2016

Anselmo de Canterbury e o argumento ontológico

Instado por seus discípulos para que lhes ensinasse uma prova filosófica mais simples da existência de Deus, do que aquelas a posteriori que ele apontou no seu Monológio, Anselmo elaborou a chamada prova ontológica. Ei-la:

Cremos, pois, com firmeza, que tu és um ser do qual não é possível pensar nada maior. Ou será que um ser assim não existe porque o ‘insipiente disse, em seu coração: Deus não existe’ [Sl 13,1]? Porém, o insipiente, quando eu digo: ‘o ser do qual não se pode pensar nada maior’, ouve o que digo e o compreende. Ora, aquilo que ele compreende se encontra em sua inteligência, ainda que possa não compreender que existe realmente. Na verdade, ter a ideia de um objeto qualquer na inteligência, e compreender que existe realmente, são coisas distintas. Um pintor, por exemplo, ao imaginar a obra que vai fazer, sem dúvida, a possui em sua inteligência; porém, nada compreende da existência real da mesma, porque ainda não a executou. Quando, ao contrário, a tiver pintado, não a possuirá apenas na mente, mas também lhe compreenderá a existência, porque já a executou. O insipiente há de convir igualmente que existe na sua inteligência ‘o ser do qual não se pode pensar nada maior’, porque ouve e compreende essa frase; e tudo aquilo que se compreende encontra-se na inteligência.

Mas ‘o ser do qual não é possível pensar nada maior’ não pode existir somente na inteligência. Se, pois,  existisse apenas na inteligência, poder-se-ia pensar que há outro ser existente também na realidade; e que seria maior.

Se, portanto, ‘o ser do qual não é possível pensar nada maior’ existisse somente na inteligência, este mesmo ser, do qual não se pode pensar nada maior, tornar-se-ia o ser do qual é possível, ao contrário, pensar algo maior: o que, certamente, é absurdo.

Logo, ‘o ser do qual não se pode pensar nada maior’ existe, sem dúvida, na inteligência e na realidade” (SANTO ANSELMO. Monológio; ProslógioA Verdade; O Gramático. PEDRO ABELARDO. Lógica para principiantes; A história das minhas calamidades. S. Paulo: Abril Cultural: 1973 [Os Pensadores], p. 108).
Este talvez seja um dos argumentos mais discutidos na História da Filosofia, junto com o cogito cartesiano. A ideia é que se pode provar a existência de Deus a partir do conhecimento de seu conceito/essência: enquanto a essência é confundida com o “ser”, tem-se o “ontológico” do argumento. Santo Tomás o explica assim:  

Diz-se que são evidentes por si mesmas aquelas coisas que, ao dizer seu nome, imediatamente são identificadas. Isto, o Filósofo [Aristóteles] em I Poster o atribui aos primeiros princípios de demonstração. Por exemplo, uma vez sabido o que é todo e o que é parte, imediatamente se sabe que o todo é maior que sua parte. Por isso, uma vez compreendido o que significa este nome, Deus, imediatamente se conclui que Deus existe. Se com este nome se dá a entender o mais imenso que se pode compreender, mais imenso é o que se dá na realidade e no entendimento que o que se da só no entendimento. Como queira que compreendido o que significa este nome, Deus, imediatamente está no entendimento, teremos de concluir que também está na realidade. Portanto, Deus é evidente por si mesmo (S.Th. I, q2, a1, obj2).

O Doutor Angélico analisa da seguinte maneira o argumento:

É provável que quem ouça a palavra Deus não entenda que com ela se expressa o mais imenso que se possa pensar, pois de fato alguns creram que Deus era corpo. Não obstante, ainda supondo que alguém entenda o significado do que com a palavra Deus se diz, entretanto não se segue que entenda que o que significa este nome se dê na realidade, senão tão somente na compreensão do entendimento. Tampouco se pode deduzir que exista na realidade, a não ser que se pressuponha que na realidade há algo tal que não se possa pensar algo maior que este algo. E isto não é aceito pelos que sustentam que Deus não existe (S.Th. I, q2, a1, sol2; grifos meus).

E, para que se entenda melhor sua crítica, cito também o corpo da resposta:

A proposição Deus existe, considerada em si mesma, é evidente por si mesma, já que nela sujeito e predicado são a mesma realidade, pois Deus é seu próprio ser, como veremos (q.3 a.4). Mas, posto que não sabemos em quê consiste Deus, para nós não é evidente, mas necessitamos demonstrá-lo através daquilo que é mais evidente para nós e menos por sua natureza, isto é, pelos efeitos (S.Th. I, q2, a1).

Em outras palavras, nós não temos um acesso imediato à Realidade Divina, que nos permita conhecer seu conceito. Se o tivéssemos, não precisaríamos prová-lo!, não é mesmo? Tomás diz que devemos partir dos “efeitos”, isto é, das “criaturas”. Mas tampouco se parte da consideração formal das coisas reais em que nos movemos como efeitos (da Causa Incausada) ou criaturas (da Causa Eficiente) -o que seria já pressupor a existência do Criador-, senão que o processo argumentativo (por exemplo, o das 5 vias: S.Th. I, q2, a3) revela-nos as coisas como criadas e dependentes de um Criador (efeitos dEle).


No curso do ano passado, eu procurei “salvar” a versão anselmiana do argumento ontológico, pois, à diferença dos argumentos cartesianos, o raciocínio presente no Proslógio não parte de uma ideia inata, mas da ideia que a fé cristã nos oferece sobre Deus. Assim, o argumento de Anselmo seria um silogismo condicional válido: “Se Deus é aquilo que a fé cristã diz [o ser do qual etc.], então ele existe!”. Tal visão se traduz, por exemplo, no poema que dediquei a Anselmo nos meus Sonetos filosóficos. A verdade, no entanto, é que o argumento, desta forma, só prova a razoabilidade da definição cristã: um “ser do qual etc.” necessariamente existe! Mas, para quem não crê, isto é, não tem o acesso privilegiado da fé a tal noção, o argumento é inócuo. Do ponto de vista filosófico, pois, só nos restam as provas a posteriori da existência de Deus, pelas quais podemos, não intuir, mas inferir a Essência Divina.


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